A fofoca foi tomando vulto, sorrateira, esgueirando-se disfarçadamente pelas frestas, aproveitando-se das sombras da noite sem luar, invadindo por completo apartamentos de todos os andares, desrespeitando porta lacrada ou sono profundo, não se incomodando com miados de bichanos, latidos de cachorros ou qualquer tipo de assombração e, avolumando-se por completo, deu continuidade a sua terrível armação, até que, ofegante, ainda pela surdina, transbordante, chegou ao último prédio do velho e límpido conjunto, o que ficava localizado bem no alto do mirante.

Saído de uma pequena, paupérrima, rude e causticante cidade de interior, perdida bem no meio do grotão da Bahia, testosterona em ebulição na efervescência da puberdade, em busca de aventuras e privacidade, coisa que sua diminuta rua não oferecia – pois, em mexericos aferventava –, tinha plena convicção que a verticalização da moradia na capital da magia iria reduzir os riscos e só traria a si, pacotes enormes de alegria.

E assim foi. Novas e crescentes amizades acontecendo, mal chegado bom emprego arranjou, roupas novas comprou e nem bem a fragrância do perfume assentava, já curtia novo amor em finais de semana proveitosos, regados a bebidas e estimulantes, noites cheias de luzes em pistas de boates alucinantes e, mal acordava, lá estava, esticado ao sol em boas e nobres praias do litoral norte, bronzeando-se, a resenhar pelo celular, mostrando o belo porte, escancarando o sorriso em prosa, mal o olhar denunciava o que estava a relembrar.

Nesses cinco anos e meio de experiências mil, aprendizados e regozijos, pouca coisa de mal aconteceu, a recordar do interior apenas algumas dores, quando a saudosa mãe adoeceu e seu avô querido, já velhinho e dependente, quase demente, faleceu. A compensar toda essa desventura, já formado naquilo que mais simpatizava, carro novo e luxuoso a ampliar na vida as aventuras, fez a festança ao comemorar a terceira promoção – já que o amado avô de herança nada deixou –, a fazer mais da metade do gordo salário se acomodar em deleite na conta da poupança.

Morava onde a classe era de média para baixo e a cada dia, seu conceito ainda mais alto, simpatizado por todos de todas as idades, numa polidez sem igual onde, mal seu carrão apontava, olhares de satisfação emolduravam toda a barraca de Redonda, onde toda noite de quinta fazia festança, assava uma carne e pagava muitas rodadas. No conjunto muitas garotas se assanhavam, futuros sogros se apresentavam, mas o playboy, em sua franca distinção, a todos tratava com respeito e devoção. O único dissabor foi quando avisou, sem preâmbulos e em plena quinta, numa daquelas festas de arromba, que dentro de três meses se mudaria para prédio de rico em área de nobres, onde um belíssimo dois quartos tinha adquirido e, a reduzir tanta tristeza, não iria desfazer-se da antiga moradia e nunca, o conjunto, do coração, libertaria.

Faltavam pouco mais de quinze dias quando se descobriu, através de facas pontiagudas em línguas afiadas, que o estopim plantado há alguns meses pela inteligência da civil tinha chegado ao barril, produzindo uma impiedosa explosão deixando à mostra toda a atividade do espertalhão, o qual ficava enchendo de brilho toda a alta sociedade da região. A faculdade nunca existiu nada havia de formação e até já sabemos quem era seu justo e boníssimo patrão. Fica de resto essa história a mostrar a todos os jovens, antes de todo e qualquer risco, a se decidir pela razão.