Luana estava sozinha em casa quando ouviu passos vindos do sótão. Gritou pelos pais, mas eles não haviam chegado ainda. A garota achou muito estranho e ficou um pouco amedrontada, mas ela era muito curiosa e decidiu verificar o que estava acontecendo. A escada para o sótão ficava no fim do corredor e a cada passo que Luana dava o barulho aumentava. Subiu as escadas com o coração acelerado e levou sua mão à maçaneta. Naquele momento o barulho cessou completamente.
Luana ficou na porta durante alguns segundos e se virou para descer a escada de volta. Quando tinha descido uns dois degraus o barulho recomeçou. Ela olhou na direção da porta um tanto assustada, mas estava muito curiosa. Voltou para lá e de novo, ao tocá-la, o barulho lá dentro cessou. A garota abriu a porta apreensiva, mas após uma rápida olhada notou que nada estava fora do lugar. Exceto um baú. Ele era delicado e pequeno, e ela nunca tinha visto ele ali. Devia ser coisa dos antigos moradores. O sótão estava cheio de coisas deles.
Luana se aproximou do pequeno baú e se sentou no chão. Trouxe a pequena caixinha até seu colo e enquanto seus dedos caminhavam para a pequenina fechadura, Luana não percebeu que a porta do sótão se fechava silenciosamente. Os dedos dela pareciam querer abrir a caixa com rapidez, pois em poucos segundos a tranca do baú estava aberta. O coração da garota batia acelerado enquanto ela levantava a tampa da caixinha lentamente. A porta bateu estrondosamente quando Luana abriu totalmente o baú, sobressaltando a garota. Recuperada do susto, Luana olhou para dentro daquele pequeno bauzinho. Lá, debaixo de um cobertor de bebê estava uma boneca. Não era uma boneca comum, nada parecido com o que Luana já havia visto na vida.
A boneca parecia quase viva, seu rosto era perfeito, a sua pele parecia humana e seus olhos eram de um negro profundo, sua boca coberta com batom vermelho que parecia ter acabado de ser aplicado. Luana não conseguia parar de olhar para a boneca. Resolveu levá-la para seu quarto. Levaria o bauzinho também, daria uma ótima caixinha de maquiagem. Colocou a boneca e seu novo baú na prateleira e resolveu ir dormir. Tudo estava calmo agora, o barulho no sótão havia cessado e em breve seus pais chegariam, ela estava segura.
Eram mais de três da manhã quando Luana acordou assustada com uma risada fria que acabara de ecoar pela casa. Ela estava sonhando? Acendeu o abajur e deu uma olhada em seu quarto. Sua nova boneca estava caída no chão. Luana se levantou e a colocou no lugar de volta. Depois voltou para sua cama e tentou dormir, o que não foi nada fácil, parecia ser observada. Dormiu com o abajur ligado naquela noite. Ao acordar notou que sua boneca não estava novamente na prateleira e ao colocar o pé no chão notou algo frio. Olhou para baixo com medo, sua boneca estava ali, do lado de sua cama. Luana a pegou e arrumando seu cabelo a colocou de volta na prateleira.
— Como você foi parar lá hein?
Com o passar das horas ela tirou aquilo da cabeça, talvez a boneca tivesse caído e rolado até sua cama. Os dias se passavam normais, o único problema era a noite. Luana continuava com a sensação de ser observada e toda manhã encontrava a boneca ao lado da sua cama. Um dia, estressada por toda essa repetição Luana pegou a boneca antes de dormir e a colocou dentro do baú. Dormiu tranquila a noite toda, embora pudesse jurar ter ouvido um barulho abafado vindo de dentro da caixinha. Acordou mais calma no dia seguinte, mas se assustou ao levantar a cabeça do travesseiro. A boneca estava sentada no pé de sua cama e o baú estava aberto na prateleira. Pegou a boneca, a colocou dentro do baú e a jogou no lixo. Aquilo estava deixando ela louca. O dia se passou super normal, nada de estranho aconteceu e Luana suspirou aliviada quando viu que o caminhão de lixo havia passado e levado a boneca embora.
A noite veio e Luana estava completamente tranquila. A boneca a havia deixado sem sono durante algum tempo. Nenhum barulho, nenhuma sensação de ser observada durante a noite. Aquilo tudo tinha acabado. A garota mal sabia o que estava por vir. Quando acordou no dia seguinte, Luana quase caiu da cama. A boneca estava lá, sentada no pé de sua cama, como se nada tivesse acontecido. Não havia como se livrar daquilo. Luana, desesperada, tentou tudo que podia, colocou fogo na boneca, tentou quebrá-la com um martelo e misteriosamente ela reaparecia cada vez mais bonita. A mãe da garota começou a ficar preocupada com as atitudes dela, então resolveu guardar a boneca por um tempo.
Uma semana se passou após isso e Luana tinha sua vida de volta. Um dia, chegando da escola, Luana ouviu sua mãe falando com alguém, mas não era hora de seu pai estar em casa ainda.
— Mãe? – Nenhuma resposta.
Luana se assustou ao entrar na cozinha. Sua mãe estava sentada sobre o corpo de seu pai que parecia morto. A garota, depois do susto inicial, olhou direito para o que estava acontecendo. Sua mãe estava dando pedaços do corpo de seu pai para a boneca comer.
Luana não conseguia mais ficar ali. Saiu correndo para a rua enquanto sua mãe a gritava. Não conseguia parar de pensar no que acabara de ver e nem percebeu que um carro vinha em sua direção em alta velocidade. O carro parou a centímetros dela e só então ela percebeu o que estava acontecendo. O motorista desceu do carro e perguntou se estava tudo bem, se oferecendo para levá-la para casa. Luana aceitou, sem perceber realmente o que estava fazendo, deu o endereço sem notar, pois estava em choque. Quando percebeu que estava chegando à sua casa, a garota começou a gritar e pedir para sair dali. O motorista sem entender nada perguntou o que estava acontecendo e quando Luana contou, ele achou que a menina estava louca. Resolveu ir até a casa da garota, afinal, ele era um médico psiquiatra e gostaria de saber o que estava acontecendo naquela casa.
Ao chegar na porta a garota começou a espernear, a se debater, implorando para ser levada dali. Não restava outra alternativa a não ser interná-la por um tempo. O médico ligou para uma ambulância e a garota foi levada direto para um sanatório. Ao bater à porta da casa da garota, os pais dela atenderam e não demonstraram nenhum sinal de pena ou vontade de tirá-la do hospício.
Uma semana depois de dar entrada no sanatório, Luana já estava se sentindo melhor, nada mais a incomodava. Até que certo dia, um embrulho foi deixado em seu quarto. A garota achou que poderia ser algum presente da mãe, então correu alegremente até o embrulho. Ao abri-lo levou um choque: a boneca, sua boneca estava lá dentro, mais humana do que naturalmente. Luana tentou gritar, mas sua voz não saía. Não havia escolha, a boneca jamais a deixaria.




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