Estava sentado no topo da torre mais alta do edifício. Uma igreja em estilo gótico, que se erguia bem no centro da cidade. Frequentemente o fazia. Costumava dizer que era o único lugar onde os problemas não conseguiam alcançá-lo. Lá não ouvia as vozes estrondosas da população, sempre apressada, nem os rostos de onde sempre brotavam olhares tortos. Gostava do lugar, principalmente há noite – como agora – quando os pássaros dormem, e a Lua ilumina a noite nuviosa e fria. Ele gostava da sensação. O vento, o silencio, o isolamento... Quando ali estava, pensava no que os outros pensavam. Refletia sobre uma mulher muito bonita que lá em baixo, do outro lado da rua, passava todos os dias. Questionava-se “para onde vai?”. Observava o velho que parecia gritar algo ao pé da igreja. Assistia o jovem dono da livraria em frente à construção fechar a loja pontualmente todas as noites. E testemunhava uma criança puxar o casaco da mãe como que pedindo por alguma coisa. Era tão bom esta ali. Só naquele lugar ele se sentia completo, só ali conseguia se sentir uma pequena parte daquele mundo, que lá parecia menos caótico.