Eu costumava não pensar nas coisas antes de falar quando
ficava inquieto com algo. Inquieto, não com raiva. Não estressado. Eu não fico
com raiva. Isso começou a afetar minhas amizades e eu tive de ser acordado por
alguém com palavras que pareciam socos, facadas e pontapés nas costelas. Alguém
que se preocupava. Ele dizia: Acorde!



Minha vida se resumiu em ficar sentado no quarto sem falar
com muitas pessoas, sem sair de casa, sem ter uma ‘vida’ pra contar pros
filhos. Sem ter aventuras pra contar pros filhos. Eu não tive filhos. Eu
namorei, tive várias experiências. Desde degustar sabores exóticos até criar
sabores exóticos, desde ter um encontro assustador com o sexo até fugir várias
vezes dele, desde amar um amigo até querer me afogar na paixão de uma colega de
classe.



Na adolescência, na grande era de ouro da vida de todos, onde
tudo acontece, eu tive uma banda de rock. Logo tive, aos dezenove anos, um
carro herdado de meu pai, que tratei logo de deixá-lo o mais rock possível.
Tive uma namorada bem rock n’ roll. Tive um pequeno apartamento numa cidade
grande qualquer que fiz questão de pichar RAMONES na parede onde ficava minha
cama, pra deixar mais radical que a gradiente azul-marinho do papel de parede
que tinha. Deixava-me triste. Eu me lembrava de casa.



Uma amiga, dos poucos amigos que eu tinha, costumava dizer
que eu era o melhor psicólogo que existira. Eu era incrível para falar com as
pessoas. Para ajudá-las. Ainda sou. Essa mesma amiga também dizia que eu seria
melhor se seguisse meus próprios conselhos. Quem me dera ter dado ouvidos a
ela. Quem me dera.



Não gostava de marcas. Não gosto de marcas. Sou, e sempre fui
consumista. Lembro-me dos meus amigos esnobando marcas e produtos inúteis,
cultuando empresas, escolinhas, cursos, até casacos. Eu os olhava friamente.
Era ridículo. Se eu precisasse escolher uma marca, para algo, seria a marca de
um belo caminhão.



Eu amava caminhões, não sabia muito sobre eles, mas amava. Eu
contava meus planos para os amigos e eles se assustavam. “Vou comprar um
caminhão, engravidar alguém, pegar o filho, se for menino, e fugir com ele pra
Finlândia.” Olhos arregalados por toda a parte. À minha volta.



O futuro com a música deu certo, até que um dos meus melhores
amigos, o guitarrista da banda, teve que sair do país para estudar. A banda se
desfez, eu não queria rock sem ele lá. Eu desenhava, desenhava muito. Parei ao
fim dos meus quinze anos, eu só conseguia fazer rabiscos sem nexo que não
mereciam ser chamados de arte. Eram piores que aquelas manchas de tinta
abstrata espalhada pelos museus afora.



Eu tinha um curso de informática, era técnico em química e
queria fazer filosofia para depois seguir a carreira de professor e fotógrafo.
Na Finlândia. Com meu filho. Eu, pior que o Batman. Chamava-me de Batman. Todos
pensavam que era apenas por brincadeira. Só um distúrbio dos meus onze anos de
idade, mas não. Existia toda uma filosofia por trás de cada “Eu sou o Batman!”
que eu dizia nos intervalos da aula, no parque, no cemitério. A capacidade de
pensar, de ser só, de entender tudo e guardar para si, a capacidade de
sacrificar, de, às vezes, não se importar... Aquilo era eu, o Batman. Eu, sendo atacado pelas corujas
da vida.