Boneca assombrada ( Texto em caipirês)

26 de Novembro de 2013 Mandruvachá Contos 1160

Assombração tem de todo tipe  -  acridite quem quisé.
A netinha da bisavó da minha muié conta que sua vizinha, Dasdor, nas vrespa da quaresma ganhô uma bunicrinha deferente que mais paricia ser gente. Coisa feita cas-tecnulugia da cidade
grande... De incabulá inté vigário. E só num era gente pruquê num rispirava  - 
isso munta gente falô:  -  Dasdore minha fiia, mai– num -é qui parece
ser de verldade!?  -  Ôtros condo inha chegano tapava a boca ca
–mão digalope, e dizia:  -  Fala nada não Dasdor, fala nada não... Ocê
arrumô mais minino, muié!? Causa disso ela zelava dessa
bunicrinha com capricho e cuidado. Ficava guardada nu arto da istante,
infeitano a sala... Dimanêra qui quem chegasse via, mais criança ninhuma
pegava. Toda veiz quéla dexava as minina brincá qüela, ficava pru di-perto
ispiano, pramode num dexá istragá. Cabano a brincadêra pegava e guardava no
mémo lugá. Já Bertulino, chefe da casa, homi das Dasdor, só oiava pr’éla prus
canto, discunfiado num incarava ela denduzói não... Num gostava da parecença
dela com gente não. Certo dia, Bertulino, que era
munto sistemático, notano as recramação da muié, qui disconfiô ditudocuntuá,
menos da bindita bunicriquinha, tratô de agi; Pois veneno pra rato e morreu
gambá, gato, pato, galinha, pur derradêro se foi inté o cachorro campêro;
Iscapô só as galinha chóca qui tava presa dibaxo do balaio  - 
den-du-pintêro. Terrêro limpo... Restô as criança, os dois véi e essa bunicrinha. 
Contudo a danação continuava amolano e fazeno os véi perdê noite de
sono.  Condo dava dinoitizinha as panilinha era distapada e pôsto têia de aranha, areia, cabelo nu mei das coisinha de cumê. Pirtubado cum- aquilo, Bertulino ficô mêis e mais mêis
tucaiano atrais da porta isperano o bicho aprontá, e nada; Inté que um dia
arresorveu deitá, mais propois de num drumí. 
Dispois dumas trêis hora qui tava deitado, isso berano a meia noite, nu
silênço profundo da viração, iscuitô um baruín vino da cuzinha, e era du fugão;
Mais qui dipressa ca- fuicinha na mão correu lá pra cunfirí a disordi. Num viu
nada. Mais a panilinha de arroiz foi distapada e tava quaiadinha de têia de
aranha. Imbrafustado e arripiado de medo ascendeu logo a lamparina e viu qui a
bunicrinha num tava na partilerinha, on-di-custume; Oiô tradaporta, den-da-caxa
de rôpa, e nada.  Correu no quarto e grito ca-muié:  - Venânça!!!
-  É a bunicrinha mês quitá infernizano nóis muié, corre cá –proce vê a
teia de aranha na panela de arroiz... e ela num tá na partilêra! A iscumungada
correu sem dexá rasto; Deve ter saído pru têiado, causdiquê as porta e jinela
ta tu- fechada. Venança garrô e levantô assustada,
e foi vê o acunticido. Ricibiada pisava dileve atrais du homi condo viu qui a
bunicrinha tava quietinhazinha no mémo lugá; Bertulino ainda mais incabulado, zói
regalado e língua colada no cér da boca seca, 
rispirava curto di –aperto... Oiô pr’ela com zói de morte, e falô ca
–muié:  Aqui dentro hoje eu num drumo
mais! Saiu pra fora e isperô o dia crariá. Inhantis dus minino acordá pra bebê
café e saí pa- iscola preparô um bambu cumprido cum gancho na ponta e fisgô o
piscucin dessa bunicrinha  -  cuns braço istigado  -  pr’ela ficá bem longe dele; 
Arrastô ela pa- bandifora apoiô ela dicacunda num pau de lenha e cumeu a
bunicrinha no machado... Na premêra machadada essa bunicrinha arrumô um
berrêro, danô chorá. O sujeito zói puro indoidô ca –quilo e cumeçô a corrê, deu
na na perna... Já a muié, qui aquirditava munto nele, veno ele na disparada,
dususperada, muchô atrais tamém; Nem minino lembrô socorrê... Ês num sabia.
Quem deu pur certo num avisô  -  ó nem sabia tamém  - 
quéssa bunicrinha tinha uma campanhinha na cacunda, e foi essa
campanhinha a disgramêra qui feiz êis corrê légua.  -  Inté
hoje os dois afirma quéssa bunicrinha era assombrada.

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