Ironia

24 de Outubro de 2013 Valdir Gomes Contos 827

   Trabalhar é uma atitude nobre.



 
Colher os frutos sensatos de um trabalho é o alvo que todo humano deve
ter. Digo isso porque roubar é pobre, é baixo, é medíocre. Que prazer há em
usufruir de um bem, coisa ou algo surrupiado de quem nobremente exerceu o
direito de possuí-lo? Ah, mas não nos esqueçamos que o fruto maior será
usufruído se a ocupação profissional for prazerosa. Esta introdução não tem a
intenção de lançar uma discussão ou um fundo moralista quanto ao que se deve ou
não fazer; se trabalhar ou roubar. O fato que transcreverei ocorreu. Como
disse, é um fato. Coisa que pode ou deve estar acontecendo a todo instante
neste solo terrestre.



 
Onde tem solo produtivo, tem gente. Onde tem gente, pessoas felizes. Tem
problemas, tem constrangimento, tem solução. Onde tem gente tem agonia, tem
lirismo, tem alegria e tristeza. Onde tem gente mora Alex.



 
Não é um Alex qualquer. É Alexfanser Dalmottienerg. Complicado? O
próprio também o achava. Tanto que a esquisitice do nome já lhe rendara algumas
saias justas. Por exemplo: quando enviara um currículo ao RH de uma grande
empresa, perdera a vaga porque o profissional que avaliara seu perfil, entendera
que intencionalmente Alex havia omitido o nome. Filosofia da empresa, candidato
que oculta o nome, oculta o que realmente é. Portanto, voou a oportunidade pelo
simples fato de o nome assemelhar-se a uma sopa de letrinhas. Outra situação,
ainda mais constrangedora foi na colação de grau do seu tão sonhado curso de
contabilidade.



 
Que felicidade! Cada colega sendo anunciado e se dirigindo ao paraninfo
para receber o canudo! Antonio, Maria, José... e, por fim Alexfanser
Dalmottienerg! Realmente era esse o nome que nosso amigo esperava ouvir, mas
pasmem! o que se ouviu naquela noite, nem ele, tampouco os convidados esperavam
ouvir do locutor. Anunciara-se para se dirigir à bancada, o formando Alfonse
Dal Morto! Isso soou como um péssimo presságio. É óbvio que todos os presentes
olharam-se de um lado para o outro, catando o tal formando misterioso. Como
ninguém se habilitara manifestar-se, levantou-se Alex. Era o próprio. Como haviam
grafado tão erroneamente o seu nome, somente mais tarde soubera. De Alexfanser
Dalmottienerg para Alfonse Dal Morto! Que horror! Estava vivinho da silva!
Pronto, agora, após a formatura, lançara-se Alex numa busca incansável pela
correção do nome. Tinha de fazê-lo. Primeiro teve de procurar o setor
responsável pela confecção dos certificados da universidade. É digno de nota
que a luta fora árdua. Ninguém se propusera assumir o erro. Grafar Alexfanser
Dalmottienerg para Alfonse Dal Morto era uma ofensa! E como tal, ninguém
assumira a responsabilidade. Ah, até que enfim, alguém de bom coração resolveu
o problema de Alex. É claro quer a culpa recaíra sobre o computador. Coitado do
computador! Como se defenderia? Um violão não toca música sem que alguém lhe
dedilhe as cordas...



 
Enfim, o pesadelo de Alexfanser Dalmottienerg chegara ao fim. Bem, não
ao fim como cogitara ele, coitado! Depois de mais de 180 dias de andanças,
cobranças e audiências, a justiça obrigara a correção de seu nome.



 
De posse de seu certificado, agora sim, pode preencher um currículo e
distribuí-lo. “Agora”, pensou ele, “é só aguardar e choverá entrevistas de
emprego”. Alex sabia que enfrentaria uma grande concorrência, mas preparara-se
bem. Era jovem, saudável, perspicaz, e ocupara-se muito em cursos de
treinamento para entrevistas de emprego. Coisa que está em voga. O tempo
prosseguiu urgindo e, para não ficar totalmente a mercê de um toque de telefone,
Alex ocupara o tempo em fazer biscates. Um free
lance
aqui, uma assessoria ali, declarações de imposto de renda via
internet acolá... e o tempo foi passando. A expectativa minando, sonho se
esmigalhando, dívidas acumulando e locador o aluguel cobrando.



 
Certo dia, feliz, Alex recebeu uma ligação para entrevista de emprego.
Se contratado, teria uma carreira promissora. Mas o sonho logo turvou-se quando
no endereço chegou e descobrira que havia mais de mil candidatos por umazinha
vaga! Que absurdo! Era essa proporção de candidatos/vagas que existia no curso
que escolhera? Tristemente ficou o rapaz, quando lhe confirmaram que sim.



 
Passado o tempo, mais desenxabido ficou Alex ao ver o sonho de uma
carreira profissional de alegria se tornar uma longínqua expectativa humilhante
de probabilidade ínfima.



 
Quando tudo lhe parecia perdido, Alexfanser Dalmottienerg leu uma
notícia no jornal. Era uma esperança macabra, por assim dizer, mas, se surtira
efeito com o personagem da reportagem, imaginou que também seria positiva
consigo. Num átimo se dirigiu ao viaduto mais estratégico da cidade e lá se pendurou,
numa posição de alto risco, com um cartaz onde se lia: “ Eu preciso de um
emprego.” O que Alex cogitava era um emprego ou a morte. Um emprego pela sua
vida. Não era um ato heróico por benignidade, mas egocêntrico. Imaginara ele
que, como ocorrera com a personagem que lera no jornal, na reportagem, alguém
de bom coração logo surgiria montado em
um cavalo branco
e lhe proporia um belo emprego. Expectativa errada.



 
Alexfanser Dalmottienerg ficou lá, naquela ingrata e arriscada posição a
tarde toda. Ninguém o viu, exceto um pombo que voando por lá, despejou sobre
seu ombro o seu excremento e o vento que lhe arrancara o cartaz e o lançara
longe. A decisão de forçar um suicídio não deu certo. Agora estava faminto,
humilhado, cagado e sem dinheiro para tomar um ônibus de volta pra casa. O
vento soprava forte. Alex saiu do local e foi atravessar a rua. Não viu um
caminhão que vinha; o vento ensurdecera-o. O veículo buzinou. O atropelamento
foi inevitável.



 
Quando acordou, já no leito de um hospital, Alex descobriu que ficara
mais de um mês em coma! Ainda entubado, perguntara a enfermeira o que lhe havia
ocorrido. Resposta? Havia sido atropelado gravemente e perdido as duas pernas!



 
Que sina a de Alexfanser Dalmottienerg! Formado em contabilidade,
endividado, sem emprego e, pior, sem as pernas! Agora, Alex mudava de
estatística. Além de desempregado, entrava na fila dos desempregados
deficientes! Fila? Que fila? Feliz da vida o homem ficou, quando certo dia,
tomando sol na companhia de sua cadeira de rodas, lendo um artigo numa revista
de grande circulação, uma reportagem dizia que empresas de grande porte, por
força de lei, tinham de contratar deficientes qualificados para ocuparem cota
de funcionários especificados em lei. Alex ligou, foi contratado imediatamente.



 
Que ironia! Está desempregado? O que acha de perder uma perna, um braço,
a cabeça...?

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