O deserto de Kamo

13 de Dezembro de 2013 Priscila Pereira Contos 923

    Kamo olhou ao redor e percebeu que estava só. Ventava muito no vale
de Endorf, suas roupas enchiam-se de areia, protegeu o rosto com a capa
que sempre trazia consigo, tinha se perdido do grupo de vingadores. 
   Viajavam em um grupo de seis pessoas, todos vingadores, tinham um
objetivo em comum, mas cada um sua própria tarefa específica. Ela não
precisava deles para executar sua tarefa, na verdade, ficava melhor sem
eles, não se sentia a vontade no grupo, não era como eles, todos
oportunistas  cruéis, ela não, ela só queria justiça.     O vale de
Endorf era um deserto muito perigoso, com tempestades de areia e sol
escaldante, Kamo precisava encontrar a passagem antes do por do sol,
senão estaria perdida, pegou sua garrafa com água e bebeu alguns goles.
Estava cansada e deprimida, essa não era a vida que queria ter, e essa
seria sua ultima tarefa antes de voltar para casa e se livrar de uma vez
por todas dos vingadores.     Outra rajada de vento fez com que se
agachasse e cobrisse toda a cabeça com a capa, parecia que não acabaria
aquela ventania, depois de incontáveis minutos a calmaria voltou. Olhou
em volta e viu que a ventania tinha descoberto um pedaço da porta
subterrânea que levava para a passagem, nunca teria descoberto se não
fossem as tempestades de areia.     Tentou abrir a porta, mas
percebeu que era muito pesada, tirou seu sabre  e apoiou com força,
fazendo a porta ceder um centímetro por vez, ela nunca deixava de levar
seu sabre de prata por onde quer que fosse, era sempre útil. Uma
escadaria de pedra entrevia-se pela porta meio aberta, Kamo esgueirou-se
pela pequena abertura e desceu até um pátio parcamente iluminado.   
 Acendeu um isqueiro de vidro, que como todas as suas coisas, era de
muito valor, mais sentimental do que monetário. Ateou fogo em uma tocha
que estava na parede mais próxima e pode ver que estava no lugar certo. A
passagem, como os antigos chamavam, era o portal entre os dois mundos,
estava esquecida por gerações, Kamo nem sabia se era real, tiraria a
prova agora.     Foi andando até chegar a um poço, que parecia muito
fundo, a água era multicolorida e parecia viva, sabia pelas lendas que o
único jeito passar para “o outro mundo” como era conhecido, era
mergulhando nas águas do poço. Olhava quase hipnotizada para as águas do
poço, engoliu em seco e sem pensar apertou mais a capa no corpo,
protegeu seu sabre, passou sua mochila de viajem para a  frente do corpo
e se jogou no poço.     Não sabia explicar a sensação que tinha ao
ser sugada pelas águas, em um redemoinho, não conseguia respirar,
perguntava-se se chegaria viva.Foi jogada em uma praia, seus olhos
ardiam e sua visão estava embaçada, quando conseguiu se recuperar um
pouco olhou ao redor e não acreditou em seus olhos, acostumada ao
deserto, não fazia ideia de como era linda a vegetação abundante,
parecia mesmo um outro mundo. Levantou, organizou suas coisas, viu se
não faltava nada e prendeu bem seu longo cabelo, bagunçado pela viajem
no poço.     Pensou no que faria a seguir, olhou mais uma vez em
volta e avistou ao longe em meio à mata fechada, o que parecia ser a
sombra de um castelo. Enfim havia chegado ao seu destino, O castelo de
Jade, estava escurecendo e não podia divisar mais do que sua sombra, mas
só isso já era o suficiente para lhe causar uma aflição estranha.   
 Não havia tempo a perder, improvisou uma tocha com gravetos, pedaços
de pano embebidos em querosene e acendeu-os com seu  isqueiro.  O fogo
além de iluminar a noite que chegava ainda espantaria possíveis animais
selvagens. Não sabia o que esperar nesse outro mundo, esperava estar
preparada para tudo.     Caminhou por entre a mata com a tocha
acessa, sentia que vultos passavam ao seu redor, não sabia exatamente o
que eram, pressentiu que não eram amigáveis, com muita dificuldade
conseguiu avistar uma trilha que aparentemente levaria ao castelo.
Seguiu por ela e a medida que se aproximava, mais escura ficava a noite
sem lua, tudo ao seu redor era escuridão e pavor,  pela primeira vez em
muitos anos sentiu medo.Não poderia falhar. Tinha que conseguir voltar
para casa.     Chegou ao portão que era todo de bronze que reluzia
por causa do fogo, tentou abrir  e conseguiu sem dificuldade. Seguiu por
uma trilha de pedras brancas ladeadas por enormes estátuas de mármore
branco, retratavam horríveis criaturas com asas e dentes pontiagudos.
Conhecia essas criaturas de seus sonhos, tinha pesadelos horríveis com
elas, imaginou que a batalha a seguir seria pior do que imaginara.   
 Chegou até uma porta enorme, notou que o castelo era todo verde, a
porta era de jade puro, brilhava ao reflexo do fogo. Era agora ou nunca,
respirou fundo, segurou firme seu sabre de prata e bateu com firmeza na
enorme porta de jade. Lentamente a porta se abre, seu coração dispara,
sua boca fica seca, está preparada para uma batalha sangrenta, mas o que
vê amolece seu coração e arranca um sorriso de seus lábios, um gato se
esfrega na porta aberta, senta ereto e olha diretamente para ela.
“Estava te esperando” pensa o gato, ela abismada por poder entender os
pensamentos do felino, pensa:  “ quem é você e porque estou te
entendendo?” , “Olhe bem para mim, você já esteve aqui antes, não se
lembra?” , Kamo se esforça para lembrar, olha profundamente para os
olhos do gato. Uma faísca se acende em sua mente, que traz um incêndio
de lembranças: uma família feliz, um gato amado, uma casa longe do vale
de Endorf, amigos... Parecia uma lembrança muito distante, como de outra
vida.     -Billy! Disse correndo e abraçando o gato tão conhecido e amado.     -Como pude me esquecer de você? 
   “Você estava amargurada demais, se prendeu ao deserto, esqueceu sua
vida, quem realmente se importava com você, se uniu aos vingadores
achando que ia mudar o Vale de Endorf, mas o que mudou foi o seu
coração. Você deixou de ser aquela moça que acreditava na vida e passou a
tentar fazer justiça com suas próprias mãos. Se perdeu em seu caminho e
seu coração virou um deserto, o que você não sabe é que cumpriu sua
ultima tarefa a anos e andou vagando pelo deserto que tanto detesta
podendo voltar para casa quando quisesse. Mas enfim você voltou. Seja
bem vinda.” Ainda segurando o gato apertado no colo, ela chorava
lágrimas de alegria, seu coração ia se tornado de novo em um oásis, sua
alma estava sendo liberta das garras do monstro que a aprisionava a
anos, a insensibilidade.     Fechou os olhos e pensou em tudo o que
tinha e perdeu, os anos que se passaram, chorava cada vez mais, e isso
lhe trazia cura. Abriu os olhos e estava em casa, sua casa, que
procurara por anos a fio, ainda segurava Billy nos braços, que ronronava
para ela, acariciou mais uma vez o bichano e foi se encontrar com sua
família e amigos que não via a muito tempo.


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