Gritos apavorados foram ouvidos de longe, a mulher largou o cesto de palha escura e trabalhada que trazia junto à barriga e agarrou as mãos das meninas que a acompanhavam. Eram jovens, a maior tinha sete anos, os cabelos escuros estavam presos em uma trança mal feita que quase se desfazia, os olhos castanhos pareciam assustados. A menor tinha apenas três anos, a mão que a mãe não segurava ela levava junto à boca, tinha os dedos sujos, mas parecia não se importar em mantê-los daquela maneira, esta tinha os olhos verdes e lágrimas caiam deles. Correndo, a mulher puxava com força seus braços, e aos tropeços as meninas tentavam acompanhá-la.Chegaram a um grande vale, de vegetação baixa, longe podiam ver a pequena fazenda, que nunca parecera tão distante. Uma nuvem enorme de fumaça formava-se acima da construção.- Rápido! – A mulher gritou desesperada, forçando os braços das crianças.Dispararam e ao chegarem viram o que antes era sua casa desfazer-se em cinzas, e tornar-se o que agora não podiam mais chamar de lar.- Pai! – A menina mais velha gritou enquanto soltava a mão da mãe.- Finn, espere! – A mulher correr até ela e agarrou seu dorso como que em um abraço. – Já é tarde querida. – O rosto foi banhado pelas lágrimas.- Mama... O que houve? – a menor perguntou, agarrando-se a saia do vestido da mãe.- Nada querida. Não houve nada! – Agarrou carinhosamente a cabeça da menina e encostou-a no peito. – Vai ficar tudo bem.O tempo passou até que todo o fogo dissipasse, sentadas junto a uma grande pedra um pouco distante do local, choravam desoladas. Já havia anoitecido e o frio começava a incomodá-las.- Vamos. Morreremos de frio se passarmos a noite aqui. – A mulher falou limpando o rosto.- Eu não quero ir lá, mãe. – Finn falou puxando a mulher pelo braço.- Finn, nós precisamos querida. Vai ficar tudo bem, eu prometo! – Ela sorriu amorosamente para as garotas, pegou suas mãos e as beijou. – Vamos.Devagar se aproximaram dos escombros. Já não restava nada inteiro.- Mama, onde esta o pa? – A pequena perguntou com ar tristonho.- Ele esta bem querida, não se preocupe. Finn, fique aqui com ela. Vou procurar por alguma coisa, talvez eu consiga salvar algo.- Esta bem. – Falou pegando, com muito esforço, a irmã em seu colo. – Não te preocupes... O pai esta bem, ele é forte, e o teu irmão também. Eu sei que eles estão bem.A mulher caminhou até a casa e vasculhou as ruínas, nada encontrou. Andou então alguns metros à frente, até uma grande árvore que se erguia nos limites da propriedade, era um enorme carvalho de no mínimo cem anos. Um forte cheiro emanava dali, em silencio, aos poucos se aproximou. Algo pendia do tronco, seus olhos encheram-se de lágrimas e ao constatar ser o que temia, gritou.- Mãe! – Finn colocou a irmã no chão. – Liv, fique aqui! Não saias daqui, esta bem?- Não, eu não quero ficar sozinha! – Ela começou a chorar.- Eu vou voltar não te preocupes, mas espere aqui, por favor. – Ela não esperou que a irmã respondesse. Saiu correndo seguindo os gritos de dor de sua mãe. – Mãe! – Ela gritou novamente ao encontrá-la jogada no chão, chorando.- Por que não esta com a tua irmã? – A mãe gritou.- Ouvi você gritando.- Volte! – Ela falou soluçando.- Não. O que... – Por um segundo seus olhos desviaram-se da mãe e observaram a árvore que brotava à sua frente. – Pa-pai. Meu irmão! – Ela gritou. – Mãe, o que esta acontecendo?- Eu não sei querida... Não sei.