A última chuva

26 de Novembro de 2013 Mara Braçali Contos 842

O amor brotou em meio a solidão daquela noite chuvosa, sem risos, sem alegria. Fria e úmida estava também a minha alma tão esquecida pelo tempo, tão aprisionada em lugares inóspitos,arredios, incertos, me deixei ficar nesse lugar por acomodação, por ser mais fácil ficar aqui a viver a sair  e ter que me mostrar como a pessoa que me tornei; Uma velha em cima de uma cama!

No jogo da vida ganhei e fui vencida, recebi e me tiraram, sou o que restou o que sobrou. Na minha juventude era esperta, tinha uma alegria que pulsava em meu ser, tudo me contagiava aponto de querer tudo de uma só vez, a alegria transbordava dentro de mim, sorria à toa, era boba, mas feliz. Ah! Como eu era feliz, como eu tinha planos, sentia que podia fazer tudo e de todas as formas, mas um dia fui pega de surpresa por uma doença que me deixou a ver os lindos dias através de uma janela pequena, mas, mesmo assim dava para sentir a brisa entrar no quarto em que estava. Ali pude aprender a ser paciente a ser menos independente, minha vida se tornou acordar e dormir e aprender sem ter condições de participar de salas de aula, mas as aulas eram dadas e eu aprendia a ser cada dia mais feliz, mesmo naquela situação.

Pessoas entravam e saíam, me faziam perguntas que as vezes não tinha condições de responder, mesmo porque não sabia a resposta certa ou mais adequada, meus instintos me diziam que alguma coisa estava para acontecer naquele quarto, comigo, no começo tive muito medo, quis fugir, não queria enfrentar meu fim que parecia estar próximo demais. Mas depois de algumas aulas elaboradas por mim, fui aceitando meu destino.

Aceitar é crescer é entender que existe um caminho já determinado a seguir, eu aceitei meu destino o melhor que pude. Só que em determinados momentos era pega por forças bem mais fortes e poderosas que eu, tive crises de pânico, queria correr, queria voltar tudo de novo, não queria estar ali, esperando a morte acontecer.

Não, a morte não deveria acontecer pra mim naquele quarto, queria viver mais, queria voltar pra casa, ver meu cachorro, brincar com ele novamente, como se eu sempre brincasse com Splash, não tinha paciência para  dedicar a ficar algumas horas jogando brinquedos para meu  cachorro sair correndo e trazer em sua boca para que eu o jogasse novamente.

Sim, eu queria mais tempo para fazer coisas que não  fiz, para fazer coisas que não tinha paciência, eu queria viver um pouco mais...

Deus sabe o que faz e quando faz, não teve jeito, nem remédios, nem tratamentos me fizeram melhorar, a vida foi saindo de meu corpo aos poucos. Senti a morte chegar, estava cada vez mais perto do meu corpo, do meu ser. Me senti pequena, amedrontada sem saber como seria o próximo passo. Toda vez que acordava pensava, será que já estou morta? Será aqui o céu? E me dava conta que não, que ainda estava naquele quarto, sobre aquela cama a qual me tornei prisioneira. E pensava que estava tendo mais algum tempo de vida!

Naquele dia pude apreciar da minha janela a chuva caindo, nunca olhei a chuva daquele modo, aquela chuva me trouxe alegria, me senti feliz ao poder olhar mais uma vez aquela chuva que caia do lado de fora.. não gostava muito de dias chuvosos, molhados, úmidos e com pouca luz, não era muito de tomar chuva!

Agora, ali deitada aquela água estava sendo como uma promessa de segundos a mais em minha vida, não sabia se aquela chuva seria a última que veria. E foi!

 

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