O mensageiro do Diabo

14 de Novembro de 2013 Antonio Lima Contos 2152



  Algo muito macabro havia acontecido. Algo muito sinistro me aconteceu. Eu vi, estava lá, pobre família. Eu contarei tudo.



  Em meados dos anos noventa aconteceu algo terrível na velha cidade no interior de São Paulo. Um fato que chocou toda a cidade, envolvendo uma família tradicional e polêmica. A família Francheschini era proprietária do velho casarão na Rua Major Joaquim Bernardes em um bairro
afastado da cidade. Era um lugar evitado, por dois fatores; aquela família era estranha e envolvida com magia negra, e por conta de haver um cemitério próximo ao casarão.


  Era fato que os outros moradores da cidade aumentavam cada fato que acontecia com a tal família. Morava na velha casa um casal, a avó, uma senhora de preto, não botava os pés fora de casa se não estivesse vestindo preto, e para deixa-la ainda mais sinistra levava consigo um
guarda-chuva grande comido por traças. Além deles, moravam duas crianças gêmeas, duas meninas muito brancas e com longos cabelos escuros como a noite.


  Certa noite estava voltando do bar com um
amigo, passando então pela rua da velha casa e nos assustamos ao depararmos com
um mutuado de materiais estranhos.


 -Céus! –Exclamou meu amigo benzendo o corpo.


  Chegamos perto do portão da casa e notamos duas velas pretas queimando em plena noite de ventania. Senti cada fio de cabelo da minha cabeça ficarem em pé, enquanto sentia um frio na espinha e meus olhos arregalarem.


 -Mas que diabos é isto? – Questionei amedrontado.


  Entre garrafas de aguardente e velas havia algo enrolado em um pedaço de pano na cor vermelha. Cheguei um pouco mais perto para observar e comecei a tremer enquanto observava um sangue escuro e denso saindo pelos míseros furos do pano.


 -Não vá tocar! –Alertou meu amigo.


 Concordei com a cabeça enquanto dei uma olhada para a casa. Meu amigo deu um berro de medo ao notar que estávamos sendo observados por toda aquela família na vidraça da casa. Estavam lá olhando fixamente para nós, com os mesmos olhares fundos beirando a raiva e desespero.


  Meu amigo me alertou dizendo que seria melhor sairmos daquele lugar o quanto antes. Porém quando viramos para deixar o portão do casarão ouvimos barulhos estranhos enquanto um cheiro horroroso de queimado tomava conta do lugar. O cheiro invadira tão rápido quanto a fumaça densa quesaía entre as criptas do cemitério. A lua cheia no céu iluminava cada fato sinistro que estava acontecendo.


  Meu amigo já estava em desespero, eu mais ainda. Então meu coração disparou quando notei um vulto andando entre os túmulos bolorentos e entre as altas árvores que deicxavam o cemitério ainda mais obscuro. . Na medida em que vinha para a entrada do cemitério, dava-se para ver sua silhueta assustadora. Tinha corpo esguio, longos braços e parecia flutuar enquanto se movia para a nossa direção. O cheiro de queimado estava insuportável. Quando ainda mais perto, meus pés pareciam ter criado raízes, pois eu estava impossibilitado de me mover de temor. Notei que aquele ser usava um chapéu escuro que protegia sua face da claridade lunar.  Senti algo me forçar a me curvar, não queria estar fazendo aquilo, mas minha coluna parecia estar em brasas, me obrigou a
deitar-me no chão forrado de folhas secas.


  O vento uivava entre as árvores e a fumaça parecia ter sumido. O cheiro ainda exalava, a essa altura aquele ser estava passando por nós. Forcei para mover meu rosto e observei a figura pelas costas, notei algo curioso, ele segurava um envelope. Eu fazia uma força enorme para
conseguir me manter olhando. A dor era insuportável.


  Logo notei o ser macabro abaixando e pegando para si o embrulho vermelho ensanguentado, lentamente desembrulhou e tirou algo
que lembrava carne do seu interior, levou à boca e comeu numa só bocada, enquanto lambia os dedos longos sujos de sangue olhou diretamente para mim, não pude fitar sua face novamente, mas eu sabia que ele estava olhando para mim.


  Em seguida abriu o portão enferrujado do casarão e entrou majestoso. Enquanto minha cabeça revirava, meus olhos giravam nas orbitas e eu perdia fôlego, tudo ficou escuro.


***


  Acordamos quando amanheceu, estávamos cercados de pessoas que falavam alto. Policiais e ambulâncias nos cercavam, levantei me protegendo da claridade enquanto as pessoas olhavam horrorizadas para algum ponto acima de mim. Olhei para trás e vi a pior coisa da minha vida,
meus cabelos ficaram de pé enquanto meu coração disparava novamente.


  A família toda estava pendurava nos galhos das árvores, suspensos por cordas.  Algo muito macabro havia acontecido. Algo muito sinistro me aconteceu. Eu vi, estava lá, pobre família. Eu presenciei tudo.


  Contamos o que havíamos visto. Mas de nada adiantou, fomos sentenciados, julgados e presos. Só você sabe o que de fato aconteceu. 



Texto integra o livro O baú de Maldições.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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