Bodas de Ouro

26 de Outubro de 2013 Elias Lima Contos 2768

Meu velho não segurou a minha mão agora ao descermos na
escada rolante deste shopping que freqüentamos todos os domingos para almoçar.
Agora, neste momento eu não sei há quanto tempo isso vem acontecendo.
Sinto uma ausência de afetos que chega a me doer neste momento, como se eu fosse só. Sou?
Abaixo a cabeça e a levanto para prestar atenção no fim da escada, para não tropeçar.
É verdade, para a minha surpresa, agora duramente desagradável. Eu estado sozinha há muito tempo.

Ele continua andando em direção ao restaurante. Não sente o meu perfume, não percebe que comprei um colar novo só para ficar mais bonita pra ele e também não pega minha mão como pegava quando namorávamos, já faz tempo que ele não sente o calor delas. Será que me vê também?

Sentamos em frente ao restaurante. Ele com a cabeça baixa, lendo o cardápio já nem me pergunta o que vou querer hoje. O garçom chega e ele diz, o mesmo de sempre amigo!

Pensei que neste 50 anos de casamento jamais fosse me sentir assim: só e insegura do sentimento do homem que eu escolhi passar o resto da minha vida. A vida é cheia de surpresas né? E tão desagradável por vezes e por horas, cruel se permitirmos pensar um pouco, ou pior refletir.

Abaixo a cabeça e reflito. Ele pergunta, o que você tem Maria, está passando mal?
Não, estou bem, só pensando numa coisa aqui, disse a ele. Na verdade estou me sentindo mal. Mas sabe né, tem coisas que a gente não conta nem pros nossos maridos. Somos inseguras e inseguros por natureza, ou por medo de perder?
Sabe aquele livro que eu estava lendo esses dias João? Sobre a política nos relacionamentos? Ele vira-se pra mim, pois estava olhando as pessoas em volta e responde, que livro?
Um que diz sobre a ética entre os amantes ou pessoas que deveriam se amar pelo menos. Me fez pensar tanto. Você tinha que ler, disse numa súbita esperança de que talvez ele se interessasse e quem sabe percebesse que eu estava me sentindo infeliz neste momento. Ah, depois de 50 anos de casamento, a gente já reconhece até o flato do outro (riu) e nem precisamos mais de livros para manutenção dessa instituição que é o casamento né? Encerrou a fala com um sorriso e voltou a olhar os preços dos pratos no cardápio.
É, acho que não, respondi entristecidamente, abaixando a cabeça fingindo estar procurando o cartão de crédito na bolsa em meu colo.

Com João eu construi uma vida digna. Sempre trabalhei, sempre estudei. Cuidei dos meus dois filhos, Lucas e Sofia com muita dedicação, que hoje já estão casados e financeiramente estáveis.
Será que João ainda me ama? Será que ele ainda me quer como esposa? Será que me deseja? Será que está comigo só porque está velho e tem receio de não conseguir encontrar outra mulher? Essas perguntas me angustiam. Melhor parar.

Mas hoje, antes de dormir vou reparar: se ele me abraça como me abraçava antes, se me beija a bochecha e me diz “boa noite minha princesa” como sempre fazia e se ao acordar, ele liga o som bem baixinho e coloca para tocar “Corcovado” de Tom Jobim, no intuito de me encantar como sempre fazia no começo do casamento.

E se tudo isso não acontecer, eu prometo não chorar, não me entristecer como uma adolescente despreparada e insegura.
Prometo.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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