Que odor diabólico, que cheiro era aquele que mesmo a quilômetros de distancia era possível sentir? Que cheiro insuportável, que cheiro de desespero. A fumaça escura borrava o céu da tarde formando figuras enigmáticas na vermelhidão do por do sol. Que cheiro de desespero, digo assim sem nenhum exagero. E aquele cheiro invadia a cidade.


 O crematório era o causador de tanto repúdio, anos sem funcionar e agora voltara a funcionar como se nunca tivesse sido interrompido.  Recortado contra o céu sinistro, sustentado por bolor, rachaduras e que há anos servira de lar para animais noturnos, roedores e corvos invadiram o local.

Porém seu funcionamento diário era preocupante, não havia tantos corpos na cidade para que fossem cremados, afinal, nem todo mundo quer ser cremado, particularmente a maioria prefere virar comida para germes abaixo de sete palmos de terra molhada a ser cremado.  Então de onde vinha tanto luto? Perguntas que não são respondidas, curiosidade que te atormenta e medo que te desampara.


 Porque a curiosidade sempre vai vencer a prudência. E aquele valente policial foi averiguar por conta própria, tão tolo, tão ingênuo. Fazia-se de tão durão, se fazia de herói, mas tinha apenas trinta anos, recém-casado com uma vida toda pela frente, mas o mistério do crematório era importante para manter seu nome no auge, afinal ele era um dos policiais mais temidos da cidade de interior. 


  Agora, mais do que nunca, a cidade precisava de seus serviços. Outros policiais já haviam averiguado o crematório, porém não encontraram nada além do pó de óbito. Mas algo na sua mente o levava para dentro daquele lugar, ele sabia que algo não estava certo.


  A noite havia chegado majestosa, assim como a lua clara e amarelada, aquele homem saiu do serviço e partiu para o endereço do crematório. Ele fora construído bem ao lado de um cemitério, altas criptas e figuras enigmáticas sobre túmulos de pedras. Um clima luciférico e de ruínas, capaz de provocar calafrios. 


 Seguido por sua sombra o policial adentrava a misteriosa construção, o cheiro de morte era quase insuportável e a comunhão do lugar era intensa e maligna. O portão rangeu ligeiramente em suas ferrugens, como se não quisesse receber visitas.  À medida que dava os primeiros passos, ratos de baratas abriam caminho na escuridão. Aquele maldito cheiro estava impregnado nas suas narinas.  Logo estava em um longo corredor que dava para o um salão oval, poder-se-ia dizer que era um necrotério, se não fosse a troca de congeladores por fornalhas. 


  Um dos fornos estava ligado e bem a sua frente havia uma silhueta de alguém sentado. Era alguém enorme, sentado em uma cadeira antiga de costas. O policial instintivamente sacou sua arma e gritou para que aquele homem levantasse e colocasse as mãos na cabeça. Algo soprava em seus ouvidos sobre sua voz interior, de sempre saber que havia algo de errado no crematório, porém
nunca em sua carreira havia sentido medo, aquele ambiente fúnebre estava o deixando amedrontado e sem chão. 


  -Sou cidadão como você! –resmungou o homem.


 -Mãos na cabeça, por favor! –Repetiu o policial tentando manter sua voz firme.


-Eu trabalhava e pagava meus impostos e tudo o que recebi em troca foi ter minha família em chamas! – Continuou resmungando.


  -Vire-se devagar e vamos conversar! –Gritou o policial.


 -Por que mataram minha família? Eu devia para eles, mas eu ia pagar, não tinha conseguido o dinheiro em tempo!  -Continuava o homem que parecia falar mais para si que para o policial.


  Então devagar aquele sujeito se virou para o policial que se assustou. Seu rosto estava deformado, evidente que fora queimado, uma parte do seu corpo estava mirrada. Que figura horripilante e familiar. Era o leiteiro. O policial conhecia sua história, ele devia para uma agiota e não pagou, o resultado foi ter sua casa incendiada e perder sua família.


  O policial sentiu sua mão fraca, sentiu-se abalado e quando pensara em puxar o gatilho do revolver, ele viu as trevas adentrando seu corpo através dos olhos, tudo ficara escuro. Estava inconsciente, mas ouvia os passos do maníaco em sua direção, murmurando...


 - Este lugar está fundido em sangue, fogo e formol, respirar neste ambiente te derrubaria.


  Imóvel no chão o policial sentiu a presença do maníaco por perto, tão perto que podia sentir seu bafo insuportável, cheirando algo podre, abriu a boca e murmurou rente ao seu ouvido:


 -Quem arde no forno é sua família!


 Em seguida sentiu seu corpo sendo elevado, o maníaco do crematório o pegou no colo e delicadamente depositou seu corpo no interior da fornalha.  O policial podia sentir o cheiro forte de pele e carne sendo queimado, insuportável, diabólico. Perdeu os sentidos.


 E o maníaco do crematório continuava livre.



Conheça meu Livro de Terror : Clique Aqui


(Ant Lima - O Sr Dos Mistérios)