Observou. Demoraram
alguns minutos até que o motorista descesse.



Um homem, com os cabelos castanhos,
cortados muito curtos, quase que completamente raspados desceu de uma
caminhonete, modelo D20 azul. Era bem cuidada, mas tinha um dos faróis
dianteiros quebrados. O homem usava uma regata branca, uma calça jeans escura e
uma jaqueta de couro, não dessas no estilo roqueiro, mas uma jaqueta de couro
marrom, bastante desbotado e com algumas manchas escuras. O mesmo podia dizer
dos sapatos, um par de coturnos da mesma corda da jaqueta, porém mais surrados.
 Assim que desceu, checou a luz
dianteira. Coçou a barba rala e mal feita e voltou para o carro. Ficou um tempo
no interior do veículo e então saiu com um saco de lixo preto nas mãos. O
embrulho não parecia leve, mas ele não teve dificuldade para carregá-lo.
Levou-o até uma das lixeiras ao lado da placa do posto e colocou-o com cuidado
dentro. Então, deu um nó no saco e assim que terminou voltou a tampar a lata de
metal. Voltou para o carro, tirou a chave da ignição, fechou a porta e caminhou
até o armazém. Novamente os sinos tocaram, demorou até que a idosa parecesse.
Enquanto esperava ele apanhou uma garrafa de uísque da prateleira ao lado do
balcão e aguardou segurando-a na mão esquerda. A velha chegou.



- Posso ajudar? – Perguntou.

- Sim. Quero um quarto e algo para
comer.



- Você tem dinheiro? – Ela perguntou
desconfiada.



- Sim. – Ele respondeu calmamente.



- Esta bem. O que você quer comer?



- Qualquer coisa. – Ele disse
olhando para a mulher na mesa.



- Desculpe, não servimos isso. – A
velha respondeu em tom debochado.



- Pode ser o mesmo que ela. – Falou
apontando com o queixo para a garota.



- Certo. E para beber? – Falou
olhando para a garrafa em sua mão.



- Pode ser água. O uísque eu vou
levar. – Falou largando uma nota de 50 no balcão.



A velha pareceu não se importar com
o troco.



- Pode sentar. Eu já trago o pedido.
– Falou dirigindo-se à cozinha.



O homem caminhou até as mesas e
sentou ao lado da mulher. Tirou a jaqueta e largou-a nas costas da cadeira.
Tirou um maço de cigarros do bolso direito da calça e um isqueiro do esquerdo.
Acendeu, colocou-o na boca, deu uma pitada e largou: o isqueiro, o maço e
também as chaves do carro sobre a mesa. Então, passou a mão sobre os poucos
cabelos que tinha, juntou-as atrás da cabeça e olhou para o teto alguns
instantes. Depois se virou para a companheira e disse:



- Indo para onde?



- Atlanta. – Ela respondeu sem
desviar os olhos do jornal.



- Ainda esta bem longe.



- Pois é. – Concordou.



Ela não era uma garota mal educada.
Mas um estranho, perguntando o seu destino às duas da manhã? É o tipo de
situação em que qualquer um ficaria nervoso. O homem, que aparentava ter não
mais do que 35 anos, tinha cara de mal, mas não parecia má pessoa.



- Joe, prazer. – Identificou-se.



- Oi, eu sou Kate. – Ela deu um
sorriso tímido.



- Sou daqui mesmo. – Ele continuou.
– Bem, não daqui exatamente, da cidade próxima daqui, fica a uns 5 quilômetros atrás.
Você deve ter passado por lá.



- Talvez. Ela respondeu. – Eu não
conheço nada aqui. Só venho por essas estradas porque são melhores que a
rodovia.

- É um gosto daqui. É bem monótono.



A velha saiu da cozinha. Largou o
prato e o copo na mesa e sentou em uma cadeira junto ao balcão.



- Vocês não fazem o tipo
hospitaleiro. – Kate murmurou.



- Ela consegue ser mais fria que
essa lasanha. – John falou espetando o garfo na refeição. – Acho que perdi a
fome.



Ele levantou, apanhou seus pertences
e pegou a chave do quarto com a dona do estabelecimento.



- Boa noite. – Disse para Kate
enquanto saia.



Saiu tão rápido que ela nem teve
tempo de responder.



Assim que terminou de comer, pagou
pela comida e também por um pernoite. Recebeu a chave do quarto, que indicava
ser o número 4. Saiu. Pegou a mala que levava no carro e seguiu para o quarto.
O número estava marcado com tinta branca, mas quase não aparecia. Destrancou a
porta e entrou. Não havia quase nada no quarto, tinha: uma cama, um abajur, um
criado mudo, um tapete, cortinas sujas na janela e um minúsculo banheiro. O
espelho estava rachado e já enferrujava. Havia uma banheira, com algumas folhas
que caíram janela adentro, já que estava aberta. O cômodo parecia não ser usado
há anos, e tinha um ar sombrio.



Era outubro o fazia um intenso frio.
Na cama, estavam apenas um lençol, dois travesseiros e um cobertor cor de
creme. Tudo naquele lugar fedia a mofo. E ainda por cima começara a chover. Um horrível
temporal. Kate ouvia as folhas dos pinheiros, plantados ao redor do posto,
balançarem. Aquilo deixava o lugar mais sombrio.



Naquela noite não conseguir se
aquecer, nem mesmo pregou os olhos. Passou a noite em claro, deitada sobre o
leito mofado. Passou as longas horas da noite ouvindo a chuva cair e olhando
para o bolor no papel de parede.

CONTINUA...