Agradecimentos:

A uma pessoa muito especial que me serviu de inspiração. Espero que não fique chateado!

Olá, me chamo Beatriz. Meus amigos costumam me chamar de Bi ou Bia mesmo. Tenho estatura mediana, não muito alta, pele clara, cabelos curtos, castanhos claros e cacheados, como os da linda Mira Aroyo um dos membros da banda Ladytron , de que sou muito fã; olhos verdes claros. Moro na zona oeste de São Paulo, divido um ap com Luisa, uma amiga de faculdade. Ele é super cool e moderno, dois quartos muito bons, cozinha americana, uma ampla sala e uma pequena varanda.  De piso frio muito mais prático e particularmente muito bonito. A decoração da sala é bem cleam: paredes em tom cinza claro; um sofá de dois lugares todo quadriculado multicolorido, com almofadas estampadas com símbolos da Internet, tipo: facebook , passarinho do twitter, bem bacanas; uma mesa de centro em formato de ipod ; um tapete redondo preto, metade furadinho; um abajur de chão, com cúplua em tom creme meio transparente de flores laranjas e vermelhas; uma luminária central de teto, redonda; sobre a bancada da cozinha duas luminárias penduradas, motivo Campbells Soup, tipo as do Ingo Maurer , um designer que gosto muito; já ia esquecendo: alguns bonequinhos toy art que sou aficcionada,  e a palavra love em relevo e vermelho na parece. No meu quarto paredes em tons de cinza também, e uma em azul, alguns desenhos, aquelas bonequinhas do Nara Yoshitomo , uma estante de livros e CDs. No banheiro nada demais: apenas uma luminária vermelha bem gracinha acima da pia.  

Sou estudante de Design de Interiores. Desde pequena sempre gostei de tudo arrumadinho, escolhia os moveis do meu quarto e gostava de decorar à minha maneira. Não faz muito tempo que mudamos. Compramos cada móvel e cada peça da decoração. Acabamos gastando mais do que prevíamos. 

Na mudança, meu computador acabou pifando. Não podia ficar sem ele, mas no momento não teria como comprar outro agora. Pensei em mandar arrumar, mas ainda não conhecíamos muito a região e nenhum técnico de confiança. Ligo para minha mãe para saber se ela conhece alguém:

“ Oi mãe. Tudo bem? Mãe, você conhece algum técnico bom de informática? Acredita que meu computador pifou na mudança. Não posso ficar sem ele. Pior que tinha umas músicas que gostava tanto e uns trabalhos importantes.”

“Deixe-me pensar...Ah tenho uma colega de trabalho, a Ingrid, que mora ai perto, talvez ela conheça. Vou ligar para ela. Em seguida te ligo, filha.” “Obrigada mãe. Não posso gastar muito agora.”

Não gosto de pedir essas coisas para minha mãe. Ela é um pouco atrapalhada. Mas como realmente estava precisando de um técnico, não teve muito jeito. Enquanto isso na casa de Stela ela telefona para tal Ingrid.

“Ingrid tudo bem? Aqui é a Stela que trabalha para a senhora Marta.”

“Olá. Bem e você como vai?”

“Bem também. Então, minha filha se mudou para um apartamento com uma amiga, muito bom, ai perto de sua casa. E o computador quebrou na mudança. Ela precisa de um técnico de  confiança. A senhora conhece algum?”

“Claro. Meu filho. Ele é muito bom com essas tecnologias. E você sabe, dependo muito do computador, a maior parte de meu trabalho recebo e mando via computador. Quando dá algum problema aqui, é ele quem resolve. Me passa o telefone dela que peço para meu Alexandre ligar assim que chegar.”

“Obrigada. Minha filha estava com receio de pegar qualquer técnico. E elas gastaram mais do que previam na reforma, agora não vai dar para comprar um novo computador.”

“Pode ficar sossegada. Meu Alexandre resolve. Se precisar trocar alguma peça, ele sabe onde tem peças boas e com preços ótimos, não vai gastar muito.”

“Mais uma vez obrigada.”

Passado uns vinte minutos minha mãe liga.

“Nossa que demora!! Aposto que é dessas senhoras que fica contando a vida pelo telefone. Imagino o tipo de técnico que ela vai me arrumar.

“Ai filha, quanto preconceito!! Ela indicou o filho dela, o Alexandre. Disse que ele é muito bom. Ele que conserta tudo na casa dela. Ingrid trabalha com tradução, depende do computador. Pelo que me disse não deve ser ruim não. E melhor, ela disse que não vai cobrar muito. Ele vai te ligar.”

Ai...ai...Já estava vendo o tipo de técnico que ela tinha me arrumado. Mais um daqueles nerds filhinhos da mamãe, metidos a saber tudo. O jeito era esperar. Vou até o supermercado, precisava fazer umas comprinhas para semana. Chegando em casa o telefone estava tocando. Estava sozinha, minha amiga havia ido para casa dos pais no interior, a mãe dela estava doente, teria que ficar uma semana por lá. Atendo esbaforida.

“Alô. Ufa.” 

“Olá. A senhorita Beatriz está.”

“Sim, sou eu.”

“Olá. Aqui quem está falando é o Alexandre. Minha mãe disse que está com problemas com seu computador, não é? O que aconteceu?”

“Ah. Oi Alexandre. Tudo bem? Então ele não liga. Acho que aconteceu alguma coisa na mudança. Tenho muitos arquivos que não queria perder e agora não posso gastar muito. Pensei em só consertar e ver se der para fazer um upgrade . Você mora com sua mãe?” 

“Sim.”  “disse ele sem entender muito a pergunta.”

“Ah então é bem perto do meu apartamento. Como fazemos? Você vem aqui em casa?”

“Vou ver se minha mãe está livre amanhã para me levar de carro. Posso passar ai de tarde.”

Ele vai perguntar para mãe dele e volta e diz que tudo bem. Marcamos no sábado por volta das 14h. Não sei, não estava confiando muito nele. Tinha uma fala muito baixa, difícil de entender, um tanto inseguro. O jeito era esperar. 

Esqueci de contar que temos uma gata, a Mia. Ela é uma fofa, muito carinhosa, não costuma ser muito sociável. Uns amigos tinham me convidado para sair, iríamos em algum bar na Augusta ou talvez no Berlin, nossa acho a decoração do Berlin muito show.  Mas estava um pouco cansada por causa da mudança, e achei melhor não sair. Fiquei em casa vendo tv.

No dia seguinte, acordo mais ou menos cedo. Dou comida para Mia e saio. Estava com vontade de pastel de feira e caldo de cana. Nada como pastel de palmito e caldo de cana. Coisa que há muito tempo não comia. Aproveito para comprar algumas frutas fresquinhas. Nossa! Como a feira se transformou em um desfile de moda de uns tempos para cá, vejo muito mais jovens, modernos e muito bem vestidos. Parece que se voltou o antigo hábito de fazer feira. Eu gosto do colorido das barracas, das variedades, dos aromas. Particularmente vou mais como passeio e nem tanto para fazer compras. 

Volto logo para dar uma arrumada em casa antes da chegada do técnico.Termino tudo mais ou menos cedo e fico aguardando. Passavam das 15h e nada dele aparecer. Bom, pontualidade nesta profissão é algo raríssimo. Por volta das 15h30 eis que ele chega. Era um tipo alemão, bonito, alto, forte, loiro, de olhos verdes, barba por fazer e óculos. Em nada parecia com a pouca voz ao telefone. Esperava um tipo nerd, franzino, magro. 

“Alexandre?”

“Sim. Prazer.”

“Bia. Prazer. O computador está no meu quarto. Ele nem liga. Nossa tenho tantos arquivos que não gostaria de perder. Sem contar minhas músicas que não tive oportunidade de gravar.”

“Então. Vamos ver. Pode não ser nada mais sério. Vou tentar ligar.” 

“Ok.”

Ele dá uma olhada, aperta uma série de botões, teclas. Parece que nada funciona mesmo. Nisso já se passaram uns vinte minutos. Não ia ficar ali parada esperando. Ofereço uma água, café etc...Aceita o café. Sem açúcar! Digo que estarei na cozinha e que qualquer coisa me chame. Preparo um café fresquinho e levo até ele, que devolve um quase inaudível obrigado. Vi que a comunicação não era o forte do rapaz. Já haviam passado mais de 1h e nada. Vejo que minha Mia sumiu, ela estava dormindo na caminha dela na sala. Vou até o quarto ver se está tudo bem. Mia estava lá o rodeado, parece que os dois se entenderam e olha que ela não é de ir com qualquer um. Só então reparo nos adesivos de sua mala, um I love cats, um I love livro (em desenho) e outros. Lembrei-me que minha mãe uma vez comentou que Ingrid adorava gatos também. Pergunto se está tudo bem. 

“É. Então...Parece mais complicado do que pensei. Me diz o que quer realmente que eu faça. Levo para casa e trago a semana que vem.” 

“Como já havia dito pensei em colocar mais memória, um gravador de DVD e tem uns arquivos que não queria perder. Fora minhas músicas, estou sem tocador de mp3.”

“As músicas posso gravá-las em CD. Semana que vem ligo para dizer em quanto vai ficar. Se aprovar já começo.”

“Ok. Combinado”

Vejo que Mia se engraça toda, enroscando nas pernas do rapaz. Quando vamos para a sala, ela sobe na mesa pedindo carinho e de pronto é atendida por ele. Nossa! nunca tinha visto Mia tão atirada assim, ela realmente gostou dele. 

“Pelo que vejo gosta de gatos também? A Mia não é de se engraçar com qualquer pessoa. Gostou de você.”

“É. Gosto muito. Temos cinco gatos em casa. Até.

”Até.”

Tomara que traga logo meu computador. E que não precise tão cedo de um técnico. O rapaz era de uma timidez, mal conseguia entender o que dizia. Não sei se é porque sou muito extrovertida e às vezes falo demais. Não estou acostumada com esses tipos. Assim que o rapaz sai ligo para minha mãe:

“Mãe!! Não sei como ainda pergunto as coisas para você!!!” 

“Nossa filha, que foi? O Alexandre não apareceu?”

“Então. Acho que apareceu.”

“Como assim, acho?”

“Mãe, o garoto mal abre a boca.

Foi difícil entender meia frase do que ele disse, de tão tímido. Ficou aqui mais de 1h30 e nada. Teve que levar o computador para casa. Será que ele é mesmo técnico? Mãe, você confia nessa tal Ingrid?”

“Confio. Ela é uma senhora muito respeitável. Deve ser só timidez mesmo minha filha. Pelo que ela me contou ele é músico, toca violão e violino, algo do tipo e é muito estudioso.”  

“Ai tomara que seja estudioso mesmo e que resolva logo o problema do meu computador. Ah então está bem mãe. Era só isso mesmo. Não senti muita firmeza nele, mas agora fazer o que. Disse que me liga para dar o orçamento. Por enquanto vou usando o da Lu.”

Assim que desligo toca meu celular, era uma mensagem de um dos meus melhores amigos: Rodolfo, convidando para ir mais à noite no D-edge  parece que teria dois sets de minimal  de DJs internacionais muito interessantes. Não estava muito a fim de gastar, mas desde que mudei ainda não havia saído para me divertir e com a Luisa viajando, ia ficar sozinha em casa. Mando uma mensagem dizendo que vou. Ele manda outra dizendo que passa para me pegar de carro mais à noite. Resolvo dar uma olhada no site do D-edge para ver o tipo de som dos DJs. O chileno era bem interessante, mas para falar a verdade gostei mais dos brasileiros. A noite prometia ser muito boa. Como levantei cedo, preferi dar uma descansada antes de sair. Meu amigo disse que ligaria antes de ir me buscar. 

Acordo por volta das 20h. Como alguma coisa rápida. Dou comida para Mia. E sigo para um revigorante banho. Não estava muito frio, resolvo vestir calça saruel, lilás acinzentado; uma blusinha cinza toda de strass; um colar de couro, de um design muito interessante, fino, todo ondulado em tom de preto e por fim um tênis. Meu amigo chega às 22h30 com seu namorado. Os dois como sempre muito bem vestidos. Queria saber por que gays sempre se vestem tão bem, muito melhor que nós pobres mortais. Entrando no carro estavam ouvindo Vive la Fête : ‘La Route’. Comento:

“Nossa Rods, lembra daquele show de 2008 na The Week ? Nunca imaginei que veria eles aqui em Sampa ao vivo. Meu, aquela noite foi tudo. A Eels tem uma presença de palco. E o Danny, ai...ai...Tão demais o carinho dos dois né. Trocam olhares o show todo.”

“Se é Bi, aquela noite foi fodástica. Ai, pena que o Danny só tem olhos para ela, eu bem que queria um desses para mim...Tão Rock n’ Roll...Brincadeirinha viu Fred, você sabe que você é meu Danny. O clipe de ‘La Route’ até que tem seu charme.”  “diz Rodolfo.”

“Acho bom mesmo!!! Porque eu não troco você Ro por nenhum Danny, viu!. E olha que já vi o documento do rapaz ao vivo e a cores, aquela noite que o bofe caiu na balada.” “diz Fred”

“Olha que declaração...hein!”.

Seguimos conversando e ouvindo música. Rods tinha também algumas música da banda dEUS  outra belga muito boa. A noite foi bem agradável. Terminou com o set de um brasileiro, que gostei muito. Ele reparou que estávamos muito animados e que ficamos até o fim do set, então veio falar com a gente. Ai...ai...me pareceu bem interessado. Não sei o que me deu, o cara era um tremendo gato, mas sei lá não estava no clima, acabei não investindo. Meus amigos até que insistiram, acabei voltando para casa sozinha. Eles me deixaram no metrô.

Cheguei em casa estava quase amanhecendo. Fui dormir.  Mia estava na minha cama me esperando. Ela não gosta quando fico muito tempo fora. 

Domingo nada demais para fazer.

Acordo mais de meio dia. Minha mãe tinha me convidado para almoçar em sua casa. Cozinha definitivamente não é meu forte, posso dizer que sei fritar ovo, não passa muito disso. Tinha que terminar um trabalho de faculdade, então não demorei muito na casa da minha mãe. Assim que entro em casa toca a campainha, era Fernanda namorada da Luisa, estava querendo saber notícias dela.

“Oi, Bia. Tudo bem? Desculpa vir sem avisar.” 

“Que nada Fê. Tudo bem e você?”

“Então estava em casa me sentindo tão sozinha, tô  morrendo de saudades da Lu. Não quero ficar ligando para ela. Sei que a mãe dela não está bem. E você sabe que os pais dela não sabem da gente e nem que ela gosta de garotas, né!”

“É. Que coisa chata. Vocês estão juntas a tanto tempo. Até mais que muito casal hetero que conheço. Um dia vocês acertam isso.“

“Ai...tomara Bia. A Lu foi a primeira que pensei em namorar sério.” 

“Então falei com ela, rápido, na sexta. Me disse que sua mãe está bem melhor, parece que foi mesmo pressão alta por conta do nervoso, que ela andou passando com o irmão da Lu. Você sabe que ele é impossível né. Mas ela me disse que acha que terça ou quarta feira está de volta. Perguntou de você viu! E disse para eu ficar de olho. E como somos muito amigas, sabe que eu obedeço né?”

“Hahaha. Nem precisa né Bia. Não quero tomar mais seu tempo, deve estar cheia de coisas para fazer, mal vocês mudaram. Então vou indo.”

“Ah...que nada. Até que já arrumamos muita coisa. Fica mais um pouco, vou fazer um trabalho de faculdade, você é tão habilidosa com as mãos. Passa a tarde aqui e me ajuda. Depois comemos alguma coisa. Assim posso dizer para Lu que fiquei te vigiando pessoalmente.”

“Hahaha. Boa...Não tenho nada mesmo para fazer a tarde. Vou aceitar. Assim passa o tempo mais rápido. Ah, posso colocar uma musiquinha. Você tem tantas bandas legais. Indica alguma coisa nova.” 

“Conhece Hurts? Acho que vai gostar do som deles. É uma dupla de Synthpop . Tem um CD que uma amiga gravou para mim. Está aí na estante. Acredita que tô sem computador e sem aparelho de mp3. Praticamente sem vida.”

“Não conheço não. Nossa que coisa, por quê?”

“Então, meu mp3 foi roubado na facul. O PC pifou na mudança. E minha mãe arrumou um técnico que talvez daqui a um ano aprende como consertar.”

“Nossa, que zica Bia.”

“É mesmo. Pior que é filho de uma amiga da minha mãe. Não acredito que cai em outra da minha mãe. Sabe aquele tipo filhinho da mamãe. Acredita que sem a mamãe dele para trazer de carro ele não vem. 

Muito tímido. A comunicação é bem difícil. E parece muito inseguro também.” 

“Sei bem. Esses tipos nerd, de óculos, franzino, magro. Se acham os inteligentes.”

“Olha, logo você preconceituosa! Então sabe que não, ele é descendente de alemão. Um tipo loiro, alto e forte, barba por fazer. Até que é um tipo interessante. Quando falei com ele por telefone nem imaginava, pela pouca voz e o jeito tímido. O oposto de mim. Acho que porquê sou muito comunicativa, não sei lidar com esses tipos. Espero que resolva logo.” 

Fernanda me ajudou com o trabalho de faculdade. Depois ainda preparou alguma coisinha para comermos. A Lu tem muita sorte, a Fê tem muitos talentos. Um deles é cozinhar. 

“Nossa Fê! A Luiza tem muita sorte de ter uma namorada tão prendada. Você cozinha muito bem. Eu sou uma negação. Ia acabar pedindo uma pizza.” 

“Ah que nada. Acho que é porque gosto de fazer. E em casa sou eu quem cozinho, minha mãe não tem muita paciência e nem tempo. Bia...ando tão ansiosa e sentindo muita falta da Lu, posso dormir aqui hoje?” 

“Claro. Acho que a ela não vai se importar. Podemos aproveitar e ver um filminho, que acha?”

“Boa.”

Resolvemos ver ‘Abraços Partidos . Adoro Almodóvar. A Fernanda ainda não tinha visto. Gosto dos filmes do Almodóvar pelo insólito, mas muito também pelo colorido. Tem uma cena em que o casal principal está em uma casa de praia/hotel. A decoração da casa é de um colorido ímpar, as cores saltam aos olhos. As paredes são de um esverdeadas, bem clarinho, contrastando com muitas flores coloridas. Comento:

“Nossa só Almodóvar mesmo! Que decoração linda. De um colorido tão extravagante, mas sem ser exagerada, é tudo tão harmônico!!”

“Olha. É mesmo Bia. Nem tinha reparado muito. Você escolheu a profissão certa, sempre repara na decoração. “

“É, gosto muito. Nossa amanhã tenho aula cedo. Acho melhor ir dormir. Se quiser ficar vendo tv aqui na sala, sinta-se a vontade. Nem preciso dizer que você é de casa, né?  Ah acho que vou tomar um leite com um pedaço de bolo, que trouxe da minha mãe, quer? Quem faz um bolo muito gostoso é a Lu”

“Quero. É mesmo, ela é boa de doces. Ai...que saudades da Lu...tomará que ela volte logo. Se ela demorar mais uns dias sou capaz de ir lá ver como ela está”

“Calma Fê. Logo ela está de volta. Ah amanhã vou acordar super cedo. Se quiser dormir mais um pouco, fique à vontade. Depois deixa a chave da porta no vasinho de planta. Boa noite. Durma bem.”

“Amanhã vou entrar no trabalho mais cedo. Levanto junto com você. Boa noite”

Pego logo no sono com Mia no pé da minha cama. Amanhã seria um dia meio corrido. Tinha o trabalho para entregar. Uma entrevista de estágio em uma revista de nome. Fora outras coisinhas.

Acordamos cedo. Vejo que Fê já deu comida para Mia. Tomamos um rápido café e saímos. Vou direto para a faculdade. Depois sigo para a tal entrevista. A tarde passa rápido. Chegando em casa a noite o telefone estava tocando. Corro para atender.

“Alô. A Beatriz está?”

“Sim. Sou eu.”

“Aqui é o Alexandre. Estou ligando para avisar que já gravei seus CDs. Queria saber se posso levar amanhã à noite. Pode ser às 20h? E já terei o orçamento do computador. Conversamos pessoalmente.”

“Que bom!! Pode sim. Combinado, amanhã as 20h”

Confesso que fiquei estranhamente mais animada. Nem sei bem por que. Estava ansiosa pelos meus CDs, talvez seja isso. Assim que desligo, resolvo ouvir um pouco de música, fazia tempo que não escutava Suede , Rods me gravou um best of  muito legal deles, queria ouvir ‘Obssession’. Deixo o CD rolando e vou tomar banho. Penso: 

“Ai...ai...a voz de  Brett Anderson é tudo de bom, mas não só a voz, ele todo. Esse é um musico que gostaria muito ver ao vivo, nem sei o que faria se o visse pessoalmente, acho que minha voz não sairia, meu inglês fail total, passaria mal, com certeza.”

Entro no chuveiro, sinto a água caindo lentamente em meu corpo, pingo algumas gotas de sabonete em minha bucha, deslizo delicadamente sobre meu corpo, ouvindo aquela voz altamente sexy. Mas por alguns segundos o que vejo em minha mente não é o lindíssimo rosto de Brett e sim o de Alexandre, estranho tal pensamento fora de hora, mas deixo para lá. Volto a pensar em meu ídolo e a prestar atenção em sua maravilhosa voz. Terminado o banho vou para cozinha comer alguma coisa. E cama. Deixo tocando uma seleção de músicas que meu amigo Rods fez para mim, algumas bandas novas mais eletrônicas. Ainda não tinha ouvido. A primeira era um som muito gostoso de ouvir, dançante, vocal masculino de um timbre um tanto feminino, a banda era Jonquil   fazendo uma cover de uma outra banda novíssima The XX . Lá pelo meio da música, se inicia uma guitarra gingada altamente viciante. Seguida de The XX - You Got the Love (feat. Florence Welch). Pelo que vi a seqüência era de primeira. Adormeço ouvindo o que mais gosto: música eletrônica.    

Mais um dia se segue. Outro café rápido, comida para minha Mia e faculdade. Iríamos ao Museu da Casa Brasileira, estava acontecendo uma exposição muito interessante e nosso professor queria visitar com a gente. Terminada a visita decido ir com uns colegas de turma almoçar no shopping Eldorado que não é longe. A Lu realmente estava fazendo falta. Não agüento mais comer na rua. Geralmente é ela quem cozinha em casa. Depois demos uma volta no shopping, estava querendo passar na loja Imaginarium , se não me engano vi lá umas xícaras de café, brancas, com alça de asa muito gracinhas. Mas uma pena, estava enganada, devo ter visto em outro lugar. 

Volto para casa. Tinha que terminar de redigir um trabalho. Passo a tarde no computador  acompanhada pelo CD que meu amigo gravou. A Lu pelo visto só viria amanhã. Termino de redigir o texto, sigo para um banho rápido e depois fui comer alguma coisa. Logo Alexandre chegaria. Fico na sala ouvindo música à espera do rapaz. Deixo tocando Patrick Wolf , adoro a mistura do estilo clássico com o eletrônico, que ele faz. 

“No need for comfort

No need for light

I am hunting for secrets tonight...”

Passava das 20h15 e nada. Depois de uns quinze minutos eis que toca a campainha. Era ele.

“Olá. Desculpe o atraso.“

“Sem problemas.”

“Aqui estão suas músicas. Espero que esteja tudo certo. Imprimi na capa dos CDs os títulos das músicas.”

“Muito obrigada. E então já tem o orçamento? Quanto vai ficar? Não esqueceu do gravador de DVD não é?”

“Não esqueci. Então tudo mais o meu trabalho vai sair 750,00. Conheço uma loja que tem preços ótimos e tem garantia de tudo.”

“Ah blz. Não vai ficar tão caro. Pode fazer. E quando você acha que me traz?” 

“Acho que consigo para sábado à tarde. Pode ser?”

“Claro!! Ótimo! Nem sei como agradecer Alexandre. Preciso muito do meu computador por conta da faculdade. E no momento sem chance de comprar um novo. E mais uma vez obrigada pelas músicas”

“Você faz faculdade? Que bom. Do quê?”

“Então, faço Design de Interiores. Mais conhecido como decoração mesmo.”

“Interessante. Gosta de música eletrônica pelo que vejo. Nossa! Esse que está ouvindo mistura até música com clássica. Nunca poderia imaginar. Não conheço nada de eletrônica. Não consigo ver como música.”

“Se chama Patrick Wolf. Tem gente que pensa que música eletrônica é só apertar botões, mas ele faz música eletrônica e também toca tudo que é instrumento de corda, até violino, dá para acreditar.” 

“Nossa que legal. Até que é interessante. Eu preciso conhecer mais esses tipos de música. Eu sou bem tradicional, só MPB e clássica. Preciso variar mais.” 

“É sempre bom. Tem muita música nova legal, fora desse eixo. Ainda mais para você que é músico.”

“É mesmo. Obrigado pelas dicas. Bom, qualquer coisa se não conseguir para sábado ligo avisando. Até mais Beatriz. Boa noite”

“Até Alexandre. Boa noite”

O rapaz parecia mais comunicativo. Milagre!!! Até que eu estava gostando da conversa. Senti que ele me olhava de forma diferente, parecia mais que só atenção. Assim que ele sai, vou dar uma olhada nos CDs. Nossa ficaram muito bons, acho que como ele é músico a separação das músicas ficou muito boa. Fui dar uma checada por quê tinha umas brasileiras, mais antigas, que queria dar para minha mãe. Olhando nas capinhas vi que ele havia gravado todas juntas. Mas qual foi minha surpresa, tinha uma música que nem se quer conhecia. Resolvi ouvir. Era um violão lindíssimo. Não tinha intérprete, apenas o nome. Parecia chorinho. Não sou muito de ouvir esse tipo de música, mas conheço um pouco. Fiquei encantada e muito curiosa. Como havia parado ali? Tinha certeza que não era minha. Fiquei a ouvir aquele belíssimo dedilhar. Resolvi dar uma olhada na internet, descobri que era executada por dois músicos brasileiros tradicionais de chorinho . Será que Alexandre a teria colocado ali? Por quê faria isso?  Devo ter baixado sem querer e não lembro. Enfim. Tinha passado a tarde fazendo trabalho, estava cansada, fui dormir. No dia seguinte não teria a primeira aula.  

Resolvo dormir até um pouco mais tarde. 

Acordo com um maravilhoso aroma de café vindo da cozinha. Parecia um sonho. Era Luisa que havia chegado e estava preparando o café. 

“ Oiiiii Lu. Que saudades!! Por que não avisou que vinha? Teria acordado mais cedo e feito café. Tudo bem? E sua mãe?”

“Saudades também. Então resolvi de última hora. Não agüentava mais aquele clima, não sei como minha mãe agüenta. Quanto ao café, acho que depois de tanto esforço você tem melhorado muito, mas...”

“Ah, é assim é! Nunca mais faço minha obra prima para você, viu. Artistas muito à frente de seu tempo, geralmente são incompreendidos.” 

“Hahahahahha. Boa.”

“Ah sabe quem passou o domingo aqui? A Fê. Ai Lu ela estava tão pra baixo. Veio saber noticias suas. Não quis ficar te ligando. Passamos um dia muito bom. Ainda por cima ganhei um super jantar, se não fosse ela, teria pedido pizza. Deixei ela dormir aqui.”

“Ai... ai...muitas saudades da minha Fezinha. Sem problemas, você sabe que ela já é praticamente de casa. Vou ligar para ela. Quem sabe almoçamos juntas. Tudo bem se eu chamar ela para dormir aqui hoje?” 

“Claro. Nem precisa perguntar. Ah, consegui um técnico para o computador. Depois te conto. Tenho que ir, ainda tem a segunda parte da aula.”

“Tá, vai lá. Pode deixar que dou comida para Mia.” 

“Ah, acredita que ela está toda de chamego com o técnico. Nunca vi Mia tão animada. Acho que ela pensa que ele é gato. Se bem que...”

“Âh?”

“Nada. Deixa pra lá.”

Já estava quase atrasada. Tomo um banho rápido e corro para a faculdade. Na aula nada de muito novo, apenas uma revisão de matéria e um trabalho rápido. Não tinha nada para fazer de tarde. Volto para casa. Achei que Lu não estaria em casa, mas estava.

“Não foi almoçar com a Fê?”

“Ela estava um pouco atarefada no trabalho hoje, não ia dar. Combinei de ela vir dormir aqui.”

“Ah tá. Hummm...que cheiro delicioso. Estou morrendo de saudades da sua comida. Que fez de bom?”

“Nada demais. Arroz feijão, bife e batata. Ai Bia, tô tão curiosa. Conta do tal técnico.”

“Ah então, caí em mais uma das trapalhadas da minha mãe. Ela tem uma colega de trabalho, que tem um filho técnico. Mora aqui perto. Ele veio aqui sábado. Ficou mais de 1h30 e nada, levou o computador para casa disse que traz no sábado. Não sei, não senti firmeza. Pior o cara mal abre a boca de tão tímido. Ontem pelo menos consegui trocar com ele algumas palavras sobre música, foi um milagre. Você sabe né, sou tão extrovertida, falar é comigo mesma. Acho que não sei muito como lidar com esses tipos. Espero que termine logo esse conserto.” 

“Será que é só isso? Não entendi muito o lance do gato. Como ele é? Gatinho?”

“Não é de se jogar fora não. Um tipo alto, forte, loiro, olhos verdes. Descendente de alemão. Mas muito tímido, certinho demais, fala todo cheio de cerimônia, não faz meu tipo. Você sabe, sou muito mais um moderninho: tipo dandy. Um Richard Boardman, sabe aquele gato, tecladista e segunda voz do Delphic ”

“Ah tá, sei. Forte, bonito, loiro. Imagino. E você preferindo um magrelo sem sal.”

“Magrelo sim, mas, muito estiloso. Nem um pouco sem sal!! E você que entende de boys, hein? Seu negócio são garotas!”

“Ah eu prefiro mesmo são garotas, mas não deixo de reparar neles. Você sabe que já namorei um garoto.”

Almoçamos. Lu tinha que terminar de desfazer as malas e resolvemos dar uma arrumada na casa. Tinham algumas coisas que ainda não tínhamos arrumado da mudança. E Lu ainda queria fazer um jantar especial para Fê. Pensou em bolo de carne, com muita mussarela, molho vermelho e uma macarronada. Nada muito trabalhoso. A tarde passa voando. Toca a campainha era Fê.

“Luuuuuu. Que saudades... Se demorasse mais uns dias ia lá te buscar” 

“diz Fernanda junto a um beijo e um demorado abraço”

“Também estava morta de saudades. Mas você sabe né, as coisas lá na casa dos meus pais estão meio complicadas. Mas agora estou aqui, não estou. Vamos poder matar as saudades.”

“Oi Bia. Trouxe sorvete.”

“Hummmm. Vamos jantar. A Lu fez um jantar especial para você.”

“Nossa não precisava. Deve estar cansada da viagem. Ainda foi se preocupar com isso gata.”

Estava tudo muito gostoso. A Lu também cozinha muito bem. Passamos o jantar jogando conversa fora.  

“Fê, acredita que a doida da Bia prefere um magrelo muito do sem sal, do que um loiro, bonitão, forte e tudo mais. Com esses atributos todos,  ela disse que não faz o tipo dela, pode?”

Então ela contou. Sei não viu Lu. Acho que ela não quer é dar o braço a torcer que o rapaz é interessante.”

“Hein? Como assim? Agora vocês querem decidir o que eu penso? O Alexandre só veio aqui duas vezes. E ele é meu técnico, nada além disso. Tô de boa sozinha. E outra sábado um DJ, gatissimo me deu maior mole. Eu que não quis. Pergunta pro Rods e pro Fred, eles estavam comigo, ainda me deram maior força. Mas não estava muito no clima. Pra que vou querer um cara tão diferente de mim.” - Nossa falei com tanta vontade que não queria nada com o Alexandre, mas estranhamente essa afirmativa não parecia de todo verdade. Estava começando a sentir algo por ele, ainda não muito definido.-”

“Sei não viu Bia. Mas se você diz assim, não sou eu que vou discutir.“ -disse Fê”

Terminamos de jantar. Fico encarregada da louça. Lu e Fê vão para o quarto. Também vou para o quarto meu ver um pouco de tv. Mia vai junto, e se ajeita no pé da cama. Acabo dormindo com a tv ligada.

Acordo cedo. Vejo que as meninas ainda não acordaram. Vou até a cozinha preparo café sem fazer muito barulho. Dou comida para Mia. Troco de roupa e sigo para faculdade. No intervalo toca meu cel. era da tal revista que fui fazer a entrevista. Marcando outra para quinta feira. Pelo que vi gostaram do meu trabalho. Acho que terei grandes chances. O resto do dia corre normal. Fiquei na faculdade por conta de uns trabalhos e para estudar. Também quis deixar a Lu e a Fê mais a vontade. Parece que a Fê tirou o dia de folga. 

Chego em casa mais à noite. Lu me diz que combinou um fim de semana fora com a Fê, parece que elas vão para uma casa de campo de uma amiga da Lu. Mais um fim de semana sozinha. Como alguma coisa e logo vou para cama. Quinta feira seria um dia cheio, iria direto da faculdade para a tal entrevista. 

Acordo com cheiro de café fresquinho. Lu já estava de pé e ia para a faculdade junto comigo. Ela já tinha perdido muitas aulas, não poderia faltar mais. Tomamos café. Dou comida para Mia. E seguimos para a faculdade. No caminho:

“Lu. Hoje tenho mais uma entrevista, na tal revista. Então não me espera tá. Vou direto da facul para lá”

“Tá.”

Terminada a aula corro para a tal entrevista. Esta foi mais elaborada e longa. Com profissionais da área de fato. A outra tinha sido apenas com um pessoal do RH. Acho que gostaram do meu trabalho. Quando ia saindo da entrevista toca meu cel. Era Rods convidando para uma festa na casa de uma amigo dele, falou para eu chamar a Lu e a Fê também. Disse que teria uma surpresa. Estava um pouco cansada, mas resolvo ir, fico curiosa com a tal surpresa. Rods passa em casa e pega a gente de carro. 

“E ai Rods diz logo qual é a surpresa?”

“Nãooo. Só quando chegar lá. Você verá.”

“Ah seu chato!! Quer me matar de curiosidade é.”

Chegando lá, Fred estava esperando a gente. Na verdade a casa era de um amigo de Fred. E que casa!! Maravilhosa!! Muito bem decorada, não muito grande. Mas muito bem disposta. Entramos. Não vejo nada demais, insisto com Rods que diz para eu ter calma. Depois de quase uma hora eis que toca a campainha. Para minha surpresa era o tal DJ que tocou sábado no D-edge. Parece que era amigo do dono da casa. Era um tipo realmente interessante. Mas não sei porque não estava mesmo animada com ele, como ele parecia estar comigo. Rods percebe e fica super desapontado.

“Poxa Bi. Achei que ia te fazer a maior surpresa. O cara estava tão na sua. E você com essa cara de enterro. Meu, o que anda acontecendo com você? Não estou te reconhecendo!”

“Ai, sei lá Rods. Não tô nem um pouco afim dele. Pior que o cara é um gato e deve ser muito interessante.”

Mas não foi só Rods que ficou desapontado. Pelo que vi o tal rapaz também estava bem chateado. Acho que sabia que me encontraria lá, ainda tinha alguma esperança. Voltamos para casa não muito tarde, pois tínhamos aula cedo no dia seguinte e era uma aula importante não poderíamos faltar.

Acordamos cansadas da noite anterior. Tomo quase um balde de café para despertar. Dou comida para Mia. E sigo para um banho, em mais uma tentativa de driblar o sono e vamos para a faculdade. O dia transcorre normal. Voltamos cedo. Resolvemos fazer umas compras. Estava faltando algumas coisinhas em casa.  E como Lu passaria o fim de semana fora decidimos ir hoje. 

À noite resolvemos pedir uma pizza e ver algum filme na tv. Lu teria que dormir cedo, pois iria logo de manhã no sábado. Eu fui dormir um pouco ansiosa. Mia também estava um pouco agitada, não parava quieta na cama, pedindo carinho o tempo todo. Foi difícil fazer ela ficar quieta. Só com muito carinho, foi acalmando. Mia adora cafuné na cabeça, ela é muito fofa.  Não via a hora de ver meu computador arrumado e de me ver livre do tal técnico. 

Acordo mais ou menos cedo no sábado. Dou uma passada na feira mas,  logo volto. Combinei com Alexandre por volta de 13h. Desta vez ele foi pontual. 

“Pontualissimo”

“Olá.”  “disse ele meio sem jeito pelo meu comentário.”

“Espero que agora esteja tudo certo. Conseguiu salvar todos meu arquivos?”

“Sim consegui. Estão todos no computador. Acho que agora não dará mais problemas. Bom, espero eu.”

Ele instala tudo direitinho no quarto. Quando para minha surpresa o computador não liga. Indago o porquê e escuto algo que pareceu ser um ‘não sei’. Ele diz que deve ser alguma peça que se soltou. Normal. Abre a CPU e começa a examinar. Depois de uns trinta minutos nada de conseguir ligar o computador. Começo a ficar um pouco irritada, percebo que ele está ainda mais. Digo que vou para a cozinha que qualquer coisa me chame, via faíscas no ar, sabia que se ficasse ali sairia briga. Tinha vontade naquela hora de esganar o rapaz. Se não sabia fazer aquilo porque estava fazendo. Não entendia. Depois de uns vinte minutos ou mais, ele me chama, diz que está tendo problemas, que vai resolver, só que tem outro compromisso e não poderia terminar hoje, mas que voltaria amanhã à tarde. Eu visivelmente irritada respondo:

“Se não tem jeito. Tudo bem. Mas espero que amanhã resolva.”

“Pode ter certeza que resolverei. Desculpe mais uma vez o inconveniente. Realmente não sei o que aconteceu. Em casa ele estava funcionando normalmente desde ontem.“  

Levo o rapaz até a porta. Nem dou chance de Mia chegar perto. Tamanha minha irritação. Agora me dei conta de que sentia algo por ele, e era realmente muito forte: RAIVA...e que raiva!!. O rapaz conseguia me tirar do sério como nenhum outro jamais havia feito. Não me lembro de ter sentido tanta vontade de esganar alguém, como senti dele. Não sei o que me deu que ligo para minha mãe.

“Mãe!!! Estou a ponto de explodir. Que raiva.”

“Nossa Beatriz!! O que foi?. Está me deixando preocupada. Que aconteceu?”

 “O filhinho da sua amiga Ingrid. Quase o esganei agora. Acredita que ele trouxe o computador e na hora de ligar não funcionou. Olha nem com muita boa vontade ele é técnico”

“Calma Beatriz. Ele deve ser principiante. Tenha paciência minha filha. A Ingrid disse que ele é muito bom. Imagine se fosse com você. Calma que ele vai resolver.”

“Calma mãe... Não sei se vou ter mais calma. Ele passa horas aqui. Ai... desculpa. É que a senhora me coloca em cada enrascada. Pode ter certeza que essa foi a última vez! Ouviu mãe!! A última!!!

Desligo o telefone sem dizer mais nada. Tamanho meu nervoso. Resolvo ligar música e tomar um banho para ver se me acalmo. Coloco Delphic no último volume:

“Doubt, in it all for me

I've hit the wall, all that's left for you is doubt”

Ligo a água do chuveiro bem forte. Quase entro de roupa e tudo. Deixo a água cair sobre meu corpo, com força. Para limpar todo aquele sentimento. Tirando a raiva e me fazendo voltar a meu normal. Saio do banho outra. Bem mais calma. Abro uma garrafa de vinho, pego uma taça e vou para a sala ouvir música. Sento confortavelmente em meu sofá e passo o resto da noite tentando entender o que realmente aconteceu. E o porquê de tanta raiva. O que realmente sentia por ele? Por que ele mexia tanto comigo? Será que era por ser tão diferente de mim, dizem que os opostos se atraem, será? Também acho que por ser tão perfeccionista e boa em tudo que faço, tenho muita dificuldade em aceitar que as pessoas errem. Não tinha certeza de nada. Apenas de que a insegurança dele mexia muito comigo. Tomo a garrafa de vinho quase inteira e vou dormir. Amanhã seria um dia longo. Teria que estar descansada e tentar ficar calma.  

Acordo cedo. Dou comida para Mia e volto para cama. Decido ficar na preguiça até não querer mais. Deixo The Big Pink  tocando, na seqüência Patrick Wolf e depois Delphic. Esta última banda tem sido uma que não consigo parar de ouvir, suas músicas são viciantes e tão intensas: ‘Acolyte’ com seu começo calmo, de vocal aos gritos e sussurros, e a energética ‘Clarion Call’ são duas maravilhosas que adoro. Não queria pensar em mais nada. Apenas relaxar. Nada melhor que uma cama confortável e música, muita música, de preferência eletrônica. Mia volta para cama para me fazer companhia e se ajeita ao pé da cama. Levanto lá pelo 12h com fome. Comprei um filé de frango à parmegiana congelado, que me pareceu ser muito bom. Ainda tinha arroz e fiz uma salada rápida. Termino de comer. Coloco uma roupa mais apresentável. Estava um domingo gelado, visto um conjunto de moleton em tom rosa antigo, muito confortável, que uso em casa: casaco de zíper e calça bem folgada de amarrar. Fico mais um pouco na preguiça. Ouvindo música. A campainha toca. Era Alexandre. 

“Desculpe por ontem. Acho que exagerei. Essas tecnologias as vezes enlouquecem a gente.” “Digo eu.”

“Se enlouquecem! Eu também me excedi. Peço desculpas também.”

“Espero que hoje corra tudo bem. Quer um café, água, suco?” 

“Se tiver um café eu aceito.”

Vou para a cozinha e preparo um café fresco, sem açúcar! Alexandre nunca reclamou do meu café. Digo que estarei na sala e qualquer coisa é só me chamar. Tento manter a calma. Deixo a música ligada. Passam mais de uma hora e nada. Vou ver se está tudo bem. Vejo que coisas não estão dando muito certo, ele parece ainda mais irritado que ontem. Pergunto se está tudo bem, ele mal responde. A demora e a falta de comunicação fluida estavam me enlouquecendo.    

“Vou resolver. Tem uma peça solta. Logo estará tudo certo. Mas pode demorar. Você tem algum compromisso?”

Naquele momento o sangue ferveu. Compromisso eu?? Não sabia o que responder.

“Como assim demorar? Faz mais de uma hora que você está ai e nada. Ontem também! Você é realmente técnico? Não entendo!”

“Não sou técnico formado! Mas sei muito, o que me permite fazer muitas coisas. Mas informática por vezes é bem complicada.” “disse ele” 

“As vezes? Não parece ser só às vezes...” “digo eu visivelmente irritada”

Mal consigo ouvir o que o rapaz tenta dizer. Penso que seria melhor voltar para a sala para não brigar mais. Sinto uma certa pena, mas a raiva fala mais alto. Mais uma vez queria estrangulá-lo, mas ao invés disso em um ato de loucura, totalmente impensado,  puxo a cadeira em que ele esta sentado, para minha direção, olho fixamente em seus lindos olhos verdes e o beijo. Um beijo sofrido, ardente e intenso...O rapaz parece não entender o que está acontecendo, mas retribui com a mesma intensidade. 

“Give me something I can believe in.

... What you say doesn't say that you mean it”

     

Paro, volto a admirá-lo, ele é realmente muito bonito. Seguro sua mão. Sentamos na cama, tiro seu óculos...coloco no criado mudo. Não acreditava no que estava fazendo. Nunca me imaginei com um tipo como ele. Mas algo nele realmente mexia comigo. Por um momento recobro minha lucidez e digo:

“Desculpe...Não sei o que deu em mim Alexandre. Não costumo agir assim. Atacar o primeiro que...”

Antes mesmo que pudesse terminar a frase, ele cala minha boca com um beijo, mais intenso e ainda melhor que o primeiro. Eram muitos sentimentos, confusos, ao mesmo tempo. Sentia muita raiva, mas ao mesmo tempo pena e uma forte atração. Abro lentamente sua camisa, botão a botão. Deixando à mostra seu peito bem definido. No som toca Delphic, nada melhor. Ele por sua vez tira meu moleton. A raiva, a pena e a pressa dão lugar a: calma, excitação e um certo carinho. Nós dois ali despidos de nossos preconceitos, não tínhamos mais pressa, agora só queríamos curtir aquele momento. O rapaz era realmente muito tímido, parecia não saber muito como agir. Passo a conduzir a situação. Até que ele demonstra sentir-se mais à vontade. Apesar de toda sua timidez, seus toques eram firmes e intensos. Ele realmente sabia o que queria. Adormecemos abraçados. 

Fê e Ju chegam sem fazer muito barulho, a porta estava entreaberta, vêem a cena e saem de fininho.  

Acordo pouco depois. Alexandre ainda descansa, suas feições antes brutas agora eram muito leves. Fico alguns minutos a admirar sua beleza e ainda a pensar como pude fazer tudo aquilo, horas atrás só o que sentia era raiva. Agora sentia tudo, menos raiva. Levanto vou até a cozinha, estava faminta. Faço um café fresquinho. Arrumo uma bandeja com queijo, pães, suco e café. Ele vê que não estou na cama, levanta, se veste. Quando chego estava terminando de consertar o computador, que agora funcionava perfeitamente.

“Falei que era simples. Não dará mais problema, fique sossegada.”

“Hahaha. Boa. Valeu. Confesso que horas atrás o que sentia por você era apenas raiva, que nem sei descrever.

Mas não sei o que fez comigo. Em tão pouco tempo provocou em mim sentimentos tão diversos e intensos, como nunca nenhum outro o fez. Mesmo você sendo tão diferente de mim e do tipo de garotos que normalmente me interessam, me senti muito atraída por você. Você é muito especial. E conseguiu me dobrar, hein. Trouxe um lanchinho. Estou morrendo de fome. Você também deve estar. Trouxe café fresquinho. Ah e valeu por não reclamar do meu café”

“Ah que nada. Gosto do seu café. Tenho que confessar que desde o primeiro dia em que a vi, me despertou algo muito forte. Você é tão extrovertida, fala tão bem e é muito bonita. O contrario de mim. Não sabia como dizer. Queria pedir mil desculpas pelos meus destemperos e pela minha timidez. Geralmente, fico ainda mais tímido, perto de alguém de quem gosto muito.

Ouviu os CDs? Gravei uma música em um deles para você. Acho que não é muito o tipo que você costuma ouvir, mas espero que goste. É uma das minhas musicas e interpretes favoritos. Estou aprendendo no violão.”

“Ouvi sim. É linda! Estava muito curiosa com ela, sabia que não tinha baixado. Obrigada. Gostei muito, mesmo não sendo o tipo de som que costumo ouvir. Quem sabe não me ensina a gostar mais. Iria adorar conhecer esse tipo de música e com um músico então...será muito mais interessante. Mas também vou querer te mostrar umas bandas mais eletrônicas que gosto, viu. Quanto à timidez, no começo confesso que a falta de comunicação estava me enlouquecendo. Mas agora até acho bonitinho. Prometo que tentarei ser mais paciente. Nunca me apaixonei por alguém como você: tímido e o oposto de mim.” 

“Também prometo ser mais paciente. E tentar ser menos tímido.”

Tomamos o café, estávamos realmente com fome. Alexandre diz precisa ir, pois teria outro compromisso e ainda teria que passar em casa para buscar sua mãe, que desta vez não estava esperando no carro.  Eu o acompanho até a porta, nos despedimos. Pouco depois as meninas chegam, como se nada tivesse acontecido.

“Oi Biiiiiiii...tudo bem? Como passou o fim de semana? E o técnico resolveu seu problema? “diz Lu olhando para Fê e sorrindo”

Pelo tom da pergunta, com certeza tinham visto alguma coisa.

“Haha. Boa pergunta. O computador está tinindo.” 

Mais foi só o computador? Pela sua cara de felicidade, não foi só isso, né?”

“diz Lu”

“Ai...ai...Vou ter que confessar... Vocês não acreditam. Ontem tive uma briga feia com ele. Mal instalou, o computador já não ligava. Queria matar o rapaz. A raiva era tanta, que até liguei para minha mãe e falei um monte. Ele tinha um compromisso e teve que voltar hoje. Aconteceu a mesma coisa. Fui ficando mais irritada ainda e ele idem. Nunca senti por ninguém o que senti ontem e hoje por ele.“

“Nossa Bia! Que coisa chata.” “diz Fê”

“Se foi. Mas não sei o que deu em mim, depois de brigar feio com ele de novo, acabei nos seus braços aos beijos. Ele é muito gato. Praticamente agarrei o rapaz. Ele nem sabia muito como agir de tão tímido. Nunca me imaginei ficando com um tipo como ele.”

“Imagina ele na balada com a gente, fritando ao som de Fischerspooner . Sei não viu.” “diz Lu”

“Com essa pouca convivência, fui descobrindo um sentimento, que nem imaginei poder sentir por alguém como ele. Nem sei ainda se vamos ficar juntos. Vou deixar as coisas rolarem. Pelo jeito tímido dele não vai ser tão já que vamos sair juntos para balada. Mas também tudo bem, acho que vou super curtir esse love diferente. Ah, acredita que ele que gravou aquela música no CD?”

“Nossa é!”

“Não é muito o tipo de som que mais gosto, mas achei legal. Me propus a conhecer mais do que ele gosta. E ele até gostou de Patrick Wolf. Já é um bom começo, não é? Poderíamos até formar um duo, para tocar covers do Wolf, ele no violino e eu no teclado. Vamos ver no que vai dar...”

“Hahahaha. Seria uma boa Bi.”

Ler ouvindo

Delphic - 05. Acolyte (Acolyte - 2010)

Delphic - Clarion Call & Doubt (Live at Reading Festival - 2010)

Delphic - 08. Counterpoint (Acolyte - 2010. *See video clipe)

Hurts - Sunday (Happiness - 2010)

Hurts – Stay (Happiness - 2010)

Hurts - Better Than Love (Happiness - 2010)

Jonquil - Infinity Jam (the xx cover) 

Patrick Wolf - Together (Lupercalia - 2011)

Patrick Wolf - Bloodbeat (Lycanthropy - 2003)

Trophy Wife - Bruxism (Pocket House remix)

Chad Valley - Now That I'm Real (Equatorial Ultravox - 2011 )

Stay+ - Fever (Fuck Christian AIDS - 2012)

Death From Above 1979 - You're A Woman (Stay+ Remix)

Esben & The Witch - Chorea (Stay+ Remix)

The Big Pink - Sweet Dreams (Beyonce cover)

The Big Pink - Lose Your Mind (Future This - 2012)

Suede - Obssesion (A New Morning - 2002)

Röyksopp - Only This Moment.( The Understanding - 2005)

Röyksopp - Remind Me (Glastonbury - 2009)

The Presets - If I Know You (Apocalypso - 2008)

The Presets - This Boy's In Love (Apocalypso - 2008)

Hearts of Black Science - Empty City Lights (The Ghost You Left Behind - 2007)