O homem soberbo e o humilde

20 de Dezembro de 2013 Folheto Nanquim Contos 1458

                                                  

             
Ainda que o odor do tempo me encontrara nesta sala vazia, é prazeroso sentir o abafadiço sabor dos anos que se passaram, percorreram por estas cortinas, os assentos e a este velho espelho. Uma vitrola entornada de prata com grande imponência, velha e brilhante. Uma família de bens, raramente teriam tais artefatos se não o fossem. Gasto meus olhos em pensar o quanto de luxo obtiveram, mas ainda sei que a maneira como traçou-se os caminhos, de nada lhes foram abençoados.
              Homens austeros e mulheres formosas, atenuavam qualquer chance de serem criticados, uma beleza ímpar, traços frágeis e delicados, consumiram de belas peles, carros e vinhos. Um grande gesto de integridade a sociedade, seus bailes, todos categoricamente escolhidos e decorados, teço ainda uma tela, e que seja pintada por minha memória as lembranças de dois amigos, que aqui também rondaram.
Frederico Ornelas, O grande, impetuoso e nobre homem da sociedade e militância, seu legado invejável, rotulado como um major, ainda que seus fios estivessem brancos, o olhar severo e nu exibia a tenacidade de um cavalheiro algoz, saberias tratá-lo com devida educação, acerca que não bastasse um brado para me ver entre os policiais e a pocilga dos soldados, vindo da mesma linha de ratos traiçoeiros, que mata uns aos outros para sobrar-lhes mais comida e mordomia.                Caminhou sua vida com grande requinte, entre o poder e as iniquidades, posso lhes afirmar, todavia, tinha afeto por alguém assim, sentindo me as vezes colérico ao imaginar as trapaças e a imoralidade dele pudesse alcançar os céus, reitero de minhas perspectivas que quem sabe as nuvens tem sido brandas com sua chegada, mas de nada me liberta a condenação da maledicência em vida e dos atos nefastos e vis com famílias e a inocência das moças de sua época.
               Permito a mim mesmo tocar nesta caneta, uma das douradas, era cintilante durante o dia ao vê-la encaixada em seu bolso do paletó. Uma assinatura movia montes, mas de nada mais que isso, um larápio imundo, a labuta nunca lhe foi próxima, mas sim o orgulho e a fortuna familiar, e toda a tirania com os seus e levemente amigável com os demais. Percebo o quanto essa caneta pesa, mas, ainda mais, o tormento que nela personificou.

***** 
Nada valerá o dinheiro,
Nada valerá o luxo, 
Quando o tempo  
For lhe tomado  
*****
               Permaneço com esse discurso monótono, mas acerca de fatos importantes, rapidamente perceberão a diferença proposta, há ainda tempo para traçar caminhos opostos, mesmo que de nada adiante, receberia ao menos uma menor pena, a culpa de transgressões liberta pela serenidade, e a bondade de coração, nada mais do que traças e pó poderá presentear, assim como a ampulheta irretroativa.
               Ângelo Prado, mero comerciante, benevolente de toda sua singeleza, dono de poucos dotes, nada mais do que uma velha loja de linhas e um ou outro tostão no banco, uma família bonita, edificou seu patrimônio com o suor de seus poros e a honestidade de seu ser, nunca foi um homem de cobiça, algo apenas que o deleitava, uma mesa farta e a imensidão da noite para sua mente. Criara filhos e seus netos, intencionado sempre na retidão, ainda que muitos homens de má fé o ludibriasse nos negócios ou na concorrência.
Famoso entre as vozes da vizinhança, de todo seu lustrado passado, comportou-se de maneira que um homem deveria se comportar, tranquilizou sua alma com a devoção divina, caminhou pela pobreza, mas acerca que jamais lhe deixasse praguejar, correu por dias em busca de sapatos novos para seus meninos e grande força para se estabelecer após a ida de sua esposa, acredito que tenha sido devastado pela notícia, no entanto, auferiu seus frutos de acordo a sua inteligência e maestria.
               Um bom amigo, sou grato por ter mostrado tão íntegro e sensato de todas nossas conversas e encontros, sinto falta do fato de tomarmos café sobre o balcão de madeira, algumas vezes soltávamos risadas altas ao sabermos que nossa amizade não mudara com o decorrer dos anos e pensávamos o quanto de tempo teríamos ainda para viver e continuarmos nossa comunhão.
*****
“Os moinhos de Deus moem lentamente, mas bem pequenininho”.
*****
                Debruçado em minhas memórias e sobre este pedaço de papel me recordo alguns outros fatos que fazem parte dessa trama anêmica. Estive ainda pensando em coisas diferentes, a procura de alguma explicação, seja da verdade ou mentira que estou pronto a dizer.
                Não me refiro a assassinatos ou crimes, apenas a mortes naturais, de em datas opostas e sem qualquer pretensão de uni-las para algum enlace absurdo. Não havia cumplicidade entre ambos, jamais se conheceram e me recordo das lembranças pelo motivo em que a vida se encarregou de por-lhes um fim.
A soberba e a excentricidade de Frederico o corrompeu. Um velho caduco, não restava mais nada que dinheiro, uma fortuna inestimável, uma casa gigante e bela, invejável até entre os de sua igualdade, lhe veio a demência após não ter sido o escolhido entre os demais majores numa honorária cerimônia quanto a glória de seu trabalho e competência. Como um cavalo velho, que cavalga vagarosamente para que seus ossos frágeis não se partam, estava, aos cuidados dos criados, e longe de seus familiares, asseguro para minha própria certeza, de que jamais gostariam de ter um velho pernicioso em volta deles. Até que uma hora o tempo o presenteou com sua morte, e os bens e o orgulho se dissiparam entre os encargos administrativos e a ferrenha luta dos parentes.
                O amigável velhinho que vendia linhas, também teve seu fim, dos seus bigodes castanhos e a constante pigmentação de fios brancos, também atravessou o sol. De coração grande, teve muitos problemas em vida, nada que se comparasse a morte prematura de sua esposa, deixou-o com três filhos e a dor da perda, continuou seus dias com a gentileza e tranquilidade com que a vida lhe propôs, um homem trabalhador, inteligente e bondoso, permaneceu rígido de sua posição de pai, e nunca deixou-lhes faltar nada, passou a loja para seu primogênito e trabalhou até quando pode, vivendo de sua condição modesta, rindo-se nos almoços e jantares, entre seus cunhados, netos, filhos e amigos. Um dia a luz do dia resplandeceu e nunca mais ele a viu.
                Proponho um chá, quero sentir o gosto do hortelã assim terei mais com que me importar, ao que me recordar de histórias que participei, entre meus olhos algumas lágrimas involuntariamente correm, e sei que tenho a saudade de ambos, mas em meu ser aceito a condição de terem traçado os próprios fins. Saiba ainda que de nada poderia fazer a não ser compartilhar minha amizade com eles. E sei que tal carinho jamais pudesse ser selado caso não os amasse tanto.                                

                                                    - Marcos Leite 

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