Rodolfo pegou o ônibus na Rodoviária velha de Tobias Barreto no estado de Sergipe. O engenheiro civil que fiscalizava as obras do Governo Federal estava indo para Olindina no estado da Bahia. Naquele município baiano, o Governo Federal tinha muito dinheiro investido no projeto de construção de casas populares. Rodolfo, um rapaz de 43 anos, era um dos engenheiros responsável pelo bom andar da carruagem. O ônibus estava nem muito cheio, nem muito vazio, na verdade, como diz o povo dos Campos, estava ‘meiado’. As pessoas conversavam as trivialidades do dia a dia. A prosa seguia junto com o ônibus rumo a Olindina.
Rodolfo pensava em Mônica, sua filha mais velha; a moça se envolvera com álcool, e desde então sua vida desandou. Isso fazia o jovem engenheiro perder o foco de seu trabalho, pois, a preocupação com a jovem moça, muitas vezes, falava mais alto. “Meu Deus, o que será dela se ela não parar?” “Por que isso veio sobre nós?” Essas eram as perguntas que o engenheiro fazia quando o foco de seu trabalho cedia lugar ao rosto meigo e branco de sua amada filha.
O ônibus segue seu curso atravessando mansamente o Povoado “Lagoa Redonda”. Rodolfo olha de sua janela e vê as pessoas nas ruas; todos seguiam suas vidas; todos estavam ocupados, todos faziam alguma coisa. As barracas de carne do sol, cheias de gente, estavam dispostas nas calçadas como de costume; os vendedores ambulantes gritavam muito entusiasmados: “Olha o picolé” ou “Compre taiucaroba - o melhor remédio para a espinhela caída”. A Lagoa Redonda é o começo da viagem para Olindina, uma estrada que tem muitas estórias para contar. Próximo à curva do “S”, Rodolfo abre seu caderno de apontamentos e revisa seus planos para Olindina. Ele era um homem muito metódico; Rodolfo gostava de cada coisa em seu lugar e no tempo certo. O carro desce a ladeira da curva com os freios gritando, uma senhora magra e alta que segurava uma criança com uma das mãos e com a outra um cesto de verduras tenta se equilibrar. Por pouco a pobre mulher não saía pela janela da condução. No pé da ladeira o carro para, a dita senhora desce, junto com ela outras duas mulheres. Uma senhora de seus quarenta anos cuja barriga era imensa o que dificultava seu transito pelo veículo grita do fundo da condução: “Pera aí, vou descer também!” A mulher se espreme para conseguir chegar até a porta. “Isso é ridículo, esses carros são muito estreitos”. Resmungou a mulher durante o seu percurso horrendo. O ônibus ao chegar a Itapicuru estava quase vazio. O motorista esperou mais de meia hora na tentativa de conseguir mais passageiros, o que irritou a Rodolfo: “Moço, eu tenho horário para cumprir, paciência!” O motorista desceu a ladeira da Matriz da cidade do Barão de Jeremoabo e toma a direção da estrada que vai para Olindina. O veículo vazio irritava o motorista. Quando este avistava alguém no caminho buzinava para chamar a atenção, todavia, ninguém mais subiu no estranho carro. Em pouco tempo restou apenas Rodolfo e seus pensamentos que se alternavam entre o trabalho e a face de sua amada filha Mônica. “Ah, minha filha se você, pelo menos, me deixasse te internar!” Rodolfo não percebeu quando o carro parou. O sono o pegou no meio da estrada. O veículo estava vazio, o motorista, certamente, havia saído para falar com alguém. Foi o que pensou o engenheiro.
Rodolfo desceu do carro e procurou uma condução para o centro da cidade. Não havia ninguém na Rodoviária. As lojas estavam abertas, mas, as pessoas haviam sumido. “Estranho” disse Rodolfo. O moço tomou a direção do centro comercial da pequena cidade baiana. Desceu a pé. Não percebeu, mas, durante o caminho até o centro comercial não havia uma alma no mundo. A cidade estava como se fosse todo dia: Lojas, farmácias, mercadinhos, carros de som, bancos, tudo estava funcionando, mas, não havia uma só criatura naquele lugar. “Muito estranho!” “Pera aí, o que é isso?” Pensou Rodolfo – “A cidade está vazia!” Rodolfo foi ao banco principal do lugar. A agência estava vazia, o ar condicionado fazia uma zoada irritante, os computadores estavam funcionando, contudo, seus operadores haviam sumido. Rodolfo liga para sua casa. O telefone não atende. “Mas, que coisa é essa?” Perguntou novamente o engenheiro.
O calor lá fora era forte, Rodolfo decide ficar um pouco na agência para ver se alguém aparece. Tomou café, fez xixi, e depois voltou para a poltrona mais próxima do ar condicionado, embora barulhento. As horas passam, e com ela se foi a paciência do rapaz. “Isso é um absurdo, como deixam uma agencia bancária sem ninguém?” Rodolfo retorna para sua poltrona perto do ar condicionado e espera mais um pouco. Os minutos se transformam em horas, e nada. Definitivamente, o lugar estava abandonado. “E o cofre?” Se alguém roubar o dinheiro? Essas foram às indagações do rapaz, no entanto, nenhuma delas foi respondida.
O engenheiro civil andou por toda a cidade, não viu uma alma viva. A prefeitura estava aberta, todas as secretarias estavam abertas, mas, nada de um ser vivo. Apenas pombos nas calçadas; até os cachorros e gatos haviam sumido. “Mas, mas, o que é isso?” Agora, a agonia do engenheiro se torna crônica. Ele teve a certeza que não queria ter – estava só naquele lugar. Rodolfo entrou numa lanchonete, abriu o freezer, pegou uma cerveja, e a bebeu comendo uma coxinha – “Pelo menos tem uma vantagem, não preciso pagar a conta”. “Sim, o motorista, o motorista do ônibus deve estar em algum lugar!” Rodolfo caminhou a cidade gritando bem alto: “Motorista”.
Próximo ao cemitério, Rodolfo encontra o motorista, ou o que restou dele. O homem era somente ossos dentro de uma poça fétida de sangue coalhado. Alguns ratos passeavam tranquilamente pela a avenida principal do lugar santo. Era um guabiru muito arrogante cujo bigode podia ser visto de longe. “Será que os ratos comeram a todos?” Tão logo a pergunta é feita um grupo de ratazanas escondem os restos do motorista dentro do cemitério onde havia uma cova aberta a espera do finado. “Mas, mas, como?”
- Sim, moço. O que você vê é o que você vê. Disse um ratinho pequeno que subira o cruzeiro da calunga pequena.
- Desculpe-me, devo estar delirando. Devo voltar ao banco quem sabe alguém esteja lá agora.
- Não perca seu tempo Rodolfo! Falou forte o ratinho do cruzeiro.
- Como sabe o meu nome?
- Ora doutor, quem não te conhece aqui em Olindina! Até os ratos sabem o que fazes por essas terras. Será verdade o comentário do povo da praça, digo, os finados que se reuniam lá?
- O que? Como? Não entendi!
- Sua pessoa se deixou vender no projeto da caixa d’água?
- Que caixa d’água? Alias, nem sei o porquê de minha pessoa está falando com um rato.
- Quando os donos saem, os ratos tomam de conta, não é esse o ditado idiota de vocês?
- Deve haver alguma explicação coerente. Devo estar sonhando, é isso, quando acordar, tudo estará como sempre foi, ou melhor, como deve ser. O rato calunga deu uma cambalhota, desceu do cruzeiro e parou sobre um túmulo.
- Aqui está enterrada a finada Cipriana. Mulher imbecil, odiosa toda. Quando ela morreu, os ratos fizeram uma festa no esgoto que cai no rio aqui próximo. Você nem pode imaginar a alegria de sabermos que esse monte de carne está apodrecendo aqui embaixo. Não mais ratoeiras, amigo. São muito engraçados vocês humanos. Vocês comem o melhor e nós as sobras. Para nós sobra o lixo, o esgoto. As vacas gordas são para vocês. Os ossos ficam para os ratos roerem. Tudo isso porque somos roedores; é isso, amigo doutor?
- Não eu não acredito em nada disso! Deve ser uma alucinação! Eu, definitivamente, não estou falando com ratos, isso não é possível!
- Sim, amigo você está sim! Não duvide! Os ratos estão no controle agora. Quando o calunga disse isso surgiu dentre as covas uma multidão de roedores de diferentes espécies. Era rato que não se podia contar. Eles estavam enfurecidos. Um rato grande e forte de cor negra se aproxima do engenheiro. Range os dentes exibindo sua dentição perfeita, seus pelos pareciam espinhos.
- Quer dizer que o coroa ainda não sabe quem manda aqui? Somos nós! Bradou o rato com todas as forças de seu pulmão. Os demais ratos começaram a dançar funk. A ratarada caiu em delírio. Uma ratinha até simpática piscou um dos seus pequenos olhos para o engenheiro. A turma dançava sem parar, o engenheiro aproveitou o momento para tentar uma fuga do lugar. Quando Rodolfo se aproxima do portão principal do cemitério este estava tomado de ratos que gritavam eufóricos: “Comida!” Rodolfo para e diz consigo: “Quando eu vou acordar?” Mal parou seu pensamento e sentiu uma pancada forte na cabeça. Rodolfo cai ao lado de uma cova aberta. Quando ele acordou estava coberto de ratos.

As dores agudas no corpo eram intensas, eram como mordidas finas que ora ficavam fortes, ora se atenuavam. O engenheiro, de vez em quando, ouvia o calunga dizer: “Calma pessoal, vão com calma, esse é filé”. Lentamente, Rodolfo estava sendo consumido pelos ratos, contudo, sua cabeça havia sido poupada. A dor, o calor do sol em seu rosto o fez desmaiar. A mente de Rodolfo se volta para Aracaju onde estava Mônica sua filha. Sua pequena como ele dizia. Ele via a moça sã, sem nenhum sintoma de embriaguez, ela falava sem delírios, e dizia ao seu pai o quanto o amava.
- Pai, esse ano vou fazer o vestibular.
- Minha filha como me alegro em te ver assim.
- Pai, mainha me disse que o senhor vai trabalhar em Aracaju, somente em Aracaju, é verdade?
- Sim, minha filha. Agora não mais viagens. Estarei sempre por perto. Continue assim filha, papai te ama.
- Pai, tudo passou, agora sei o que quero de minha vida.
- Que bom querida! Finalmente, você encontrou o rumo. E o álcool, não sente mais a compulsão?
- Não pai. Hoje acordei e vi o quanto é bom estar sóbria. Quero lutar e ser como senhor.
Os ratos continuavam a devorar o engenheiro, um rato cinza, do tipo ratazana mordeu desavisadamente uma veia de Rodolfo. O sangue esguichou rapidamente. O calunga repreendeu o colega dizendo-lhe que gente de primeira classe deve morrer com respeito. Rodolfo desacordado nada mais sentia; nem dor, nem medo. Apenas a imagem de sua filha estava em sua mente. Ela corria num campo verde cheio de rosas e flores variadas. Ele podia até sentir o cheiro da natureza viva. Sua filha representava muito para ele.
- Pai, o bilhete que mamãe achou, fui eu quem escondeu. O senhor não devia ter feito aquilo.
- Aquilo o que?
- Ora, pai, eu tenho vergonha do senhor, não vou dizer.
- Diga filha! É bom que entre nós não haja mais mistérios.
- Eu sei que a filha de dona Cipriana que frequentava aqui é sua filha. Eu sei que o senhor teve um caso com ela. Rodolfo ficou muito nervoso, mas, preferiu confessar seu segredo de uma vez por todas: “Mônica, quando somos adultos escondemos dos filhos as coisas para lhes poupar os nervos; esperamos que eles cresçam para que sendo capazes de entender a vida possam saber a verdade dos adultos. Sim, minha filha, eu amei Cipriana. Mas isso foi antes de conhecer sua mãe. Na verdade, hoje eu amo tua mãe, mas, no início as coisas foram muitos difíceis. Eu casei com sua mãe por causa do curso de engenharia, sem a ajuda dela jamais eu teria me formado. Logo depois Cipriana engravidou, eu a pedi para esconder as coisas até tudo clarear. Sua mãe com o tempo terminou sabendo de tudo. Esse foi o nosso problema e o nosso segredo por anos. Deixei Cipriana e nunca mais a vi, isso eu prometo e juro perante Deus que é verdade! Tua mãe nunca me perdoou; essa é a causa da falência de nossa relação. Quero te dizer que te amo e amo também sua mãe, mas, a convivência entre nós se tornou muito difícil, contudo, estamos tentando ser felizes”. Após o pai abrir o coração, Mônica sai cantando no belo jardim da vidência do engenheiro. A menina desaparece de seus olhos entre girassóis e margaridas.
- Doutor!
- Hum!
- Chegamos.
- Tá. Rodolfo desceu do ônibus na Rodoviária de Olindina. O sol estava perto do meio dia. O povo passava para todos os lados. Era dia de feira, havia gente de todo lugar. No centro da cidade, perto da agencia bancária, Rodolfo encontra um telefone público e liga para casa.
- Alô!
- Meu amor como está Mônica?
- Rodolfo, ela ainda não chegou. Saiu ontem com o namorado e até agora nada. Acho que ela bebeu novamente.
- Tá bom. Vamos entregar nas mãos de Deus.
- E você? Como foi a viagem? Rodolfo procura palavras para dizer, passa um lenço na testa e cospe no chão. Um ratinho calunga safado passa correndo bem diante de seus olhos, e se esconde no bueiro da praça.
- Meu amor, hoje no Brasil, as coisas estão entregues aos ratos.
- É mesmo, meu bem, sabia que tem mais um escândalo em Brasília?
- É isso, esse país tá de cabeça para baixo.
- É mesmo querido! Os dois conversaram por alguns minutos. Depois o doutor Rodolfo seguiu caminho até a prefeitura...