Anabell

20 de Novembro de 2013 Priscila Pereira Contos 1199

     Estava chovendo e o dia estava escuro e
triste, não havia ninguém na rua; não aquela hora, mais cedo muitas
pessoas passaram apressadas com suas galochas, capas de chuva, e enormes
guarda-chuvas, mas agora não havia ninguém, só a menina olhando pela
janela, parecia triste, pálida e doente, mas combinava admiravelmente
com a fachada do prédio, desbotada, rachada e maltratada, ambas pareciam
estar ali a séculos, presenciando tudo de mal que já havia acontecido
naquela rua, cidade, país, mundo.    Continuava olhando, mas parecia não ver, parecia estar mergulhada em seus sinistros pensamentos.- Anabell, o que você está fazendo parada aí até agora, eu preciso do meu remédio.Disse
uma voz velha, rançosa e bolorenta. Sua dona era quase tão velha e
bolorenta, estava deitada em uma cama pobre mas limpa, com cobertores
puídos e remendados, a velha não era realmente doente, mas desde que
arrumara essa órfã para cuidar, se sentia no direito de ser mimada,
paparicada e servida como uma inválida.    Para pagar todo o
trabalho que dava cuidar de uma criatura regeitada pela sociedade, nada
mais justo do que pôr essa criatura para trabalhar árduamente pelo
sustento das duas e ainda ser servida nas poucas horas de folga da sua
filha adotiva. Bem que Gertrude tinha razão, nada melhor para uma velha
senhora que adotar essas criaturinhas que iriam ficar jogadas mesmo e
po-lás para trabalhar a seu serviço, nada mais barato e gratificante que
essa escravidão. Enquanto pensava nisso, via Anabell ir pacientemente
até a mesinha e pegar um comprimido, dar a volta no quarto e pegar água
 de uma garrafa velha , trazer e colocar ao lado da cama, e como um
cordeirinho perguntar se ela queria mais alguma coisa.- Claro que
sim, está na hora do meu banho e trate de fazer algo decente para a
janta, já estou casada de comer arroz com caldo de fubá, vê se vai
comprar um pouco de carne e batatas, mas não gaste muito.- Sim senhora.Era tudo que Anabell dizia, com uma espressão de cansasso, infelicidade e desprezo. 
  Anabell foi preparar o banho da velha e depois colocou só um agasalho
que já lhe pertencia a uns bons cinco anos, e saiu para comprar comida
para a velha, pois sabia que lhe era proibido tocar na carne e se
sobrasse poderia até provar as batatas, mas antes isso que passar fome.
Era muito infeliz na casa da velha, mas pelo menos tinha onde dormir e o
que comer, embora sentisse muito frio o tempo todo e não comesse algo
decente a séculos, pelo menos não tinha que mendigar nem dormir na rua. 
  Saiu do prédio e logo sentiu a chuva penetrar o agasalho fino e
molhar todo o seu corpo, o frio aumentou consideravelmente, fazendo-a
tremer, mas pôs-se a andar o mais rápido que podia, a velha detestava
ficar sozinha. Entrou em uma rua que tinha vários mercados, açougues e
todo tipo de lojas que sujavam as calçadas e deixavam um cheiro de
comida estragada e lixo espalhado pelo ar, entrou no mercado mais
miserável que encontrou, tinha que polpar o seu dinheiro, e ver se
conseguia guardar algumas moedas, só assim teria alguns centavos seus
mesmos, já que a velha pegava cada centavo do seu salário, o jeito era
economizar nas despesas e guardar o dinheiro que sobrava.   
Escolheu algumas batatas mirradas e pediu algumas centenas de gramas de
carne de terceira, pagou e por sorte conseguiu guardar algumas moedas, enrolou com cuidado as compras para que não molhassem e saiu de novo
para chuva, que aumentou e estava caindo em grandes gotas geladas.
Atravessou lentamente a rua; a única hora de paz e sossego, e relativa
felicidade era o tempo longe da velha e daquele apartamento horrível,
detestava tanto a velha como a casa, tudo lá era terrível e mal, mas não
podia demorar muito longe da casa, a velha com certeza já estaria de
mal humor, e quando isso acontecia era pior do que sempre.    Tratou
de se apressar e logo chegou na porta do prédio, subiu as escadas sujas
e escuras e entrou a tempo de escutar um acesso de raiva da velha, que
já reclamava da demora da menina, que não sabia fazer nada direito, que
era lerda e ainda por cima feia, ela sempre ouvia isso, sempre, já até
tinha se conformado com essas coisas.    Cuidou de fazer a janta o
melhor que pode, e com muito cuidado para a velha não perceber, pegou um
pedacinho de carne e pôs no meio do mingau de arroz e fubá que era a
sua comida diária. Levou a comida da velha, que reclamou que era pouco,
que estava temperado demais e foi comer na cozinha.     Enquanto
comia pensava se um dia ia se livrar da velha, se um dia ia ter um lar,
se um dia seu pai ia se lembrar que ela existia e ia procura-la; com
certeza não, desde que sua mãe morrera que seu pai não largou a garrafa
de bebida nem um segundo, e nem se importou mais com seus filhos, ela
não era a única, tinha mais duas irmãs e um irmão, todos mais velhos,
seu irmão estava preso em uma instituição para menores, sua irmã mais
velha tinha três filhos e morava num barraco com o companheiro bêbado, e
a outra irmã, bem, era prostituta, e já a tinha convidado para cair
nessa vida, no que ela recusou e disse que preferia morrer de fome, bem,
em comparação com os irmãos até que sua vida era boa. Parou de pensar
nessas coisas ruins e foi ver se a velha queria mais alguma coisa,
ajeitou a velha para dormir e foi arrumar a cozinha.    Lavar
panelas e pratos era o que ela mais detestava fazer, mas a velha tinha
um prazer mórbido em faze-la arrumar a cozinha sempre antes de dormir,
não podia nunca deixar para arrumar na manhã seguinte, mas era até
melhor assim, sendo que levantava muito cedo e já tinha que arrumar a
casa toda, preparar o desjejum da velha e ainda ir trabalhar.   
 Trabalhava em uma fábrica de calçados, ganhava muito mal e trabalhava
muito, um serviço entediante, com companheiras entediantes e horário
também entediante, mas como já tinha pensado antes, era bem melhor do
que viver na rua, ou se prostituir.Assim que acabou de lavar a
última panela, foi ver se a velha já tinha adormecido, e como sempre
percebeu que ela dormia a sono solto, já a algumas horas.    Pegou o
casaco molhado mesmo e bem devagar, para não acordar a velha, ela saiu
de casa, fechou a porta e desceu até o portão, que aquela hora estava
fechado, mas ela sabia um truque para abri-lo, e sem dificuldade saiu
para a rua, que estava gelada, mas não chovia mais, o céu estava
estrelado e limpo, e o ar era úmido e extremamente frio, mas Anabell
gostava, se sentia bem no frio, detestava o calor sufocante que fazia e a
 deixava mole e sem forças para nada, o verão era a pior estação para
Anabell.    Assim que ficou longe do prédio ela respirou aliviada,
ela não relaxava até estar a uma distancia segura da velha, o que era
possível só nas suas caminhadas noturnas, o que ela começou a fazer
assim que descobriu como abrir o portão principal, todos os dias ela ia
até bem longe e voltava, só para parecer livre por algum tempo. Foi ao
seu lugar favorito, o cais da cidade, onde ela ia ver o movimento dos
barcos, principalmente os pesqueiros noturnos, e onde podia caminhar a
vontade parcialmente encoberta pela escuridão.     Parou em um lugar
onde os turistas iam para pescar, uma plataforma de madeira que entrava
mar adentro, foi até o fim da plataforma, sentou na beirada e ficou
olhando as ondas revoltas, a chuva tinha agitado as ondas, que chegavam a
lamber seus sapatos. Estava pensativa, mais do que sempre, dali a
exatamente uma semana ela iria completar 17 anos, e no horizonte de sua
vida não havia nada, nada que ela pudesse esperar, nada com que se
preocupar além do fato de talvez chegar aos 50 anos ainda na casa da
velha  e isso era um pensamento insuportável, como tudo na sua vida. 
  Um barulho interrompeu seus pensamentos, entrou em sua mente trazendo
lembranças boas da infância, era uma gaita, uma musica suave tocada por
alguém inexperiente mas tocada com o coração, esses sons faziam Anabell
lembrar de sua mãe, que gostava tanto de música, qualquer que fosse.
Era uma mulher sonhadora e frágil, não aguentou a vida dura e sem
distrações. Bem, pensou Anabell, chega de lembranças, está na hora de ir
embora.    Levantou, arrumou a roupa e foi voltando pela plataforma
de madeira, viu que no começo da plataforma estava o autor daquele som
que lhe trouxe boas lembranças, a medida que foi chegando perto pode
ver com mais clareza a pessoa que tocava a gaita, era um homem, ou
melhor, um rapaz, não deveria ter mais de 18 anos, era alto, mas não
muito e de aparência sadia, quase robusta, estava pobremente vestido,
assim como Anabell, e tinha os cabelos encaracolados e levemente longos e
sempre com o aspecto bagunçado, ele parecia bem a vontade naquele
lugar, como se o visitasse com frequência, ou trabalhasse lá.   
Anabell passou por ele e deu um sorriso, como a agradecer pela
inesperada distração na noite fria e triste, ele retribuiu com um lindo
sorriso que a encantou. Foi embora pensando em como devia ser a vida de
pessoas comuns que podiam fazer o que bem entendessem, como aquele rapaz
que tocava sua gaita tão livremente, tinha ele comprado aquele
instrumento com o dinheiro ganho pelas longas horas de trabalho ou tinha
sido herdada  de algum antepassado, ou talvez ele tivesse simplesmente
achado em algum canto ou mesmo pedido emprestado ou até roubado, isso
era uma das coisas que ela gostava de fazer, inventar histórias para
pessoas que via na rua, que não conhecia e que talvez nunca viesse a
conhecer, inventava passado, modo de vida, grandes paixões e até um
futuro provável.     Pensando nessas coisas foi que Anabell entrou
em casa, viu se a velha dormia bem e foi trocar de roupa e deitar na
caminha estreita e fria que ela ocupava na cozinha, assim que deitou a
cabeça no travesseiro adormeceu profundamente de pura exaustão física e
moral, foi um longo dia.    Amanheceu, o dia estava quente e
abafado, totalmente o oposto do dia anterior, mas naquela cidade era
assim mesmo, o clima era algo que nunca se podia prever, Anabell foi
desperta por um despertador bem antigo e estridente, parecia que ela mal
tinha fechado os olhos, ela nunca conseguia descansar o suficiente, sua
vontade era dormir por três dias seguidos, mas isso só se ela fosse
para um hospital ou coisa parecida.    Levantou e foi tomar um banho
gelado, era a única coisa que a despertava completamente, foi fazer
café, fraco e sem açúcar, que ela odiava, mas era isso ou água, e ela
não era peixe pra gostar de água no café da manhã, comeu umas torradas
velhas e foi preparar o desjejum da velha que sempre consistia em um
prato de mingau de aveia com o pouco de leite que comprava diariamente,
leite esse dissolvido em muita água, que parecia quase transparente,
deixou o prato e os remédios da velha no criado mudo e foi para o
trabalho, deviam ser umas 6 horas da manhã, e isso queria dizer que ela
tinha meia hora para chegar no trabalho, foi andando devagar, aspirando o
ar ainda puro àquela hora da manhã, chegou na fábrica 6:15, e como era
seu costume ficou a passear pela pequena praça que ficava bem em frente à
fábrica, foi direto para um canteiro com as rosas, e logo viu o que
procurava, um lindo botão quase a se abrir numa cor exótica, cor de
abóbora, ou salmão bem escuro, não sabia definir bem aquela cor, só
sabia que era a sua preferida, ficou a contemplá-la até que soaram os
apitos de entrada da fábrica.   Entrou na fábrica grande e feia,
junto com um bando de mulheres tagarelas e mal cuidadas, que só falavam
de filhos, amantes, roupas e o preço dos alimentos que tinha subido de novo, Anabell tinha três amigas na fábrica, todas mais ou menos na sua
faixa etária, duas tinham 17 e uma tinha 19, ela era a menorzinha do
grupo, e só se encontravam no refeitório, isso porque para a
infelicidade de Anabell as quatro trabalhavam em setores diferentes,
quase nunca se encontrando.    A manhã  passou lenta e cansativa e
quando soou o apito para o almoço todos ficaram felizes, Anabell pegou
sua bandeja e se serviu da sopa sem gosto e de procedência duvidosa que
era servida diariamente para as trabalhadoras que não tinham como voltar
para casa para o almoço ou que não tivessem o que comer em casa, o que
era o caso de Anabell. Sentou na mesa do canto e logo vieram suas amigas
para sentarem junto dela, e começaram um animado bate papo sobre suas
peripécias, Aline disse que na noite passada tinha namorado muito, como
todas as noites, Luana tinha lido um livro de romance e Giovana tinha
cuidado de seu irmão caçula para sua madrasta sair com seu pai. Anabell
disse o que tinha feito na noite anterior e comentou sobre o rapaz e a
gaita, ao que todas ficaram animadas porque nunca tinham ouvido Anabell
falar de um rapaz antes.    O almoço acabou e todas voltaram a seus
setores, o resto do dia passou lento, quente e abafado, Anabell fez o
que sempre fazia enquanto colava as solas de um sapato vagabundo,
sonhava em como queria que fosse sua vida, morando com sua mãe em uma
casa bem bonita, não precisava ser grande, mas tinha que ser
aconchegante e feliz, seu irmão e suas irmãs todos juntos e felizes, ela
estudando, trabalhando em algum escritório ou consultório bem sucedidos, que pagassem bem e o trabalho não fosse pesado demais, e
também quem sabe um namorado, alguém que gostasse dela, alguém que ela
pudesse amar.    Enquanto devaneava a hora passava, e logo deu a
sonhada hora do fim do expediente, mas para Anabell só começava mais uma
jornada de trabalho, lavar, passar, varrer e cozinhar, mas, mais tarde
ela poderia ir ao cais e quem sabe encontrasse o tocador de gaita...
Quem sabe.


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