Fita Vermelha

25 de Julho de 2011 Olavo Ataide Contos 1353

11h47min – Dúvida
Sara havia acordado há pouco tempo. Na verdade, ela levantou porque passara mais uma noite pensando, virando na cama e tomando remédios para dormir que já não ajudavam em nada.
Ela não queria comer, não tinha fome nem sentia necessidade de ingerir coisa alguma.
Era um dia ensolarado de inverno, as janelas da casa estavam todas fechadas, bem como as portas, mas ainda fazia muito frio. Sara estava cansada, andou vagarosamente até o banheiro onde lavou o rosto e olho-se no espelho por alguns segundos. Foi o bastante para ver o quão debilitada ela estava: mais branca que nunca, cabelos desgrenhados, olheiras profundas e lábios ressecados.
Ela mal lembrava há quanto tempo estava naquela situação. Dia após dia sempre igual. As contas estavam amontoadas no tapete da cozinha e a gata, Kiba, não voltava para casa há quatro dias.
Ainda usando roupa de dormir, ela foi à janela dar uma olhada rápida na rua, ficou ali parada por um minuto ou dois até perceber que havia um homem do outro lado da rua, pasmo, olhando-a. Ela correu de volta para o quarto, ofegante. Era agora. Agora ou nunca mais. Era agora mesmo? Era hora de deixar tudo para trás... AGORA?

12h14min – Mala

Não há problema nenhum em um homem ver uma mulher com roupa de dormir em sua própria casa, há? Talvez se esta mulher estiver trancada em casa há vários dias sem receber ninguém que tocasse sua campanhia nem atender telefonemas.
Para Sara, ser vista era o sinal de alerta em seu último nível. Agora, que ela tinha sido vista, eles viriam buscá-la, viriam todos de preto como eles sempre estavam.
Por quê? Só ela realmente sabia – ou assim achava.
Passada a agonia inicial, Sara tomou a decisão. Tirou a mala de cima do armário e pôs-se a jogar roupas e todo dinheiro que encontrou dentro dela. Ela vestiu um casaco branco e uma calça jeans, calçou-se e foi até a porta da frente, voltou a cozinha e deixou um recado escrito num pedaço rasgado de folha, onde se lia:
“Fui comprar cigarros, estarei de volta em breve.
Sara Burkins.”
O recado era para o namorado, que estava viajando – e já deveria ter voltado cinco dias atrás e não fizera mais nanhum contato – caso ele voltasse, poderia ficar preocupado, era melhor deixar algum sinal.

13h02min – Rua

Ela já fora vista, então, agora, não faria muito diferença tentar se esconder. Sara hesitou, teria mesmo coragem de sair? Respirou fundo e esperou, esperou por qualquer coisa que a salvasse magicamente, mas nada aconteceu e depois de quase cinco minutos parada a frente da porta numa aflição silenciosa, ela virou a maçaneta e saiu.
O sol doeu na pele dela. Há muito tempo que os dois não entravam em contato direto.
Sara começou a andar muito mais rápido que o normal, sentindo o vento frio rachando seus lábios pálidos. Ela calculou em sua mente que não levaria nem cinco minutos para chegar ao fim da rua onde poderia tomar um táxi, porém, o trajeto pareceu durar infinitamente mais do que isso. O final da rua não chegava nunca e a iminência de estar perdida fez Sara perder o controle.
Em várias casas ao longo da rua haviam pessoas prostradas em suas janelas assistindo àquele espetáculo que – para eles – era cômico: Uma mulher carregando uma mala com uma expressão desesperada, correndo entre as calçadas e do fim para o começo da rua.
- Eles mudaram o caminho... só pode ser isso! – gritou Sara agarrando a mala contra o peito.
Ela fechou os olhos, tentou se concentrar em qualquer coisa e foi andando mais devagar, até que enfim, chegou.
Quando abriu os olhos, Sara se viu na movimentada Avenida Sargento Fernandez. Estava lotada, abarrotada de carros e pessoas, assim, ela sentia-se ainda mais atordoada. No meio de sua agonia particular, ela chacoalhou a mão freneticamente quase no meio da rua fazendo um táxi parar bruscamente.

13h26min – Paranóia

- Para longe daqui! – berrou ela, quando fechou a porta do táxi com um baque.
- Minha senhora, mas pra onde? – o taxista barbudo estava confuso.
- Acelera, seu idiota!
- Assim não vai dar, é melhor a senhora sair.
Sara estava mexendo em alguma coisa na mala, quando encontrou, jogou no colo do motorista duas notas de cem. Ele olhou para ela desconfiado.
- Agora corre! – ordenou ela com um olhar extremamente sério.
Eles estavam ali, não havia dúvidas. Ela perdera muito tempo com aquele taxista, agora, talvez, estivesse tudo perdido.
O taxista acelerou o carro e começou a ir para leste numa velocidade normal. Aquilo não era o bastante, ele precisava correr! Olhando pela janela, Sara começou a ver vultos, os vultos que ela via há quase duas semanas e que a perseguiam por toda parte até o dia que ela decidiu se trancar em casa.
E agora e eles tinham voltado.
- CORRE! CORRE! VOCÊ PRECISA IR MAIS RÁPIDO!
- Eu não posso correr mais que isso, vou tomar uma multa!
- Não me importo com multas e você também não vai se importar quando estiver morto. CORRA!
Sara estava com as mãos fechadas de uma forma impenetrável afundando-as no banco de trás do carro. Ela olhava para os lados e via pessoas comuns caminhando, segundos depois os vultos chegavam e levavam as pessoas. O tempo dela estava acabando.
Ele tinha certeza que não ia demorar até eles conseguirem encontrá-la. Sara pensou por um momento em se entregar, afinal os outros não deveriam sofrer por causa dela, porém, logo esqueceu a idéia, sabia que não tinha feito nada para que isso acontecesse e não ia se entregar a toa, mesmo que se sentisse um pouco egoísta por isso.
O aquecedor do carro estava ligado no máximo, ela podia ver, mas mesmo assim sentia um frio monstruoso. O taxista barbudo pisava fundo no acelerador, assim como tinha sido ordenado provocando o soar de buzinas e palavrões.
A mão esquerda de Sara derramou uma gota de sangue no banco do carro. Ela estava se ferindo sem consciência tamanha a força com que ela apertava os próprios dedos.
A mala ainda estava aberta, de dentro dela estava saindo o acessório de que Sara mais gostava de usar porque a fazia lembrar o pai: um fita vermelha, a qual ela gostava de usar amarrada no cabelo sobre a franja. Ela colocou a fita e viu seu reflexo no vidro, viu também que derramara outra gota de sangue, dessa vez escorrendo em sua testa. Ainda assim teve um segundo de tranqüilidade ao ver-se até que o carro fez uma curva brusca para a esquerda fazendo-a bater com violência na porta.
- Merda! – ela havia batido a mão cortada na porta, aumentando o ferimento em alguns centímetros.
- Você está sujando meu carro de sangue, dona?! – O taxista tinha virado para ver se ela estava bem.
Sara jogou outra nota de cem para frente e recebeu o silêncio como retribuição.
O vultos aumentaram de tamanho e quantidade, já não havia mais pessoas comuns caminhando nas ruas, eles estavam em todo lugar. Só existia um carro na rua: o do taxista barbudo.
- Fuja! Eles levaram todos, só falta a gente!
Nesse momento, o motorista percebeu com o que estava lidando.
Sara ficou descontrolada outra vez. Os vultos estavam cada vez mais próximos e o frio só crescia. Ela começou a gritar, bater nos vidros e sujá-los com mais sangue quando o taxista parou.
- Você enlouqueceu?! CORRA, CORRA!
Ele ficou quieto.
Sara pulou para o banco da frente, tentou lutar com o homem mas foi em vão, os vultos tinham chegado.

14h12min – Fim – Assim como aconteceu

Ela gritou, xingou o pobre homem e pulou para fora do carro levando consigo todo o desespero e pânico que ela trazia.
Aqueles vultos, aqueles barulhos a estavam perseguindo por tanto tempo... No começo, ela resistiu bravamente, todavia, ninguém pode viver em estado de vigilância para sempre. Ela realmente não pôde, cedeu, se trancou em casa – sozinha, já que o namorado não mais voltara. Mas Sara se superou, decidiu sair de casa e assim o fez, decidiu encarar a realidade de frente e estava fazendo isso agora, ela só não esperava que fosse ser assim tão agonizante.
Sara deixou a porta do carro aberta e desatou a correr pela rua sem nenhuma preocupação de que direção seguia. Só precisava correr.
Correu durante pouco mais de um minuto assustando a todos que ficavam perplexos com a passagem da mulher. Dois policiais começaram a perseguí-la quando se deram conta do perigo que ela trazia ensangüentada, desesperada.
Ela olhava para trás o tempo todo, uma, duas, três, quinze vezes e o perigo estava implacável, mais rápido do que ela. Estavam vindo em todas as direções. Enfim, os policiais a alcançaram e Sara desmaiou.

14:12 – O Fim – Assim como Sara viu

Aquele homem não ia mais ajudar, provavelmente estava do lado deles e só estivera disfarçado durante esse tempo levando-a para um lugar onde fosse mais fácil pegá-la. Era melhor fugir e assim ela fez saindo do carro e começando a correr.
Sara não tinha planos, não fazia idéia do que fazer. Tinha plena consciência de que não poderia correr para sempre, mas estava decidida: enquanto seu corpo agüentasse, ela correria.
Passou por lojas, carros, esbarrou em pessoas – que tinham rostos deformados e logo viravam mais vultos... Por quê? Antes, ela nunca ouvira falar de algo parecido com o que estava passando e a raiva, agonia e indignação só cresciam fazendo lágrimas transbordarem por seus olhos.
O suor ensopava o rosto de Sara, mas ela não se importava. Sara ajeitou a fita na testa, soltou um suspiro de cansaço e puxou o ar com força para irrigar os pulmões aflitos.
Foi derrubada de repente. Estava tudo acabado. Eles conseguiram. Ela perdeu. Eles a tinham.
Um dos vultos tinha sido mais rápido que ela e ,agora, a escuridão inundava seus olhos completamente.

16:21 – Segurança?

Emily Burkins estava assinando os papéis finais da burocracia da clínica. Enquanto isso, Sara estava descontrolada, escondida sob a cama no silencioso quarto do Instituto Santa Lúcia – um lugar cheio de vultos.

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