Simplesmente um nome

05 de Novembro de 2013 Valdir Gomes Contos 763

O dia amanhecia.
Uma leve brisa dava uma sensação de refrescância, para quem estava fazendo uma caminhada matinal, uma caminhada até a padaria ou para quem estivesse parado no ponto de ônibus, aguardando a condução. Prometia-se chuva para logo mais.
Longe de estar num dia de folga, Ricardo estava na fila dum ponto de ônibus. À sua frente duas moças conversavam constantemente. De vez em quando olhavam-no de soslaio, fato este que percebera, mas que também camuflou muito bem. Pelo fato das duas estarem vestidas de branco, percebeu que eram enfermeiras.
Logo atrás de si, na mesma fila, mais pessoas.
Já fazia mais de meia hora que Ricardo estava ali naquela fila. Suava um pouco. Ajeitou a mochila nas costas. Estava indo ao trabalho...
Sua vida parecia bem rotineira. A sensação que tinha era de que funcionava como uma máquina ou um robô. Por um breve momento ficou pensativo, tentando buscar lá no fundo dos neurônios alguma recordação sobre aquele momento. De repente, como que num lapso de memória, pareceu ter acordado ali, exatamente ali, naquele ponto de ônibus. Minutos antes havia perguntado a hora para o sujeito imediatamente atrás de si, na fila e este com certeza lhe havia respondido... mas agora, novamente sentiu desejo de perguntar as horas, todavia constrangeu-se.
Mostrando-se um pouco impaciente, repetidas vezes colocava as mãos nos bolsos, depois tirava-as. Ações estas que fizeram com que o homem que estava logo atrás de si perguntasse se ele estava bem. Ricardo respondeu que sim. Mas ele estava bem mesmo! Somente algumas sensações inexplicáveis lhe envolvia a mente... ora o lugar onde estava, ora as pessoas ali.
Enfim, a ansiedade pareceu minar, quando avistou o ônibus se aproximando do ponto. Enquanto o coletivo estacionava, como era seu costume, lembrava-se disso, levantou a cabeça e correu os olhos pelas janelas, tipo procurando reconhecer ou encontrar algum dos colegas de trabalho que também tomavam aquele ônibus, para então entrar no veículo e procurar se aproximar deles. No entanto, de repente os olhos de Ricardo fixaram-se profundamente no rosto de uma linda mulher. Por uns cinco segundos, os dois se olharam. Ela sorriu. Seu coração palpitou. Que sensação gostosa e... estranha! Aquela mulher sorrindo, mexeu com sua cabeça.
De repente, caiu em si quando lhe assinalaram que deveria subir no ônibus.
Ricardo fez isso rapidamente. Pagou a passagem ao trocador, passou pela roleta e começou a procurar por aquele rosto feminino tão cativante. A tarefa não seria nada fácil. O coletivo estava superlotado; mais pessoas de pé do que sentadas. Bem, pelo menos ele havia percebido que a mulher estava sentada. Então logo a encontraria, pensou.
Aquele meigo olhar que lhe cativou pela janela... que interessante! Ricardo estava sentido uma sensação única. Aquele rosto de repente não mais estava deixando a sua mente... quanto tempo tomando aquela condução e não se lembrava de nenhuma outra oportunidade de tê-lo visto.
O rapaz foi pedindo licença aqui, pisando num pé ali, se desculpando acolá... somente parou quando avistou a mulher. Sentiu seu coração acelerar.
O ônibus pôs-se em movimento.
Ricardo percebeu agora que a mulher não estava só. Enquanto de fato ela ocupava o banco da janela, no banco do corredor estava um garoto. Este lhe olhou e sorriu. Ricardo correspondeu. Por sua vez a mulher também olhou para ele e repetiu o sorriso de quando estivera do lado de fora.
Embasbacado, Ricardo prosseguiu, ora olhando-a, ora disfarçando-se. Ficou o tempo todo procurando um motivo para que pudesse puxar um diálogo com ela. De repente sua mente trabalhou:
— “Bem que ela poderia pedir a minha mochila pra segurar” — Pensou ele.
— Posso segurar sua mochila? — De repente a mulher pediu, deixando um sorriso.
Caramba! Acabara de pensar naquela possibilidade e, de repente, como se estivera lendo seu pensamento, ela dissera aquilo.
Ricardo sentiu o corpo estremecer. O coração pareceu lhe sair pela boca. Sem titubear entregou a mochila para a mulher. Ela lhe parecia mais linda ainda, quando lhe sorriu. Timidamente agradeceu com um obrigado e depois um sorriso.
Para não deixa-la talvez, envergonhada ou mesmo acuada, diante de sua insistência em observá-la, Ricardo levantou o rosto e prosseguiu olhando a janela do ônibus, enquanto postes, árvores, casas, muros e pessoas passavam rapidamente. Começou a viajar e, de repente, sua mente estava novamente criando uma situação...” seria interessante se aquele garoto, sentado ao lado daquela sublime figura, levantasse-se e o deixasse sentar ali, ao lado dela...
— Com licença — disse-lhe o garoto, levantando-se, enquanto também espargia um belo sorriso. — Se o senhor quiser sentar-se... vou descer na próxima parada.
Ainda não acreditando no que estava acontecendo, Ricardo também sorriu para o garoto. Agradeceu-o e, involuntariamente fez-lhe um carinho no cabelo em forma de agradecimento. O garoto afastou-se.
Sentado ao lado da mulher, Ricardo sentiu-se uma pedra. Procurou vários motivos para puxar assuntos com ela, mas não conseguiu. As palavras pareceram-lhe faltar... Sentia um gostoso perfume emanar da mulher e isso começou a bagunçar-lhe a mente. Procurou por alguma coisa que pudesse fixar seus olhos. Então, ao levantar a cabeça, deparou-se com as duas mulheres de branco que outrora deduzira serem enfermeiras também o observando. Assustado sorriu-lhes. Timidamente elas corresponderam.
Agora Ricardo ficou ali, olhando a mochila em seu colo, procurando palavras para falar com a mulher, mas estava travado.
— “Vai chegar a parada de destino dela e não perguntei-lhe nem o nome” — Pensou novamente ele.
Pra deixa-lo ainda mais perturbado, a mulher levantou-se e pediu-lhe licença, dizendo que desceria na próxima parada.
A única expressão que saiu da boca de Ricardo, foi:
— Ah, desculpe. Bom dia!
A mulher levantou-se então e dirigiu-se à porta. Assim que o ônibus parou, ela desceu, sem antes dar uma olhadela para Ricardo e sorrir-lhe.
Ele a observou descer juntamente com outros passageiros e graciosamente caminhar pela calçada.
O ônibus continuou parado... estranho! Normalmente tão logo os passageiros descem de um coletivo e o motorista já o coloca em movimento novamente... mas, de repente, aquele ali prosseguia por alguns segundos parado, quando ninguém mais descia.
Ricardo ficou ali, petrificado, o coração a sair-lhe pela boca de tanto que batia.
— O nome dela... eu nem sei o nome dela! — Pensou em voz alta.
Então, uma das passageiras enfermeira lhe fez um sinal para que ele seguisse a mulher.
E foi o que fez. Um estranho ímpeto também lhe forçava fazer isso. Ricardo avisou em voz alta que iria descer e assim fez. Tão logo estava na calçada, avistou a mulher que já andava meio quarteirão. Não sabia onde estava. O único ponto de referência foi ela.
A misteriosa mulher andava e Ricardo apertava o passo. A ideia era alcança-la o mais rápido possível. A mulher não parou. Percebia-se que ela olhava para trás quase todo instante. Às vezes levava as mãos ao coração. Parecia ansiosa ou fatigada.
Ricardo pensou em correr, mas lembrou-se que tal atitude poderia ser mal interpretada. Ele só queria saber o nome dela... somente o nome dela! Apertou ainda mais o passo. Já a mulher deixando perceber que estava sendo seguida, procurou também manter a distância.
Algumas pessoas transitavam pela calçada. Fato este que a todo instante exigia que Ricardo se desvencilhasse delas, ao mesmo tempo que procurava não perde-la de vista. De repente, como que tomado por uma atitude incontrolável, jogou a mochila e começou a correr em direção da mulher.
— Ei espere! Preciso saber o teu nome — gritou ele.
A mulher parou e virou-se para trás. Ela sorriu. Ele não parou e continuou aproximando-se dela.
— Desculpe-me! Eu só quero saber o seu nome!
A mulher então abriu os braços e ele, de repente, completou:
— Eu preciso saber o seu nome... CLARICE!?
De repente, como que saído de um transe, ambos abraçaram-se longamente diante de muitos curiosos.
— Ricardo, é sua Clarice! Você voltou! — Disse a mulher em prantos.
Ouviu-se muitas palmas. Logo a calçada começou a ficar cheia de gente. As duas enfermeiras se aproximaram e largamente sorriram. Todos também sorriram... um misto de alegria e choro tomou conta da multidão. O ônibus ficou vazio. O garotinho que outrora estivera sentado ao lado da mulher no ônibus aproximou-se e abraçou os dois, também chorando e dizendo:
— Bem-vindo, papai!
E ele:
— Meu filho! Vinícius!
Na esquina oposta uma ambulância estacionada. Dois médicos também se abraçaram e um comentou:
— Conseguimos! Deu tudo certo!

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