A metade da laranja

19 de Dezembro de 2013 Priscila Pereira Contos 923


  As
tragédias da vida me intrigavam, pois, depois de certo tempo a vida continuava
a fluir e abriam-se novos caminhos antes inexploráveis. A fatalidade pode unir
pessoas que nunca se juntariam sob outras circunstâncias. Foi o meu caso.



  Sofro de uma doença quase desconhecida,
mas feroz, dores tomam conta de meu corpo, como ondas em um mar bravio, sem
descanso, sem calmaria. Sem nenhuma chance de cura e uma sobre vida longa, sou
obrigado a viver acorrentado a este corpo indefinidamente. Minha alma anseia
por voar, viver, sentir algo que não seja dor, sou um espírito livre preso em
um corpo enfermo.



  Em certo dia, de certo mês, no terceiro
ano de minha doença, estava caminhando pelas ruas de minha cidade, focando
minha mente em algo fora de meu corpo, o que aliviava, ou distraía a dor que
sentia, quando vi um garotinho sentado no meio fio da calçada, muito sujo,
despenteado, vestindo farrapos, chupava uma laranja com uma aparência de tanta
felicidade que não resisti, parei, cheguei perto dele e perguntei:



  - Por que você está tão feliz?



  - Porque estava com muita vontade de
chupar uma laranja e consegui essa aqui – Disse mostrando a laranja pela
metade. – Quer um pedaço?



  - Não, obrigado. Mas uma laranja é motivo
pra ficar feliz?



  - Claro que é moço, além de ter conseguido
o que comer hoje, foi justamente o que eu queria.



  -Isso foi tudo o que você comeu hoje?



  - Foi sim...



  Não podia acreditar, o menino parecia não
ter mais do que sete anos de idade, olhei em volta e não havia nenhum adulto
por perto, então perguntei:



  - Onde você mora, onde está sua família?



  - Moro aqui na rua, não tenho família não
moço...



  - Quantos anos você tem?



  - Dez anos. – Disse ele todo orgulhoso.



  Notei que não havia prestado atenção à dor
enquanto falávamos; ainda atônito, me ouvi dizer:



  - Venha, vamos para minha casa que te dou
um jantar decente.



  O menino olhou pra mim e disse:



  - O senhor tem família?



  - Não. Sou só eu e você agora, se
quiser...



  Ele me olhou com preocupação e disse:



  - Se eu for morar na sua casa ficarei tão
infeliz quanto o senhor?



  - Não... Espero ficar tão feliz quanto
você.



  Ele me deu sua mãozinha suja e melada e
fomos para minha casa, enquanto andávamos em silêncio pude sentir minha alma se
enchendo de esperança, poderia nunca viver uma vida plena e realizada, mas
poderia proporcionar essa mesma vida a uma criança e através dela eu poderia
enfim viver de verdade.




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