O Bosque

14 de Novembro de 2013 Jessie Esseker Contos 1412

Não era nada comum ver alguém vagando a noite por ali. Algumas pessoas diziam que era mal assombrado, fato esse que fazia com que a grande maioria que morava ali perto evitasse passar por aquele bosque depois das 18:00. Evelyn era uma das exceções. Ela adorava passear por ali depois que a noite caía, era como se ali fosse seu "mundo particular".
O bosque em si não era tão assustador, as crianças até costumavam brincar ali durante o dia, mas os boatos que correm são sempre maiores do que os fatos ocorridos. Contam os moradores daquele bairro que havia uma moça que era muito apaixonada por seu noivo, até que um dia ela o encontrou com outra moça. Ela não fez nada na hora, o que intrigou o noivo. Então eles terminaram, e ela não teve o menor problema em contar tudo o que tinha acontecido. Uma semana depois, o homem foi encontrado pendurado em uma árvore do bosque. Ninguém sabia o que havia acontecido, afinal a moça nada poderia ter feito para obrigá-lo a se matar. O incidente foi deixado de lado e julgado como suicídio. Mais uma semana se passou e a "amante" do noivo foi encontrada morta no mesmo lugar. Novamente o caso foi julgado como suicídio por falta de maiores provas. A moça, ex-noiva, não dava nenhum palpite a respeito de tudo que tinha ocorrido, nem mesmo derramou uma lágrima quando soube da morte do ex-noivo. Alguns anos se passaram e ela decidiu se casar de novo. O noivo dessa vez era um homem maravilhoso, segundo todos que o conheciam. Possuía diversos imóveis, um bom trabalho, uma família ótima. Não havia nenhum motivo para não acreditar que ele seria um bom marido. O noivado foi breve, e os preparativos para o casamento começaram. Ela estava muito apaixonada e contente. Mas o que não esperava era chegar em casa e encontrar seu noivo beijando sua própria irmã. A única coisa que ela fez foi mandá-lo embora, sem nenhum grito ou lágrima. Uma semana se passou e o que aconteceu foi intrigante. O noivo fora encontrado pendurado na mesma árvore que o anterior. Na outra semana foi a vez da irmã, encontrada no mesmo lugar. O bairro se chocou. Não era muito comum a mesma coisa acontecer a quatro pessoas que estavam de algum modo ligados àquela garota. Dessa vez, mesmo sem provas, a polícia prendeu a moça. No dia seguinte, o policial foi até sua cela para entregar-lhe sua comida, mas a encontrou vazia. Encontraram o corpo dela no bosque, na mesma árvore das outras mortes. E desde então, correm boatos que aquela árvore era assombrada. Que a moça saía durante a noite para garantir que homens que traíam fossem mortos ali sem piedade. Por causa dessa história, ela acabou ficando conhecida como A garota do Bosque.
Mas Evelyn não se importava muito com isso. Seu noivo era um homem bom, trabalhador, decente. O tipo de homem que várias das suas amigas adorariam ter igual. Mas ele escolhera ela, mesmo ela não sendo tão bonita ou legal quanto as amigas. Eles estavam juntos há quase 6 anos, e decidiram se casar de uma vez. O casamento estava marcado para dali a 2 meses. O noivo parecia muito feliz em se casar com Evelyn e o sentimento era recíproco. Mas ela não imaginava que uma simples baladinha na sexta mudasse tudo. Os dois foram pro barzinho mais badalado da cidade, se divertiam muito até uma amiga de Evelyn aparecer. A garota, completamente inocente, apresentou a amiga ao noivo. E como já estava um pouco alterada nem percebeu como os dois trocavam olhares bem significativos. Evelyn e o noivo foram pra casa e como essa amiga não tinha onde dormir aquela noite, ofereceram um quarto de sua casa. Os dois moravam juntos há algum tempo, compraram uma casa linda do bairro, onde ninguém quis morar depois que os pais da garota do bosque morreram. Mas ela e o noivo não acreditavam em superstições, então resolveram morar ali.
Os três foram para casa e Evelyn adormeceu quase imediatamente. Fazia algum tempo que ela não bebia tanto. Não estava mais tão acostumada com isso. O noivo ficou responsável por arrumar o quarto da hóspede, afinal ela era amiga do casal. O que Evelyn não imaginava era que algo bem diferente do planejado estava acontecendo na sala enquanto ela dormia. Talvez por causa do barulho ou pela sede que sentia, ela acordou subitamente. Foi até a cozinha e quando estava voltando para a sala, encontrou o noivo e a amiga deitados no sofá, sem roupa. Voltou para seu quarto silenciosamente e pegou uma coisa que havia encontrado ao se mudar. Debaixo do piso do quarto, Evelyn encontrou uma caixinha com um livro de Magia Negra e os objetos necessários. Uma página específica do livro estava marcada e chamou sua atenção. Ensinava como matar as pessoas dando a impressão de suicídio. Ela tinha certeza que aquele livro pertencia a Garota do Bosque, então nunca mais tinha encostado nele. Pelo menos não até aquele momento.
Evelyn pegou todas as coisas necessárias e fez a tal magia. No dia seguinte fingiu que nada tinha acontecido e terminou com o noivo sem dar maiores explicações. Uma semana depois o corpo dele foi encontrado na árvore, e na semana seguinte, o da amiga. Evelyn não se manifestou a respeito disso, mas acabou por se sentir culpada por ter matado os dois. Tirou aquilo da cabeça por um tempo, mas sempre voltava a se sentir daquele jeito. Então, em um dos seus passeios noturnos pelo bosque, Evelyn observou que não estava sozinha. Sentada na árvore em que ela costumava ficar estava uma moça. Mas não era uma moça qualquer. Ela estava vestida de noiva e chorava. Evelyn foi até ela e puxou papo. A moça não conversava muito e nem mostrava seu rosto que estava coberto por um véu denso. Estava começando a ficar assustador, o ar estava gélido e Evelyn não conseguia se mover. Suas pernas não obedeciam, ela não conseguia gritar, começou a ficar desesperada. E então a noiva lentamente começou a levantar seu véu. A visão dela fez Evelyn desmaiar.
Na manhã seguinte, Evelyn foi encontrada pendurada na mesma árvore e em seus braços, escrito com algo cortante, era possível ler a frase "Não mexam com meu espírito". O bosque foi fechado definitivamente, e até hoje ainda se ouvem sussurros vindos lá de dentro pedindo por ajuda.

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