Era noite, já se passavam das 23 horas e as folhas secas arranhavam o asfalto de uma rua deserta. Melina havia acabado de deixar uma lanchonete barata, estava um pouco bêbada, porém sabia o que estava fazendo. Recusou a carona dos amigos alegando que sua casa era próxima e acabou por tendo que andar sozinha pela noite.   

Um carro se aproximava pelas costas de Melina, passando muito devagar. Um carro suspeito, preto, com vidros também pretos e faróis baixos. A jovem estranhou, mas continuou andando firme, tentando não demonstrar fragilidade. O carro custou a sumir na outra extremidade da rua, quando virou a esquina, Melina respirou aliviada.

Havia ouvido falar de um carro preto que sequestrava mulheres e crianças por aquelas bandas.    Nunca foi de levar lendas urbanas a sério, mas não era prudente desacreditar e não tomar cuidado. Dobrou a esquina olhando atentamente para cada beco escuro. Foi em um destes becos eu pôde notar um par de olhos olhando fixamente pra ela.

Congelada pelo medo ficou olhando o par de olhos em meio à escuridão enquanto sua cabeça latejava. Deveria correr, mas suas pernas ficaram bambas, e sem reação viu os olhos se aproximando e deixando a parecer o resto do corpo de um gatinho preto.  Melina sorriu aliviada, e se curvou para fazer carinho no gatinho preto que antes parecia ser muito ameaçador.  Desconfiada olhou para as extremidades da rua, as casas estavam fechadas, escuras e algumas pareciam estar abandonadas, o único barulho naquela calmaria, eram as folhas secas arrastadas pelo vento, e o rom-rom do fofo gatinho.   

A garota levantou-se ao mesmo instante em que um farol iluminou seu rosto, com dificuldade olhou entre os dedos que cobriam seus olhos da claridade e pôde ver o mesmo carro preto parado na outra extremidade da rua com o motor desligado. Melina continuou imóvel, o motor do automóvel foi ligado, os faróis baixados e começou a andar em direção de Melina. Naquela monótona velocidade passou pela garota, esta viu o motorista, com capuz, roupa preta e luvas também negras, já que seu braço estava apoiado na janela aberta. 
   
Passou uma vez mais naquele mesmo jeito, na mesma velocidade. E novamente sumiu na outra esquina. A garota deixou o gatinho de lado, e começou a andar rapidamente pela rua. Ela chegou numa avenida escura às margens de um córrego sujo, andando cada vez mais rápido, enquanto sua respiração ficara ofegante. Um cerca de arame farpado ao lado direito fazia par com a rua mal iluminada.   Então novamente o carro aparece, estacionando com o motor desligado de frente para Melina, os faróis desta vez estavam desligados, naquela avenida escura e fria, só havia a garota, o carro e a noite.     

O carro começou a andar lentamente em direção da garota, com as luzes apagadas. Ameaçador. Melina começou a correr do carro, este cada vez mais rápido a ponto de chegar a centímetros da jovem. Correndo de salto alto, Melina se desequilibrou e caiu no asfalto ralando os joelhos e a palma das mãos. O motorista do carro não perdoou o acidente e continuou andando em direção da garota, acelerando alto sem sair do lugar para assustá-la, parecia estar se divertindo demais com isto.   

Melina estava se arrastando pelo chão para não ser atropelada, andando de ré, ora correndo, ora arrastando-se. Enfim o motorista deu trégua e ficou batendo na lata do carro com suas luvas. Enquanto avaliava se deveria atropelar aquela garota. Decidiu não atropelar, pois abriu a porta do carro co violência e começou a correr atrás da garota.   Estava encapuzado, era enorme, e ameaçador agarrou Melina pelos cabelos e começou a arrastá-la para o carro. A garota resistiu, gritava e tentava se desvencilhar do bruta-montes.  Aquele homem parecia disposto a arrastá-la consigo. Tirou uma faca de dentro do casaco grosso e levou-a para perto dos olhos de Melina. 

- Calada! – Murmurou ele ofegante – Senão furo os seus lindos olhos! 

Ela calou-se e deixou ser arrastada para o interior do veículo, no meio dão caminho começou se debater e arrebentou um colar que era seu amuleto. Seu coração estava disparado e estava gelada de medo e de pavor. Estava desesperada, não saberia o que poderia acontecer a ela. Uma coisa tinha certeza. Não seria um final feliz. 

 Dentro do carro Melina teve uma visão horripilante quando aquele desconhecido tirou o capuz e a luz do poste iluminou seu rosto, era deformado como se fosse fatiado, e saía pus e sangue dos cortes de aspecto profundos.     

Melina deu um grito de pavor e quando abriu os olhos se viu debruçada na mesa de uma lanchonete barata. Uma garçonete com cara amarrada estava olhando pra ela e disse: 

- Cai fora daqui sua bêbada! Fica gritando igual a uma doida. Já vamos fechar! 

Melina começou a murmurar, mas a garçonete era forte a colocou para fora, trancou a porta. De fato ela era a única cliente na lanchonete. Já era muito tarde, a lua cheia no céu iluminava a rua, as folhas secas arranhavam o asfalto sendo arrastadas pelo vento frio. Andou alguns metros e deparou com um carro preto, dentro dele uma pessoa com capuz, oculto na penumbra.   

Melina apavorada lembrou-se do sonho. Desesperada levou as mãos ao pescoço, onde seu colar não estava. Havia sonhado com a própria morte...