Vento de Outono

09 de Dezembro de 2013 Elisangela A Silva Contos 889

O vento frio de outono que tocava sua face fazia-o lembrar de que uma nova estação iniciava seu trabalho sobre a cidade, fazia-o lembrar de que o tempo parecia voar ou simplesmente desaparecer enquanto mantinha sua mente ocupada com pensamentos e medos inúteis e principalmente fazia-o lembrar de promessas que se propusera a cumprir diversas estações atrás. Mas estava decidido: este outono seria diferente.

Com tal ímpeto pegou o telefone no criado-mudo e quase automaticamente digitou aquele número que sabia de cor, mas antes de realizar a chamada, o medo - ah aquele mesmo estúpido e incontrolável medo - tomou conta de seu corpo, impedindo-o de apertar um simples botão e fazendo-o desabar imóvel e desolado sobre a cama.

Apesar de sua inércia a lembrança do que percebera alguns instantes antes fez com que uma épica batalha começasse dentro dele: sua mente e seu coração gladiavam com o intuito de decidir quem tomaria as decisões a partir dali. Uma torrente das possíveis consequências daquela ligação inundou sua mente, provando que ele tinha mil e três motivos racionais para desistir daquela ideia. Mas seu impulsivo e teimoso coração começou a bater forte, quase que implorando para estar ao lado dela. Decidiu fechar os olhos para ouvir melhor os gritos que ecoavam em seu interior.

Abriu-os decidido a escolher aquele que sempre era deixado de lado. Sem hesitar, iniciou a chamada, e começou a sentir seu corpo estremecer e seu pulso acelerar a cada toque do telefone. Por um instante tudo parou:

- Alô – disse uma doce e serena voz.

Nesse instante percebeu de que havia esquecido o mais importante: o que iria dizer? Como um pequeno animal afugentado pelo som do perigo, sua coragem(que geralmente não era muito grande)abandonou-o ao ouvir aquela simples palavra dita da mais majestosa forma.

- Tem alguém aí? – perguntou ela com uma voz sorridente, imaginando ser apenas uma brincadeira, daquele que conhecia tão bem.

Na ausência de uma resposta ou mesmo de qualquer som, a não ser o de uma ofegante respiração, perguntou preocupada:

- Erick está tudo bem?

- Claro – disse com uma voz tão nervosa e embaraçada, que quase não foi capaz de reconhecê-la.

Pigarreou uma, duas, três vezes, enquanto ganhava tempo para se recompor. Foi quando ouviu uma tímida risada do outro lado da linha e imediatamente pôde visualizar o seu sorriso, que trouxe sua coragem de volta. Depois de um suspiro disse:

- Está tudo ótimo, e com você?

- Tudo bem – disse ainda mais sorridente. Acabei de chegar do hospital – olhou para o seu relógio e disse para si mesma – acho que acabei estendendo um pouco meu plantão.

- Precisamos conversar – disse com tanta naturalidade que até se assustou com a coragem que a imagem de um sorriso lhe dera.

- Ótimo, podemos nos encontrar naquele barzinho na esquina da sua casa em 40 minutos?

- Melhor não – parou para mais um suspiro – preciso que venha até o meu apartamento, tenho que te dizer uma coisa.

- Erick… - começou a dizer temerosa, mas foi interrompida por uma súplica.

- Por favor, não faça perguntas, apenas venha, necessito te ver.

- Está bem – concordou, já que não tinha outra saída - vou tomar um banho e me trocar, logo estarei aí.

Espantado e ao mesmo tempo energizado com o que havia acabado de realizar, arrumou-se depressa, banhando-se ao final com o perfume que sabia que ela adorava. Em seguida dirigiu-se para a sala, onde ficou esperando-a enquanto observava um porta-retratos sobre a mesa-de-centro. Nele a sua foto favorita em que sua bela e delicada face portava um escancarado (mas não menos gracioso) sorriso, enquanto ele a abraçava alegremente, deixando claro o quanto adorava tê-la em seus braços.

Queria isso novamente, estava louco para vê-la chegar. Quando decidiu ver as horas, a campainha tocou.

- Pontual como sempre – pensou quando olhou para o relógio.

Levantou-se e sequer conferiu de quem se tratava antes de decidir escancarar a porta. Sabia que era ela, sentia sua presença e até mesmo seu perfume envolvendo-o (ou mesmo hipnotizando-o).

 Perdeu uma eternidade momentânea admirando sua face: aqueles lindos olhos verde-esmeralda que mais pareciam os de uma menina curiosa do que os de uma mulher tão forte e decidida; aquela pele tão macia (sim lembrava-se perfeitamente das ocasiões em que tivera a oportunidade de tocá-la) e que se encontrava deliciosamente perfumada; aqueles lábios delicados e levemente tingidos que deixaram mostrar o mais belo sorriso instantes antes de dizer:

- Olá, vim o mais rápido que pude, espero não tê-lo feito esperar muito.

“Esperaria a vida toda por você”, pensou em dizer, como sempre, mas sua boca automaticamente decidiu, por si mesma, responder apenas:

- Nada disso, nem vi o tempo passar. Entre, sente-se e fique à vontade, voltarei em um minuto.

Correu para o banheiro com a ideia de perdê-la para sempre inundando sua mente. Molhou o rosto, como se sentisse que isso seria suficiente para acordar sua tímida coragem e espantar os maus pensamentos. Suspirou o mais fundo que pôde,  olhou para o espelho e decididamente disse:

- Chega de mentiras, é hora de abrir o jogo!

Quando voltou percebeu que ela mantinha o olhar fixo em uma de suas maiores preciosidades:

- Essa foto foi tirada na minha festa surpresa – disse segurando carinhosamente o porta-retratos entre as mãos – Isso faz uns dois anos?

- Na verdade faz três anos cinco meses e dezessete dias – respondeu automaticamente, já que costumava passar muito tempo pensando a respeito dela.

- Nossa, ela é maravilhosa – respondeu sorridente e admirada enquanto depositava-a lentamente sobre a mesa.

Voltou-se para ele lançando um olhar preocupado ao perguntar:

- E então o que deseja me contar?

Enquanto as palavras iam se organizando em sua mente ele se aproximou. Sentou-se bem ao seu lado, aninhou as mãos dela entre as suas e disse olhando quase que dentro de sua alma:

- Preciso revelar algo que guardo comigo há muito tempo.

- Sobre o quê?

- Sobre nós.

Antes que algo mais pudesse ser dito, ela levou uma de suas mãos levemente sobre os lábios de Erick, pedindo, sem palavras, para que ele não dissesse mais nada, como se aquilo bastasse para a compreensão de tudo o que ele desejava dizer.

- Entendi – disse apenas, com uma voz cheia de desejo e um olhar que ela jamais havia lançado sobre ele.

Começou a se aproximar vagarosamente (quase em câmera-lenta), tocou seu rosto, com mãos geladas, e continuo a inclinar-se sobre ele aproximando sua boca cada vez mais. Quando a viu fechar os olhos e vagarosamente umedecer os lábios, aceitou o seu convite e a acompanhou.

Imaginava que deveria sentir calor com a proximidade de realizar seu maior desejo, mas tudo o que sentia era frio, estava nervoso evidentemente, talvez essa fosse a resposta de tudo. Quando sentiu o toque de seus lábios um frio intenso tomou conta do seu corpo.

Imediatamente  sentiu-se tragado para longe dela e de tudo o que havia alcançado. Abriu rapidamente os olhos e decepcionado se viu em seu quarto, deitado sobre a cama com o telefone ainda nas mãos. Já havia anoitecido e como a janela havia ficado aberta o frio invadiu o cômodo e por ali se instalou.

Levantou-se decidido a fechar a janela e se aquecer, mas desistiu antes mesmo de caminhar. Sentou-se desolado aos pés da cama, não somente por perceber que a coragem só o acompanhava em seus sonhos e que somente neles teria seu amor correspondido, mas também por descobrir que o beijo recebido de sua musa não era nada além do gélido vento de outono.

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