Seguindo o coelho branco

19 de Novembro de 2013 Mark Diaz Contos 1056

Já passavam das 3:00 da manha e nada fazia sentido para Lacerda. Pilhas de depoimentos e registros estavam espalhados sobre sua mesa junto a uma garrafa de café e um maço de cigarros.
Seus colegas mais próximos na delegacia diziam que estava obcecado, outros já duvidavam de sua sanidade, claro que duvidavam, ele próprio já começava a duvidar.
Mas haviam perguntas a serem respondidas, perguntas que não o deixavam dormir a noite, que se repetiam incessantemente em sua cabeça.
Seus olhos ardiam, daria tudo por uma noite tranquila de sono, mas não podia dormir, não depois de tudo. Desejava ao máximo que tudo voltasse ao normal, que tivesse deixado pra lá, mas sua curiosidade sempre sobrepujara seu bom senso e ele sabia que isso iria ser seu fim.
Havia sido avisado que estava indo por um caminho sem volta, para que queimasse aquele diário e talvez -talvez- voltasse a ter a vida que costumava levar, Quisera ter escutado.
Passaram-se três semanas desde que encontrou em sua mesa um velho e surrado diário e desde então sua vida nunca mais foi a mesma.
Anotações que não faziam sentido, desenhos bizarros e endereços que não existiam. Inicialmente pensou ser um trote do pessoal da DP, mas quando começou a receber ligações durante a madrugada de uma garota que chorava e implorava repetidamente "não se esqueça de mim" percebeu que algo estava errado.
Começou a investigar e descobriu que o diário pertencera a "Anastácia De Alcantra", uma garota de 16 anos que desapareceu em uma viajem em outubro de 94 sem deixar vestígios. Os pais foram encontrados mortos no fundo de um rio ainda dentro do carro e o irmão alguns dias depois perdido na floresta completamente fora de si.
Cada nome que encontrava em meio a frases distorcidas e sem sentido que investigara daquele maldito diário tinha sofrido uma morte repentina, desaparecido ou simplesmente não existia. Cada sombra ocultava outra sombra. Em meio a tanta escuridão só conseguia chegar a lugares e pessoas estranhas, o mais perto do normal foi um pequeno apartamento no centro da cidade. "Vazio a anos" disse o sindico e mesmo com mais de 30 anos morando ali não conseguia se recordar quem foi o ultimo morador. O apartamento estava intacto seja quem for que morava ali havia largado tudo (mesmo que pouco) para traz. As únicas coisas relevantes que encontrou foi uma aliança que havia sido jogada por debaixo da porta e uma caixa com uma coleção de moedas antigas.
Em pouco tempo notou que sua própria rotina estava mais que estranha. Quem era o estranho esguio que se mudara para sua rua? Por que não conseguia se lembrar de seu rosto? onde estavam os animais da vizinhança? Por que não constava o registro das chamadas noturnas na conta telefônica?
As ligações não sessavam, mesmo quando não atendia, podia ouvir as suplicas desesperadas em seus curtos sonhos.
Lacerda foi até a janela e acendeu um cigarro. Olhou atentamente para a Avenida e depois virou-se para o beco que tinha logo em frente a delegacia. Podia senti-lo, quase podia ouvir sua respiração, estava la, espreitando, observando, agora o seguia a todos os lugares.
A essa altura Lacerda já tinha percebido oque todos nos sempre soubemos, no intimo e negávamos a nos mesmos. Não estamos sós.
Todos já tivemos a impressão de que algo esta errado com o mundo, de que nem tudo é o que parece ser, sentimos no fundo de nosso subconsciente que algo está fora do normal. Dizemos a nos mesmos que o oculto e o sobrenatural não passam de bobas superstições herdadas de tempos antigos. Mas a noite, quando as sombras se alongam e o vento passa assoviando pelas arvores, nos lembramos de o porque um dia tivemos medo do escuro.
Era uma questão de tempo, logo ele também iria se juntar aos nomes do diário.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
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