Quer namorar comigo?

14 de Novembro de 2013 Priscila Pereira Contos 991


  De mãos dadas com meu mais recente namorado, vejo parado na outra calçada, meu melhor amigo e confidente, seus olhos estavam fixos em mim e seu semblante estava carregado,
lia tristeza e desesperança em seu rosto. 
Fiquei preocupada, embora já suspeitasse os motivos que o levavam a
lentamente se afastar de mim.

- Amor, vou conversar com o Luís e  já volto.


Atravessei a rua e com um sorriso no rosto saudei meu amigo.


- Que saudade de você baixinho.


- Hum. Nem parece que você sentiu
minha falta...


Abracei-o bem apertado e pude sentir seu cheiro de rapaz
limpo, saudável e honesto, com um toque de limão. Ele sempre cheirava assim, o
que me fazia lembrar coisas boas da infância.


  Conheci Luís quando já tinha completado vinte anos, e ele, dezoito, nossa relação sempre
fora um nível elevado de amizade sincera e honesta. Combinávamos perfeitamente
em tudo. Ele é de estatura baixa, para um homem de vinte e cinco anos, magro,
olhos profundos, que até pareciam poder ler a alma das pessoas, e ao contrário
de mim, ele esperava a pessoa certa, não namorara ninguém desde que nos
conhecemos e eu já tinha namorado muitos, na esperança de encontrar o cara
certo, sempre em vão.


- Faz tempo que não te vejo, o que aconteceu com você?


-Nada. Arrumou um namorado novo já?


- É... Arrumei. Não me olhe com essa cara... Ele é legal.


- Como todos os outros?


-Chato! Vem, vamos conversar um pouco, estou sentindo muito
a sua falta...


  Saímos conversando e eu nem percebi que tinha deixado meu namorado do outro lado da
rua conversando com seus amigos.


- Sabe, eu estava querendo falar sério com você já faz algum
tempo.


- Então fala.


Já imaginava o que era, e sabia que seria um sermão. Puxei-o para um banco de praça e nos
sentamos.


- Você tinha me dito que não namoraria mais qualquer um, e não faz nem uma semana que você largou o último...


-Calma aí baixinho, o Fernando não é qualquer um, você até conhece
ele não é?


-Conheço sim, e muito bem, por isso estou falando. Olha, você devia dar um tempo, ficar sem namorado um pouco, prestar atenção nas pessoas que realmente gostam de você.


- Quem, por exemplo? Você?


Dei uma gargalhada e baguncei todo o cabelo liso e certinho dele. 


  Na mesma hora percebi que tinha ido longe de mais. Seus olhos se tornaram de um castanho
escuro profundo e assustador, vi verdadeiro sofrimento e orgulho ferido neles.
Sem mais uma palavra ele levantou e foi embora, tão rápido que fiquei sem
reação, mais uma vez tinha-o magoado, a pessoa de quem eu mais gostava no mundo
todo. Mas era preciso, não sei se aguentaria uma declaração de amor, meu
domínio próprio estava me deixando aos poucos.


-Aí está você gata, estava te procurando. Onde está o
Luisinho?


-Foi embora... Vamos também.


  Peguei mais uma vez na mão do Fernando pensando em como estaria o Luís, precisava falar com ele, ver como estava. Disse a mim mesma que amanhã bem cedo iria a sua casa.
Fiquei mais tranquila e resolvi sair àquela noite, aproveitar que estava
estreando uma peça nova no teatro e me distrair.


  Fui ao teatro com o Fernando e assisti ao primeiro ato feliz e satisfeita, mas no intervalo
um rapazinho veio me dizer que o Luís queria falar comigo lá fora.  Levantei e saí bastante preocupada, - agora não escapo -, pensei comigo mesma. Cheguei ao saguão e lá estava ele, de costas pra mim, com as mãos nos bolsos do casaco de moletom, os cabelos ainda molhados
e com cheiro de shampoo. Senti um aperto no coração, ele estava mais lindo do
que nunca e muito mais chateado do que já estivera até hoje.


-Oi. Queria falar comigo?


- Quero sim, Marina... – Disse virando devagar e me encarando, estava pálido e abatido.


-Acho que não podemos mais ser amigos. Você não me escuta, sabe o que eu sinto por você e zomba de mim. Sabe quantas vezes eu tentei falar sério pra você o que eu sinto e você nem me deixou terminar?  Sete vezes, contando com a de hoje.


  Fiquei parada, sem palavras, me doía ver a dor no seu olhar, a tristeza nas suas palavras. Não
podia perdê-lo, morreria sem tê-lo por perto. Num ato impensado e de impulso me aproximei e beijei-o lentamente nos lábios. Ele me tomou em seus braços e me beijou profundamente e apaixonadamente,nossos corpos se encaixavam perfeitamente, como se tivessem sido feitos um para o outro.


  Sentia-me flutuando em uma emoção diferente, estava explodindo de paixão e alegria.


-Eu te amo. – Disse ele olhando em meus olhos e sem esperar resposta me abraçou forte, cheirando meus cabelos.


-Eu também te amo! – Disse eu timidamente.


- De verdade? Como homem e não como amigo?


- De verdade, como homem. Sempre te amei.


- Mas eu não entendo... E todos os namorados?


- Você é o homem mais especial que já conheci, correto,
carinhoso, fiel. Não queria que você se transformasse em um canalha. Todos os homens com quem namoro transformam-se em canalhas.


- Eles não se transformam em canalhas, eles sempre foram canalhas, você que não sabe escolher. Eu nunca vou me transformar, pode ter certeza.


  Seu olhar passava tanta paz e tanto amor, que me desarmou completamente. Decidi confiar
em meu amigo, que nunca tinha me decepcionado, o homem que conquistara meu amor
com suas atitudes e simplesmente por ser quem é.


-Quer namorar comigo?


-Claro que quero meu baixinho lindo!


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