Insanidade platônica

26 de Julho de 2011 bellafowl Contos 822

As lembranças jorram em minha mente quase como uma névoa que passa por nossos olhos e tampa boa parte da visão. Não consigo deslumbrar os detalhes. Os gestos, expressões, roupas e lugares ficam praticamente invisíveis. Tento resgatar alguns deles, mas o pouco que consigo não serve para muita coisa. Não ligo muito, porque o que importa mesmo é você, e graças aos céus, consigo vislumbrá-lo com uma questionável perfeição.
Recordo-me de seus sorrisos, gracejos, falas inoportunas, e ao mesmo tempo oportunas, erros, medos, incertezas, certezas, delicadezas, conclusões, risos, beijos e abraços. Cada detalhe, cada toque, cada palavra, cada declaração, cada promessa, cada mentira, cada pedaço de você.
O tempo não conseguiu me fazer esquecê-lo e nem mesmo a distância. As memórias ainda são nítidas, brigo para que sejam. Os detalhes de seus toques ameaçam desaparecer e somente ameaçam, porque imediatamente os retomo. Lembro-me da textura de seu cabelo e das suas mãos ásperas, que mesmo assim conseguem tocar-me delicadamente. Delicadeza esta que dedicou a mim e a outros, embora meu egoísmo desejasse que fosse uma exclusividade minha. Não foi e nunca será.
Redijo esse texto, movida pela nostalgia muda que transborda o mais profundo lamentar. Não consigo lhe ver com maus olhos, nunca consegui. Seu vislumbre real e imaginário sempre transbordou da tão falada perfeição. Perfeição essa que pude saber existir somente contigo, porque foi você quem me fez ver a alegria e a esperança do mundo, e ao mesmo tempo perceber o inferno imensuravelmente cruel que nele habita. Foi somente você quem conseguiu me levar do céu ao inferno somente com a sua presença ou ausência. Foi você quem me mostrou a completude e me completou, mesmo quando não fui digna de te completar.

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