Surreal - Final

02 de Dezembro de 2013 Priscila Pereira Contos 960

  Estava parada olhando fixamente para a próxima porta. Sentia que
alguma coisa importante aconteceria, engoli em seco e tentei me acalmar.- Lyra, está pronta para entrar? Seth perguntou talvez notando o meu desconforto.- Estou.Seth abriu a porta e entrou, eu seguia-o de longe.- Hora de dormir... Disse ele num tom ameno e tranqüilizador.Olhei
em volta e vi meu quartinho de criança, exatamente como era há uns
quinze anos atrás; as lembranças me invadiram de novo, como era boa e
feliz aquela  época, meus pais vinham me cobrir e dizer boa noite...- Vamos, deite-se, você deve estar muito cansada.      Tirei a sapatilha e me deitei na caminha estreita, Seth me cobriu, me desejou boa noite e disse:- Agora  faça sua oração.Na mesma hora me lembrei de quando meus pais me ensinaram a orar...- É como falar com a gente, Deus é seu papai do céu, Ele está aqui, você não pode vê-lo, mas Ele pode te ouvir. E
eu fechava os olhos e conversava longamente com Deus, sobre o meu dia,
meus pedidos, minhas reclamações, meus problemas... Eu sempre senti que
Deus estava lá o tempo todo, sentado na minha cama me ouvindo; Algumas
vezes eu tinha tanta certeza que Ele estava lá que abria rapidamente os
olhos tentando surpreende-lo antes que ficasse invisível de novo...
Nunca fui rápida o bastante.     Olhei para Seth com lágrimas nos
olhos, pensando que fazia muito tempo que tinha perdido este hábito de
orar antes de dormir.- Você não tinha mais tempo nem disposição de
falar com Ele, mas Ele nunca deixou de vir todos os dias, sentar na sua
cama e observar você adormecer.Comecei a chorar copiosamente, rios
saiam de meus olhos, não conseguia me controlar, chorei como fazia muito
tempo não chorava, parecia que estava lavando minha alma.- Ele está aqui... aproveite e ponha em dia o tempo perdido.Seth
apagou a luz, saiu e fechou a porta. Eu fiquei ali no escuro, chorando e
tentando restaurar um relacionamento tão lindo que tinha deixado morrer
por falta de cultivo de minha parte, só agora via como tinha me feito
falta, estava disposta a fazer tudo para nunca mais esquecer o que era
importante pra mim.     No dia seguinte acordei com novas forças e
queria muito ver Seth e pedir para ele me mostrar à próxima porta.
Estava gostando dessa viagem de lembranças e recuperação de sentimentos
perdidos...Coloquei minha sapatilha e corri para uma penteadeira
rosa, com gavetinhas e um  espelhinho, como eu gostava dessa peça de
móvel... Agora estava atravancando ainda mais o nosso porão. Olhei no
espelhinho e arrumei um pouco meu cabelo, a garota do espelho agora me
era mais familiar, parecia mais jovem e leve, mas não parecia de todo
real... Ainda.     Seth bateu de leve na porta e entrou.- Vamos que já estamos atrasados...- Aonde vamos agora?- Vamos abrir a ultima porta, depois você  terá que voltar...- Voltar? Pra onde, a casa na floresta?- Não. Para sua vida, logo você entenderá.    Paramos em frente a ultima porta; eu estava ansiosa para descobrir o que encontraria lá dentro.Seth
abriu a porta e me fez entrar em uma saleta que continha só uma
escrivaninha, um vaso de flores sobre uma mesinha de canto e um sofá
debaixo de uma janela. Olhei interrogativamente para ele, e me apontou a
escrivaninha. Fui até lá e dei uma boa olhada, era exatamente como eu
sempre sonhei em ter um dia; cheia de compartimentos, um bom espaço para
escrever, porta papeis, lápis, gavetinhas e  olhando bem, vi um
compartimento quase secreto, meio escondido. Puxei a gaveta secreta e vi
meu diário, de quando era adolescente, cheio de nuvens na capa. Nessa
época eu estava fascinada pelas nuvens, não sei, acho que são coisas
inexplicáveis  da adolescência. Abri o diário e folheei distraidamente,
até chegar a uma página que me pareceu especial, comecei a ler:“
Hoje minha melhor amiga está indo morar em outro estado, estou muito
triste, gostaria que ela ficasse aqui para sempre comigo. Prometi que
nunca deixaria de escrever e de telefonar para ela...”Parei de ler,
nem me lembrava que amiga era essa, até que Seth me apontou as flores
sobre a mesinha de canto... rosas... Rosa, a cena toda me veio na
memória, comecei a sentir a dor daquele momento, olhando minha melhor
amiga, colocar as malas no carro, me dar um abraço apertado e dizer: “
Não se esqueça de mim.”  Mas eu esqueci.Rosa foi minha única amiga
de verdade, mas mesmo assim me esqueci dela, depois de um tempo as
cartas começaram a não ser mais esperadas com ansiedade e os telefonemas
se desencontravam; na vida de uma jovem universitária não sobra tempo
para amizades, fé ou imaginação, eu estava lutando para me tornar uma
adulta responsável, uma profissional de sucesso... Comecei a achar que
isso tudo agora não era o suficiente. Abracei aquele diário e senti um
enorme vazio no meu coração, vazio de amigos, de me importar com alguém,
de falar com Deus, de não viver tão preza a dura realidade.   Seth vem ao meu encontro, me abraça e diz:- Você está pronta para voltar...- Vou te ver de novo?- Basta você abrir os olhos...Abri
os olhos lentamente e olhei ao redor, estava deitada em uma cama dura e
desconfortável, fria, em um quarto estranho, parecia um hospital.
Estava com a boca seca e sentia dificuldade de engolir ou falar, logo a
porta se abre e entra um enfermeiro, com seu uniforme verde claro padrão
do hospital, olha pra mim e diz:- Você acordou!- O que aconteceu? Eu disse com muita dificuldade.- Você sofreu um acidente de carro e esteve em coma por vinte e três dias.Eu
estava confusa, real e surreal se misturavam em minha mente... Então a
floresta, Seth e tudo o que vivi lá foi só um sonho?  Pensando bem,
tinha sido uma lição que nunca mais iria esquecer. Hoje ia ser o começo
de uma vida nova.- Como se sente? Perguntou o enfermeiro chegando
perto de mim o suficiente para poder olhar seus lindos olhos verdes e
seu cabelo vermelho como fogo...- Muito bem, agora.... Você está me parecendo familiar...- Fiquei todos os dias, algumas horas te fazendo companhia.Você sabia que faz bem conversar com pacientes em coma?


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