O Vale das borboletas

13 de Dezembro de 2013 Priscila Pereira Contos 1050

  Era um dia chuvoso e escuro, relâmpagos e trovões ecoavam pelo
quarto. Kelly fechou a janela com força, não queria que sua cama ficasse
molhada, olhou ao redor do quarto e sentiu-se entediada. Nada para
fazer nesse dia triste e sem graça, estava sozinha em casa, sua mãe e
seu irmão tinham saído e demorariam a chegar, por causa da chuva estava
sem internet, para piorar ainda mais a situação. Não tinha nenhum livro
para ler, só sua gata lhe fazia companhia.     Deitou-se na cama,
pegou a gata e começou a acariciá-la, olhou para o teto e viu uma
borboleta, detestava borboletas, não sabia porquê. Simplesmente tinha
pavor daquele bichinho voador, cheio de pelinhos no corpo, com patinhas
estranhas e olhinhos feios em uma cabeça esquisita, nem prestava atenção
à beleza das asas de tanto medo que tinha do resto todo.     Não
tirava os olhos da borboleta, estava hipnotizada, suas cores eram
diferentes, não combinavam e eram berrantes. O quarto começou a girar,
Kelly estava tonta e confusa. Quando tudo parou de girar, ela percebeu
que não estava mais em seu quarto, olhou em redor preocupada e viu que
sua gata estava lá com ela, seja lá onde fosse aquilo, o ambiente era
como de um sonho, ela parecia flutuar em nuvens, mas estava no chão,
aparentemente em um vale, com grama baixinha, muitas flores, de todas as
cores e formatos, algumas árvores de um verde brilhante, o sol era de
um tom quase rosado e seu calor era reconfortante.     - Lindo lugar não é?     - Quem está falando?     - Sou eu, olhe para baixo.     - Pretinha? Você está... falando?- Disse incrédula, olhando sua gata que calmamente conversava com ela.     -Sempre falei, você que não me ouvia.     - Estou sonhando?     - Como posso saber? Venha, aproveite. Disse correndo para a multidão de flores. 
   Horrorizada, Kelly vê que não são flores, e sim borboletas, milhares
delas, Pretinha ao correr para o meio delas assustou-as e fez levantar
uma revoada de todos os tipos e formas de borboletas. Queria sair
correndo, se esconder, mas não podia sair do lugar, estava paralisada,
em estado de choque. Fechou os olhos e tampou o rosto com as mãos.     -Pode olhar agora, elas já se foram. Disse uma voz masculina, muito calma e tranquilizadora. 
   Kelly abriu lentamente os olhos e deparou-se com um rapaz belíssimo,
moreno, com intensos olhos azuis, cabelo preto curtinho e espetado.
Ficou fascinada. Ele estendeu sua mão e Kelly segurou, timidamente.     - Onde eu estou?     - No Vale das Borboletas.     - E como eu vim parar aqui? Estava em meu quarto...     - Você deve ter olhado para Liryel, ela traz para cá todos que enfeitiça.     - E quem é essa?     - É a fada mãe.     - Não entendo nada, não existem fadas...     - Sei que é difícil entender Kelly, não tente com a razão e sim com a imaginação.     Kelly olhava para o rapaz e cada vez mais confusa ia ficando, olhou em volta e viu Pretinha correndo e pulando.     - Quem é você afinal? 
   - Sou Luan. - Disse ele com um lindo sorriso, de suas costas
começaram a abrir lindas asas de borboleta, azuis como os seus olhos. 
   Kelly não acreditava no que estava vendo, ele era uma fada, ou uma
borboleta? Parou de tentar entender e usou a imaginação. Olhou novamente
ao redor e percebeu que Pretinha brincava e conversava com uma pequena
borboleta, não como as de sua casa, mas como Luan, corpo humano e asas
lindas.     - Só posso estar sonhando...     - Você vai ficar parada aí só vendo ou quer aproveitar que está  aqui?     - Como assim? 
   Luan pegou Kelly no colo e levantou vôo. Voaram por um campo cheio
de borboletas, que brincavam, outras descansavam sobre flores e folhas,
todas pequeninas e sorridentes. Kelly nunca tinha se sentido tão livre e
tão bem, voaram sobre riachos, florestas, campinas, tudo banhado com
aquele tom róseo do sol poente.     Quando voltaram para onde tinham deixado a Pretinha, já estava escurecendo.     - Está na hora de vocês duas voltarem para casa.     - Mas já? - Perguntou Kelly     - Estou me divertindo tanto aqui. – Disse Pretinha     - Eu também...     - Mas já está escurecendo, logo Liryel estará de volta, e vocês nunca mais poderão voltar para casa.     Luan olhou bem para Kelly e disse: 
   - Espero que tenha perdido seu medo de borboletas, - e pegando
suavemente em sua mão continuou -, espero poder te ver novamente.     - Também espero te ver em breve.     - Vamos Kelly, já estou com fome. – Disse Pretinha colocando as unhinhas afiadas na perna de Kelly.     Luan soprou um pó brilhante e tudo começou a rodar novamente. 
   Kelly abre os olhos devagar, está em sua cama, com Pretinha no colo,
dormindo profundamente, será que foi só um sonho? Parecia tão real!
Olhou para o teto esperando ver ainda a borboleta com cores estranhas.
Não estava mais lá.     Levantou-se da cama lentamente para não
acordar Pretinha e foi abrir a janela, a chuva tinha parado e o ar
estava úmido e limpo, o céu estava cheio de estrelas, olhou no peitoril
de sua janela, lá estava uma borboleta, azul como os olhos de Luan.
Lembrou-se do que ele tinha dito: Use a imaginação e não a razão. Deu um
sorriso enigmático e deixou a janela aberta, queria que Luan se
sentisse bem vindo.


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