Pelos Canos

26 de Novembro de 2013 Crislambrecht Contos 852

Pelos Canos

 “Você é um homem ou um rato?”

Certa vez estava eu a rastejar pelos canos onde vivo, e uma indagação veio se repetindo de um lugar distante:

 - Você é um homem ou um rato?

Junto com a voz corria um roedor de lixo, em minha direção, e sem um motivo aparente, eu me assustei com a presença do bicho, que passou por baixo de mim e seguiu junto com o eco..co.

Geralmente esses animais que vivem aonde eu vim viver não estranham a minha presença, presença estranha eu sempre fui, onde sempre estive, pra quem quer que fosse, mas, e aqui?

O tempo que eu passei nos esgotos já foi suficiente pra me acostumar com muita coisa nova. Coisas de sempre...

As paredes cilíndricas e ásperas desses pequenos canos de concreto me fazem feridas que nunca cicatrizam; minhas mãos e meus joelhos, meus ombros e meus calcanhares, minha cabeça e meus pés, meus cotovelos e minhas costas...

De tanto me rastejar por aí já nem sinto dor; sinto fome, sinto cede, e sinto vontade de me rastejar.

Os ratos não se importam com quem você é, eles estão por aqui e quando precisam se tocam, me tocam... geralmente no momento de dividir o alimento, ou na hora de tentar de mim se alimentar. Ficar atento tanto quanto possível, se não eles me arrancam os olhos!

Eu moro aqui faz pouco tempo, não sei quanto, pois o tempo no esgoto não é como o resto dos tempos.

 Aprendi a sobreviver como os roedores de lixo, aprendi a roer lixo com os roedores de lixo. Como o tempo de quem fica atento o tempo todo parece passar mais rápido, eu passei a acreditar que estou há muito tempo vivendo aqui.

Vivendo entre ratos há tanto tempo, não me passava pela cabeça julgar quem sou eu.

Pois sempre fui ninguém.

Nunca fui alguém.

Lá de fora veio uma dúvida, direto pra dentro de mim, para agora saltar pra fora uma resposta.

Tenho medo da superfície, desde que vim morar no esgoto eu nunca mais fui discriminado; Sem juiz, não há julgamento, sem ter quem julgar, não há juiz nem julgamento, e se há juiz haverá julgamento.

Julgando que nunca fui alguém, que vivo como um rói-lixo, que somos o que consumimos:

Não sou homem

Não sou rato

Sou lixo.

Mas também

Não sou juiz

Devo ser o que sou;

Sou eu!

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