A Jornada

20 de Dezembro de 2013 Miguel Bernardi Contos 1086

Para Ariel Gonçalves
Borges, que esteve comigo mesmo durante meus piores pesadelos.


0



(A flor, a boneca e a
menina)


  Quando
completou dez anos de idade, a menina ganhou de seus pais uma grande casa de
boneca. Grande, espaçosa, colorida. Ela lamentou, no ano anterior, por fazer
aniversário na véspera de natal, o que fazia com que ela ganhasse apenas um
presente pras duas datas - e não um de aniversário e um de natal, como a
maioria das crianças-. Esse ano, a pequena menina de cabelos louros não lamentou:
ela não somente ganhou uma linda boneca(O que naquela época era raro), mas
também um casa para a bonecas(o que era mais raro ainda).



   Uma grande casa de bonecas!, pensou a menina,
agitada, enquanto voltavam para casa. Faltavam apenas três dias para o natal, e
os presentes vieram adiantados. 



Ao passarem pelo centro da cidade, pararam num restaurante.
Era simples, modesto, barato e bom. Comeram strogonoff, junto de arroz e
saladas como acompanhamento. Todos tomaram suco de laranja. As mesas, cobertas
com toalhas de mesa de cor branca, eram simples, e todas tinham vasos com
flores brancas dentro: seis ou sete em cada vaso(embora na mesa da menina,
fossem quatro delas). As flores eram lindas, e a menina adorou-as. Ela
perguntou a mãe se poderia levar uma para casa. Compreensivo, o pai pediu ao
dono do restaurante -um senhor já com cabelo branco- uma das flores, apontando
a filha enquanto explicava a situação. O senhor, encantando com a pureza do
pedido, gentilmente deu-lhe as flores e seus mais sinceros parabéns.



  Ela
agradeceu, cheirando a flor e contemplando-a, riu. Um riso doce, sincero.
Naquele momento, ela era a criança mais feliz do mundo.



  A
família então pagou a conta, agradeceu novamente, voltou ao carro, e partiram
no rumo de casa. A mãe havia perguntado a filha o que ela faria com a flor, e
foi bem perto de casa que uma ideia - genial - passou pela cabeça de lindo e
colorido cabelo louro, escorrido, liso.


  - Vou
deixar a flor com a Dani! - disse ela(na verdade, exclamou), colocando a flor
no bolso de Dani, a boneca. - Ela vai adorar!


  Os pais
adoraram. Mais tarde naquele dia, quando o sol já tinha se posto, os três já
haviam terminado de montar a casa de Dani, a boneca. A menina brincou até a
hora de dormir, e então se despediu da nova amiga, deixando-a em sua cama(a de
miniatura) e indo para sua cama(a real). A flor branca ficou na escrivaninha,
dentro de uma jarra transparente cheia d'água.
  'O nome da flor é lírio',
pensou ela antes de se cobrir. Sua mãe havia lhe contado. 'Lírio, que nome
lindo!'.



  Pouco
depois, a menina dormiu.
  A boneca, não. A boneca
ficou acordada, e acompanhou a menina durante seus sonhos.



  Quando
a menina acordou no outro dia, a boneca estava ao seu lado. 'Mamãe deve ter
colocado ao meu lado quando acordou', concluiu e se levantou: o café da manha
estava pronto.



  A mãe,
porém, não tinha sequer encostado na boneca. Pouco antes de fazer o café, a mãe
tinha entrando no quarto e visto a boneca ao lado da filha.


  'Ela
deve ter dormido com a boneca', concluiu a mamãe, e foi para a cozinha.


1


  Estou
sentado e sozinho, no frio da noite. Uma noite de outono, esplêndida, formosa.
O céu, já escuro e sem estrelas, é como um longo tapete que paira sobre o mundo.
Na  s casas, nas ruas, nas
cidades, tudo. O céu engloba tudo. Contemplo a calmaria imensa acima, com um
sorriso na face. Estou sentado no quintal de casa, onde há um pequeno jardim,
simples, mas magnífico, a seu jeito. Balanço na cadeira de balanço, que
pertenceu a minha bisavó: uma cadeira grande e branca, confortável. Dentro de
casa todos dormem, devem estar sonhando, embalados por lembranças e desejos,
por medos e antigos fantasmas. O que me deixa acordado, aliás, é um fantasma.
Não consigo dormir, não consigo por mais que eu tente, meu fantasma continua a
me atormentar. Não quero voltar pra casa, pode estar ali. Mas aqui fora, no
frio dessa noite, estou livre. Sem fantasmas, só com o frio e ausência de luz.


2


  Finalmente
consegui dormir, e sonho enquanto meu corpo está na cadeira de balanço -agora
sem balançar-. Viajo, afinal, por terras já conhecidas. Meu fantasma,
infelizmente, me persegue. Nunca parou de me perseguir, nunca me deu uma folga
sequer. Trajando um jeans surrado e um Allstar de cor preta, uma camiseta de
uma banda de heavy metal cujo nome é King Diamond e com os cabelos despenteados
-exatamente como alguém que acabou de acordar- me persegue, com uma foice na
mão e uma camisa de força na outra.



  A camisa de força é pra mim. Não sou louco,
não sou.



  E, é
claro, esses eram dois de seus medos. A morte e a loucura, porque não? Mas
entregar-se a um era livrar-se do outro. Salvação e maldição em uma espada de
dois gumes. Cruel. Corro com toda força e velocidade que consigo, por uma
estrada deserta, onde os únicos sons ali são os dos passos e minha respiração.
A figura, pálida e incrivelmente magricela, não respira. Corro, corro, corro...
Vejo, a alguns metros a frente, uma linha de trem. Ouço, como uma sirene que
alerta um incêndio, um apito de trem, que é soado pelo maquinista.



  O trem
aparece a frente, cortando a estrada. Sinto que o que de fato está sendo
cortado é meu pulso. Fim da linha? Continuo correndo, a figura incansável atrás
de mim. Agora ela trás consigo um estilete, onde estava a foice.


3


  Ouço
alguém chamando meu nome, uma voz feminina. Um sussurro, um grito, um sussurro,
um grito. Mistura-se na estrada, com o apito do trem. Ora apito, ora voz.
Oscilando, como as pulsações irregulares que tomam conta de mim. Falta ar,
sinto-me ofegante e suado. O homem pálido ri, ora, ele não precisa respirar. Está
mais próximo, mais próximo, mais próximo... O trem ainda está passando, e não
vejo alternativa senão tentar entrar no trem em movimento. Preparo o pulo...
sei que sofrerei o impacto ao encostar no trem, por isso terei que me segurar
firme. Espero um lugar mais acessível para realizar a manobra, o homem pálido
realmente perto agora, rindo como o vento frio que corta a noite e faz que as
árvores balancem.



  Pulo.



  Sinto
minha mão ser puxada, e ouço um barulho. Track.
A dor toma conta de meu pulso esquerdo, o direito felizmente está bom, e estou
me segurando a grade do trem... Como se fosse subir numa bicicleta, subo na
grade e fico ali por um tempo. Mesmo com a dor no pulso, o alívio de poder
respirar parado me inunda, assim como a água faz à alguém que passou horas sem
sequer uma gota do precioso líquido.


4


  Abro a
janela da pequena plataforma externa onde estou, entro cuidadosamente, e a
fecho após estar dentro do trem.



  Se o trem era uma faca que corta meu pulso,
agora sou a faca? Sou suicida?



  Estou
num banheiro, mas não sinto vontade alguma de usa-lo. Mas lavo o rosto, a água
fria funciona como uma dose de cafeína, e me sinto mais ligado e acordado. Olho
no espelho, e vejo meus olhos... negros como breu. Mas meus olhos são azuis! Que merda é essa? Fecho os olhos,
como quem nega um fato inegável, e os abro novamente. Vejo olhos azuis, os meus
olhos.



  Confuso,
tento entender o que aconteceu. Estou ficando louco? Não pode ser... tudo
estava perfeitamente normal, mas o olhos realmente não eram meus. Eram negros, como
a morte. Olho no espelho novamente, para confirmar que meus olhos ainda estão
lá. Estão. Abro então a porta do banheiro, entro no corredor central do trem.
Luzes pagadas, claro, mas certa luminosidade vem de fora. Relâmpagos, talvez. O
único som presente agora vem do movimento das rodas no trilho. Contínuo e
cortante. Na minha frente está uma porta, e é evidente que há uma placa ali,
mas falho em identificar o que está escrito. Viro a direita, outra porta. A
esquerda estão localizadas algumas cadeiras, divididas em duas fileiras de 26
lugares cada. Na primeira fileira, cujo as janelas mostram o lugar de onde vim
-embora a estrada agora já esteja pra trás-, está o maior urso de pelúcia que
já vi. Um sorriso orna-lhe o rosto peludo. Um pelo bem claro, quase branco... E
olhos totalmente negros.



  Ouço o
apito do trem e corro pra porta mais próxima, seguro a maçaneta e a empurro,
mas a porta se abre ao puxar. Puxo a maçaneta, que sai na minha mão.


5


  Sobra a
porta que está a minha esquerda. Essa, felizmente, abre. Infelizmente, é outra
cabine cheia de assentos. O ursinho não está mais ali, respiro aliviado... Olho
pra trás, para me certificar de que o urso está parado onde deveria estar.
Vejo, espantado e soltando um grito de horror, apenas a linha do trem atrás.
Como se o vagão anterior tivesse sido cortado fora, e o trem agora parece muito
devagar, um lobo albino vem correndo atrás do trem. O que mais espanta não é
isso, porém, mas sim o lugar onde o trem está. É uma floresta, evidentemente, e
está nevando. Pinheiros cobertos de neve.



  E o
lobo correndo.



  O tempo
parece desacelerar, e sinto o frio se fortalecendo, a ponto de me deixar
tremendo e arrepiado. Ouço o maldito apito novamente, e em resposta o uivo do
lobo. Viro de volta pra cabine, e ela ainda está lá. Olho pro chão, um peludo
tapete vermelho, e as poltronas nessa cabine estão mais afastadas uma da outra.
Primeira classe.



  Coloco-me
a andar em frente, em direção a próxima cabine. Corro por minha vida, e como
que num passe de mágica, percebo que estou indo na direção da cabine do
maquinista. A medida que me aproximo da porta, ela parece se esquivar para
longe, se distanciando. Não importa o quanto rápido eu corra, a porta foge, e
foge novamente, e mais uma vez. As luzes começam piscar, ora apagadas ora não.
E o uivo do lobo novamente toma conta do que outrora era o silêncio... O frio
passa de súbito, e então olho pra trás. A porta está lá novamente, e a
curiosidade que possuo fez com que eu voltasse para olha-la: meu erro. Ouço a
risada demoníaca novamente, vinda de trás, e o som de uma serra elétrica sendo
acionada. O sujeito pálido, de cabelos e olhos negros, anda lentamente até mim,
rindo. Abro a porta, e vejo uma sala de cirurgia.



  Puta merda.



  Não tenho escolha senão
entrar na sala.


6


  Ao
adentrar a sala de cirurgia meu primeiro extinto é olhar para trás, e como se
esperasse isso, vejo somente a outra parte da sala de cirurgia. Nada de trem,
nada de serra elétrica. Ainda bem. As luzes estão apagadas, mas o lugar parece calmo e pacífico. Não vejo
nenhuma porta na sala, apenas um amplo conjunto de poltronas alguns metros
acima, como se a sala fosse o palco de um grande show. De repente, o medo de
que eu faça parte desse show bate em mim: nesse instante eu apenas desconfiava
do que se faria certeza em poucos segundos. Ando pela sala, que aparentemente é
muito bem equipada:
  Desfibriladores, agulhas,
aparelhos respiratórios e monitores, e o que parece ser um carrinho-mesa com
alguns apetrechos médicos acima. Bisturis, tesouras, luvas, máscaras... De
súbito lembro da figura pálida com camiseta de metal me perseguindo, e pego um
dos bisturis -o menos- na mão. Agora, como sair daquela porcaria de sala? Como
que em resposta, um dos monitores liga, e começa a emitir um barulho agudo.
Aquele tipo de barulho que é padrão em cenas onde um paciente está com o número
de batimentos cardíacos abaixo do normal.



  Pip. Pip. Pip. Pip. Pip...



  Estimulado
pelo irritante barulho de fundo, começo a andar em volta da sala. Alguma deve
existir. Tem que existir. Numa das paredes da sala está um daqueles painéis
usados para se ver os negativos dos raios-x, e nenhuma saída ali.



  Nem
numa das paredes ao lado dessa, que está repleta de equipamentos. A parede ao
lado dessa está limpa, nada ali. A porta deveria estar ali. Li em algum lugar
que a porta de qualquer sala da cirurgia não pode estar obstruída por nada. Mas
ali havia apenas parede, branca. Me aproximo mesmo assim, quem sabe depois de
tantas ilusões ou situações sem sentido, a parede seja apenas mais um truque?



  Mas tudo parecia tão real...



  Aquela
havia sido, definitivamente, a pior escolha que fiz naquela noite.  O Pip.
Pip. Pip. Pip. Pip.
cessou, dando lugar a um piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip....


7


  As
luzes se apagam, e dois holofotes acendem acima. Ouço gritos e urros de uma
plateia invisível. Será tudo obra da minha cabeça..? Loucura minha?


8


  Os
urros continuam, agora ouço palmas também, que vão ficando cada vez mais
fortes. E mais. Até que param. Os holofotes focam, um em mim e o outro na
parede. Do branco cru da parede começam a surgir duas mãos, braços,
cotovelos... um joelho, coxa, pé... abdome, peito, cabeça, outra coxa, e o
outro pé. Trajando roupa anti radiação completa, estava a mesma figura pálida
que me perseguia na estrada. O cabelo negro e oleoso jogado pra trás, e os
olhos negros e mortos. Segurava nas mãos -para meu espanto total, o que quase
me fez perder as forças nas pernas- a serra elétrica. Recuo na sala, o máximo
possível, o holofote me acompanhando o piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip
ainda soando ao fundo.



  Bato
minhas costas numa outra mesa de metal. Desconfio que aquela mesa seja usada
para autópsias. Era quase irônico eu estar encostado ali, com um sujeito que
não precisava respirar vindo atrás de mim com uma serra elétrica.



  VRUUUUUUUUUUUUUUUUM...



  Ao som
da serra elétrica, desperto de uma espécie de transe e subo na mesa.  O sujeito se aproxima, lentamente, e essa
esperar se torna tão torturante quanto a situação em si. Ele levanta serra
elétrica acima do ombro, e vem se aproximando. Olho o monitor, que ilustra uma
linha reta, sem oscilações. Sem pulso. Pulo da mesa, para a direita, no momento
em que meu atacante aplica um golpe que corta parcialmente a mesa. Penso comigo
'O que faço agora?'.



  Acenda a luz. Acenda-a. Diz uma voz
masculina dentro de minha cabeça. Ilumine-se.
Acenda a luz. Agora!



  - MAS
COMO VOU ACENDER A LUZ?



  Os
urros da plateia invisível voltam. As palmas também, e o traje de radiação se
curva, nova espécie de reverência malfeita.



  Faça o monitor marcar pulsações. Forneça-o
vida.
Diz a voz, dessa vez parecendo mais distante. O monitor, por sorte,
está na parede que fica as minhas costas. No fim de um cabo está uma espécie de
prendedor, que deve ser colocado no dedo. E o faço. O Pip. Pip. Pip. Pip. Pip. inicial retorna, e o barulho da serra
elétrica vai indo pra longe, se distanciando. Um túnel imaterial surge, como um
buraco no plano no qual a sala se encontra, e suga a figura pálida. E o leva
junto. O plano de fundo dessa falha no espaço é, indiscutivelmente, outra
cabine de trem.



  A
plateia invisível não faz mais som algum. As luzes da sala acendem, e os
holofotes apagam. Da parede branca -a mesma da qual o homem saiu- surge uma
porta.


9


  Entro
pela porta, que é a única saída dali, e o medo de que o 'figura-pálida' volte é
maior que o medo do desconhecido. Ao atravessar, sinto-me pesado. Estou num
corredor imenso, e com algumas bifurcações em certos pontos, várias janelas
estão espalhadas por toda sua extensão. Estou no lugar onde meu avô ficou internado
durante minha infância. Em uma daquelas salas, preso numa camisa de força,
gritando e pedindo ajuda à Deus. A família não ligava muito pra ele, então sua
prisão acabou sendo seu túmulo. Ele morreu com 78 anos, com pneumonia.



  Coloco-me
a andar pelo corredor.


10


  Meu pai
me parou o carro e saiu, e eu o segui. Estendeu sua mão e eu a agarrei. Juntos,
atravessamos aquela rua que dava no Hospital Estadual. Duas ambulâncias haviam
acabado de parar, com as sirenes ligadas e com as luzes fazendo com que tudo na
rua parecesse vermelho. E azul. E vermelho... Após cinco degraus de
escada(havia também uma rampa para deficientes) entramos no hospital e
aguardamos um tempo na recepção. Fiquei lendo um livro com gravuras, cujo nome
era Alice no País das Maravilhas, enquanto meu pai falava com uma mulher
vestida de branco. Passados alguns minutos meu pai me chamou, e a moça vestida
de branco -uma enfermeira- nos guiou até a ala Psiquiátrica do hospital.



  Era
longos corredores, repletos de salas. Na primeira ala estavam apenas camas, com
salas não muito equipadas, e alguns homens e mulheres -todos em branco-
circulavam. Alguns gordos e altos, ou baixos, alguns magros. Algumas pessoas
que não estavam vestidas de branco andavam por ali também. Principalmente
mulheres que pareciam ter comido de mais, e algumas salas a frente estavam
vários bebês. Deitados em pequenos berços, uma outra enfermeira olhava os bebês
e empurrava um carrinho cheio de ursos e brinquedos. Dentro do carrinho,
destacava-se as costas de um urso de pelo branco. Continuamos andando.



  Mais a
frente ouço o grito de uma mulher. É um grito agudo e alto, mas nem meu pai e
nem a outra moça pareceram espantados com isso. Chegamos no fim do corredor, a
base de uma escada. Subimos e chegamos ao nosso destino. Nenhum objeto pontudo
é permitido ali, por isso meu pai deixa as chaves do carro na com outra
enfermeira.



  O que
vejo ali me aterroriza. Pessoas vagando com os braços amarrados com um tipo de
camiseta especial, e algumas ainda jogadas em cantos de salas. As portas
trancadas, e o suor escorrendo em suas faces, o ar que encontra dificuldade de
chegar nos pulmões... Paralisado pelo pânico, só volto a andar quando meu braço
é puxado(não com força).



  -
Estamos quase chegando. - anunciou a enfermeira. - Por favor, não façam
barulho.



  Meu pai
fez que sim com a cabeça, e chegamos na cela. Sala. Sala 213. Ali está...



  - Vovô?
Que ele tá fazendo ali? Porque vovô tá com aquela camisa estranha? -falo eu, e
meu pai me olha com um misto de repreensão e pena, mas não ligo muito. Estou
olhando vovô, que não parece bem. Muito magro e aparentemente fraco, começa a
tossir e treme(mesmo com o suor, aquela roupa deve mesmo ser quente).



  - Seu
avô está doente, filho... ele veio aqui para descansar. Logo ele vai fazer uma
viagem. Todos nós fazemos essa viagem um dia, e você o verá novamente... -
senti carinhos em meu cabelo, cafunés, que eu não sentia fazia tempo... - Não
se preocupe. Ele vai pra um lugar melhor, e não vai mais sentir dor. Nenhuma
dor.



  Isso me
confortou um pouco. Mas a visão daquela sala nunca realmente iria me deixar. Na
volta pro carro, escorrego no chão molhado, felizmente longe da escada. A dor,
na hora da queda, não se fez presente, mas mesmo assim me levaram pra uma
maquina estranha.



  - Não
respire agora. -Disse um homem vestido de branco. Uma enfermeira homem. E eu
não respirei.



  Meu pai
me pegou no colo, depois que eu pude respirar novamente, e me levaram pra um
dos quartos. Duas camas e uma televisão, duas mesas, duas cômodas e um
ventilador de teto. Minha cama dava vista da janela, que infelizmente era uma
parede de tijolos a vista. Ao lado da minha cama estava uma criança magricela,
uma menina loira de olhos claros. Deveria ter a minha idade. Estava coberta e
adormecida, e na cômoda ao lado da cama estava uma boneca -também loira, feita
de pano, sentada em um ângulo estranho, como se as pernas estivessem
quebradas-.



  Tempo
depois aquela enfermeira homem -que meu pai chamava de Doutor- chegou com um
papel preto nas mãos. Era uma perna! E o colocou sobre um quadro branco, e ao
apertar uma tecla -daquelas que se usam pra acender as luzes- o quadro se
acendeu, revelando o que era a foto de ossos. De prontidão entendi que aquela
era a minha perna, e Doutor disse que um osso havia saído um pouco do lugar
quando escorreguei.



  -Deve
repousar por enquanto, e logo voltarei para dar um jeito na perna de seu filho.
Teve sorte, o menino, -disse Doutor sorrindo- por não ter quebrado nada.
Descanse por agora.



  Foi o
que eu fiz naquela noite, até que meu pai e Doutor voltassem. Ele disse, como
quem pede desculpa, que iria doer. E aconselhou que prendesse a respiração. Eu
o fiz, e senti a uma mão no meu ombro. Estranho era que meu pai e Doutor
estavam na minha frente, e antes que pudesse olhar para trás e ver de quem era
a mão, gritei.



  Quando
eu acordei, já era noite, e mamãe estava ali também.


11.


  Era
noite. O homem pálido, a coisa que não respirava, fitou o garotinho enquanto
dormia. Atrás dele estava um estetoscópio, e um cobertor azul claro cobria sua
perna machucada. Esse vai servir.
Fitou o menino, em seu sono... e decidiu plantar a semente. Deixou, aos pés do
menino, um lírio. A garotinha ao lado da cama do menino tinha seu lírio quase
seco, quase morto... A boneca estava fazendo um bom trabalho. Bom trabalho. Ouviu
um som chegando no corredor. A mãe do menino. Ao amanhecer daquele dia, a mãe
do menino foi encontrada caída no chão por uma enfermeira, com o pescoço roxo.
O laudo da autópsia foi indiscutível: asfixia. Mas o homem pálido sabia que não
fora asfixia. Ele sempre sabia. Três dias depois, o lírio da menina loura
estaria num cesto de lixo. Seu corpinho estaria num caixão, abaixo da terra.


12


  O
corredor, apesar de longe e frio, me parece familiar. Já estive aqui, mas o
lugar está diferente. Desértico, abandonado e terrivelmente calmo. O silencio
chega a ensurdecer, engolir tudo em sua simplicidade. Uma brisa refrescante,
que aparentemente não tem origem, que me acompanha pelo caminho. Isso não me
assusta, porém...



  O medo
vem, ao todo e incrivelmente agonizante, do Homem Pálido que vem me perseguindo
desde aquela estrada maluca. E o trem...



  Cuidado com o que imagina, menino.



  Cuidado
com o que imagina? Uma voz dentro de minha cabeça, a mesma voz que me ajudou na
sala de cirurgia, começa a trocar pensamentos contínuos comigo. Alguns
desconexos, sem sentido. Continuo a andar, mas não por muito tempo. Uma sala me
chama a atenção. O número, embora apagado e mascarado pelo tempo, se torna
legível pra mim.



  213.



  Duzentos
e treze.  213.



  Ali
dentro estão algumas caixas, uma cama bagunçada e suja, e alguns ossos...



  Pare.



  Não
paro. Preciso saber o que aconteceu ali.



  É forte demais para você, menino.



  - Eu já
não sou mais um menino. - digo em voz alta. -Eu me lembro daqui. Anos atrás...
De fora da sala posso ver a escada que leva pra baixo. Vejo dois espectros passando
no corredor. Um sujeito alto, de terno, e um menino com um exemplar de Alice no país das maravilhas debaixo do
braço direito. Estão vindo em minha direção.



  Desista, menino. Não faça isso, tens somente
a perder.



   Ignoro a voz, que outrora me salvou.
Atravesso a porta da sala, e o que vejo me faz cair de joelhos e chorar.


13



  O Homem
Pálido está no trem, perguntando-se como foi que o Menino havia prolongado sua
vida. Aquele buraco que o sugou o surpreendeu. De onde o menino teve a ideia de
fazer com que o coração batesse novamente? Isso o enfraqueceu. Mas ele ainda
estava forte, e tinha que buscar o menino. Sem mais serras, sem mais foices ou
estiletes. Agora iria sozinho, sem nada.



  Com as
mãos fez um hexágono no ar, abrindo um caminho. Viu o menino no corredor do
hospital. O mesmo lugar onde matei duas
pessoas de sua família, menino.
Pensou consigo mesmo. O menino estava a
ponto de entrar na sala 213, onde uma das mortes tinha acontecido, quando de
repente parou. Uma oscilação na imagem aconteceu, o que espantou novamente o
Homem Pálido. Nesse momento, ele estendeu a mão direita e agitou-a por um
tempo. Na imagem, apareceram dois vultos, como fantasmas: Um pai e seu filho.



  Mexendo
seus fantoches, o outro vulto -o que estava no trem- decidiu testar o menino.
Será que ele se lembrava de seu passado?



  No
momento seguinte, ele teve certeza de que sim. O menino se lembrava.


14


  Nada
poderia tê-lo preparado para ver o que iria ver dentro da sala 213. No momento
em que ele entrou na sala, viu seu avô e (o) doutor o cuidava. O velho, deitado
na cama -e agora sem a camisa de força- tossia muito, e lhe faltava ar. A
pneumonia havia evoluído, e pequenos tumores tomavam conta de seus pulmões.
Estava em estágio inicial, mas a luta que vinha sendo travada com a pneumonia e
a idade avançada faziam com que a recuperação fosse impossível. A cena avançou,
e chegou um homem.



  Pai...



  Ele entrou, assinou um
papel, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. Agora, o velho senhor estava
vivo apenas por aparelhos. O documento assinado pelo pai autorizava que os
aparelhos fossem desligados. Uma anestesia geral fora aplicada, os aparelhos
desligados, e as lágrimas corajosamente foram limpas.



  Sentado
na beira da cama, aos pés de seu falecido pai, pediu desculpas. Desculpas por
tudo. O doutor deixou a sala. Sabia, mais que tudo, que o homem sentado ali
precisava de um tempo sozinho. Sua esposa tinha morrido dois meses antes, e seu
filho vinha fazendo fisioterapia. O velho só havia feito piorar no tempo que
ficou ali, o que se iniciou com um surto psicótico, onde ele alegava que ouvia
vozes e via coisas: acordado ou dormindo, e jurava que eram reais. Logo ele
passou a confundir os fatos, datas, e até mesmo pessoas. Obteve um
comportamento violento, dizendo que ninguém estaria a salvo.



  Seu
filho, sentado em seu leito de morte, agora acreditava nisso.



  A cena
avançou um pouco mais, onde um grupo de médicos do hospital vinha para retirar
o corpo. Colocaram-no num grande saco, fecharam o zíper e partiram dali. Na
cama ficaram apenas as marcas do corpo que ali ficou deitado nos últimos dois
meses. Ora, o corpo estava ali, apenas. A mente fora a muito corrompida.



  Numa
caixa foram guardados todos os pertences do outrora enfermo: Porta retratos,
roupas antigas, um vaso de flor -que foi presente de seu neto-...
  No chão, debaixo da cama,
jazia o que um dia fora um lírio. Apenas a sombra de um lírio. Seco. Vazio.



  Morto.


15


  Enquanto
nosso Menino chorava de joelhos e O Homem Pálido olhava-o pelo portal que criou,
vamos nos direcionar a outra parte da história, que pode-se chamar de
bastidores. Em sua fuga sagaz, o menino estava inconscientemente navegando por
um infinito limbo, durante a noite sem fim. O vento soprava forte, fazendo com
que seu bote a remos balançasse, os relâmpagos cantavam e dançavam enfeitando o
céu. A chuva molhava seu íntimo, enquanto a múmia do que era o menino
agitava-se, febril e ofegante, a remar. No momento em que o menino adentrou a
sala o vento cessou, a chuva parou, e até mesmo o silêncio não parecia mais
relevante. A noite virou dia.



  A
criança cresceu. A semente brotou e o tempo parou. Num paradoxo temporal e
termodinâmico, cada átomo e partícula ali chegou no zero absoluto. A imagem do
corpo que pertencia ao Homem Pálido(observe que agora ele está trajando não
mais seu jeans e sua camiseta: agora ele veste uma capa de cor branca, tão
branca quanto ele. Apenas um fantasma a mercê do nada) contemplava seu
prisioneiro, em sua cela. Cela duzentos e treze. A cada remada mais perto
ficava o menino de seu destino. 



  Mas que
destino era esse? Raramente é gentil, como uma mãe. Como a mãe de todos nós.



  Estrelas brilhando em alto mar, guiando
peregrinos perdidos. Imensos astros, distantes de tudo. Distâncias
inimagináveis.



  E ali estava o menino, em
seu barco que lutava pra flutuar. Mas lentamente afundava. Afundava. Afundava.



  Afundava.



  Tal
como um dia as estrelas vão parar de brilhar. E as flores todas vão morrer. O
Homem Pálido, no trem que seguia ao Destino, fazia com que seu prisioneiro
visse as coisas mais árduas que cercavam sua vida -direta e indiretamente-, com
intuito de fazer seu bote afundar. E estava conseguindo. Iria conseguir. A lua
brilhou no céu, e o calor voltou. Do mar, golfinhos pulavam e nadavam. Eles
também iriam morrer. Tudo iria morrer.



  Mas não hoje. Hoje não.



  Um relâmpago clareou o céu,
ofuscando a luz das estrelas. A chuva e o vento voltaram, e a múmia do Menino
voltou a remar. Estava deveras perto de seu Destino, e não iria parar ali. O
que fora o inferno de muitos, a lâmina que corta ou o fogo que queima, a
pólvora que explode e o fio da vida que se rompe(que sempre se rompe) foi a
salvação do Menino. O menino cresceu. A visão do lírio o fez sentir o único
sentimento que lhe salvaria de seu Inferno, de sua morte iminente. O barco
estava furado, e a água começava a entrar. O pensamento do homem preto foi o
seguinte: "É tarde de mais, garoto."


16


  Não
era.


17


  Levanto-me
e me encaminho lentamente para o lírio no chão. Aquele era o sétimo lírio que
vi em minha vida. Aquele era o único que não vi quando deveria ter visto, o
lírio de Vovô. Apanho o lírio e o esmago, com raiva pairando sobre mim. Raiva.
Sento na cama, e levo a caixa ao meu colo. O que vejo são lembranças mortas. Um
porta retrato mostra uma cerimônia de casamento, vejo meu pai e minha mãe, ele
de terno e ela de vestido(verde, não branco). As alianças douradas em seus
dedos. Vejo vovô em pé ao lado de minha mãe, e minha avó, tios e tias.



  (Futuramente,
meu pai me diria que eu estava a sete meses exatos de nascer, no dia que o
casamento ocorreu)



  Segurando
o porta retrato, abro-o e tiro a foto, guardo-a comigo. Não importa o que
aconteça, eu iria levar essa foto comigo.



  (Bravo, Menino)



  De dentro da caixa tiro
também um boné. "Natal de 2000. O nascimento de meu neto!". O natal
de 2000 foi, sem dúvida alguma,  a data
mais comentada por minha família durante anos. Coloco-o na cabeça.



  Tiro
uma caixinha de som, não uma das convencionais, com bailarinas. Essa tinha um
espelho. A música começou a tocar quando abri a caixinha. Era música clássica,
a Quinta Sinfonia de Beethoven. Meu pai adorava aquela música.



  (E a música acalmava o avô no meio das crises)



  Olho o
espelho, enquanto a música toca, esplêndida. O que vejo no espelho fez com que
eu quase soltasse a caixinha no chão. Quase. Vi meu rosto multilado, cortado e
roxo. O Homem Pálido me olhava caído no chão e ria, gargalhava. Com um estilete
e um maçarico nas mãos. O homem de negro ativou a chama do maçarico, e começou
a se agachar. A chama nas mãos, próxima a minha face... Sinto o calor,
chamuscando minha pele...



  O
espelho quebra, a música continua tocando, agora como trilha sonora, junto com
uma risada amarga que começa a vir de longe.
  (Ele não tinha como leva a caixinha junto, mas levaria a música na
alma.)



  A mesma
voz que me salvou na sala de cirurgia me diz para correr.



  Eu
corro.


18


  Corro
pelo mesmo corredor pelo qual passei quando criança, e o sujeito(agora com capa
branca, parecendo apenas um clarão branco no cenário) atrás de mim. Ele vem
numa fúria e velocidade inacreditável, e vai me alcançar logo. Preciso
encontrar um jeito de sair daqui, preciso encontrar um jeito. Preciso.



  Desço a
escada sem tropeçar, sem parar pra nada. Passo pela maternidade tão rápido que
nem sequer paro para respirar. E então estou na pediatria. No mesmo lugar que
fiquei após o pequeno acidente com minha perna. Sei que devo sair daquele
hospital horrível, mas entro na sala onde minha mãe morreu. Onde aquele
menininha loira morreu. Ali está escuro, o silencio domina a sala. Aquele
recinto era um universo a parte, e eu estava ali. Entro e fecho os olhos. Me
sento no chão(frio) e espero. A espera é mais difícil que a morte ou a dor. É
uma tortura quase inigualável: esperar por algo ruim que vai evidentemente
acontecer.



  Meu
perseguidor chega segundos após eu ter me sentado. Não o vejo, apenas o ouço.
Sinto-o atrás de mim, ele me olha. Mas eu vejo apenas o escuro.



  - Quem
é você? -eu pergunto, não de fato curioso. Mas quero saber o que era aquilo,
que me fez passar pelos piores momentos de minha vida.



  - Eu
sou o frio, Menino. Sou o medo. Sou a personificação do mal. A antítese da luz.
Sou um paradoxo. Sou a expressão do sobrenatural, que nasceu do medo dos
humanos. Vivo a presentear o mundo, Moleque. Vivo a matar os que estão nesse
mundo de trevas, a cortar cordões e tecer panos funerários. Sou parte de você.



  A
resposta, não mais que inesperada, fez o Menino estremecer ali. O Homem pálido,
então, era a própria humanidade. A serpente que engole sua cauda.



  -
Porque faz isso?



  - Todos
fazem. Pessoas morrem diariamente. Seja por fome, por sede, por doenças. O
mundo não tem mais amor. Não tem mais piedade.



  - Você
está errado. -digo, inseguro, em tom de poucos amigos.



  (O que
era verdade)



  Mas eu
sei que ainda existe amor no mundo, que ainda existe vida, e luz. Sei que o mal
cresce todo dia, e a morte se apresenta em mais lares. Mas sei que ainda existe
salvação.



  - Deixe
eu lhe mostrar uma coisa, senhor. - Levantei-me e mostrei a foto, com a mão que
estava torcida, mas nesse ponto a dor era nada mais que insignificante. - Veja
isso.



  O Homem
de capa branca olhou. Ele fez que sim com a cabeça.



  -
Matei-os quase todos. O que quer de mim, criança? - O homem sabia o que ele
queria. - Chegou longe e lutou bravamente até aqui. Foi mais corajoso que
muitos no mundo.



  Fui?
Fui mesmo? Também tive sorte...



  - Quero
piedade. Se o mundo está escasso disso, dê o exemplo. - Choro. - Se o mundo
está ruim, mude-o.



  Mas eu
sei que era impossível que o Homem Pálido mudasse o mundo. Ele era, afinal, um
reflexo do mundo. A parte conturbada. A parte ruim, perturbada.



  A
verdade é tão simples que chega a doer, que chega a queimar. Precisamos nós
mesmos mudar o mundo, e assim O Homem Pálido poderia deixar se ser pálido. Ele
representa a nós, e somos nossos próprios terrores.



  O homem
sorriu, dessa vez não de modo macabro, e disse:



  -Exatamente.
O mundo precisa mudar, mas eu não posso fazê-lo. Mas posso fazer algo por você.
- Ele me contou seu acordo. Eu fiz que sim com a cabeça.



  - Vai
cumprir seu acordo, senhor?



  - Se
cumprir o seu, irei. - Disse-me ele, estendendo o lírio. Apanho o lírio,
cheiro-o, seguro-o em minha mão machucada.



  O
sujeito virou as costas e saiu andando, deixou a capa cair, e surgiram asas. Um
anjo da morte. Um anjo macabro, mas era apenas o nosso espelho. Não mais que
isso.



  Piedade
não é amor, eu sei. Ele me alertou antes quando me disse o acordo que tinha em
mente. Mas piedade já poderia mudar muito. Eu cumpri meu acordo: fiz o possível
parar melhorar o meio no qual eu vivo, fiz o possível para viver melhor, para
ser justo, para ser bom. Daquele dia em diante, meus medos foram quase todos
embora. Quase. O lírio foi plantado acima do túmulo de meu avô, e floresceu.
Anos mais tarde plantei um no hospital também, e em meu jardim. E na escola
onde estudei quando criança.



  Mesmo
que singelos, os lírios estavam lá. E o Homem Pálido nunca realmente me saiu da
cabeça, ele estava lá, como um aviso. Um aviso bom e preocupante. Ele me disse
que somente a humanidade pode mudar o mundo, mudando a si mesma. Ele estava
certo.



  Nos
anos que se passaram até minha morte, descobri que nos apegamos mais a vida
quando estamos perto da morte. Por isso vivi intensamente após conhecer aquela
espécie de anjo incrivelmente pálida. Ele disse que a morte é um presente:
libertação. E isso também era verdade.



  Não
importa o quanto o tempo passe, ou o que façamos, sempre vai existir o bem e o
mal. Mas isso não importa, não é tudo ou nada. Bom ou ruim. Preto ou branco.



  Existe
bem e mal dentro de cada um, tal como existem monstros dentro de cada um.
Devemos fazer o melhor para que o monstro não vença, que o bom(ou pelo menos o
que é justo) predomine. Aprendi que a vida é uma só, então devemos fazer o
melhor ao nosso alcance.



  E assim
saberemos que os outros o farão também. Piedade não é amor. Mas para um mundo
escuro, uma fagulha de fogo é uma estrela, que brilha infinitamente em seu esplendor.
Eu nunca mais vi um lírio morto. A caixinha de som me foi enviada pelo correio
alguns dias após o acordo, o espelho estava agora concertado.



  No
envelope que chegou junto da caixa não havia nome algum escrito. E eu entendi a
mensagem:



  Poderia
ser destinada a qualquer um.


Miguel Bernardi,
17/12/2013.


  Olá
você, querido leitor que chegou até aqui. Este conto teve seu inicio no dia
10/12/2013, e foi terminado no dia 17/12/13. Foi uma árdua luta, escrevê-lo,
mas a sensação de dever cumprido fez-se maior. Apesar da dificuldade, me
diverti deveras enquanto o escrevia, e espero que tenha se divertido lendo-o.



  Assim,
meu dever foi realmente cumprido.


Miguel Bernardi,
18/12/2013.

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Cópia, distribuição e execução são autorizadas desde que citados os créditos.

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