Seja feliz

13 de Janeiro de 2014 Priscila Pereira Contos 779

    Eduardo olhava para o túmulo de sua mãe e não podia conter as
lágrimas, ainda era muito recente, machucava pensar em como ela se foi
inesperadamente e tão jovem. Morava sozinho agora, não tinha ainda se
acostumado com a solidão, não tinha sido feito para ela. Detestava-a.
Mas a solidão agora era sua única companhia.     Sentiu uma gotinha
de chuva se misturar com suas lágrimas, olhou para cima e viu que uma
tempestade se formava. Fechou mais o casaco que sempre usava e se
despediu mais uma vez de sua mãe. Afastou-se do túmulo enquanto uma
chuva forte começou a cair sobre sua cabeça, ele não ligou.   
 Chegou em casa encharcado e cansado. Vivia cansado agora, cansado de
não fazer nada, cansado da vida, da solidão. Sentia que sobrevivia e não
vivia realmente. Tentou lembrar-se da ultima vez que fora feliz. Não
conseguiu. Abriu a geladeira e lembrou-se que ainda não tinha feito
compras essa semana. Vazia. Estava com fome. Aproveitou que estava
molhado mesmo e saiu de novo. Naquela noite ia comer alguma coisa
decente.     A tempestade estava forte, ele amava a tempestade. O
caos o atraía, fazia-o perceber que existia caos no mundo além do que
estava dentro dele. Chegou a uma pequena lanchonete, sacudiu um pouco a
água de suas roupas e sentou-se a uma mesa bem no fundo. Estava tocando
uma música de que ele gostava, mas ele nem ouvia, não via nada ao seu
redor, só o que estava por dentro, em sua alma.     - O que vai querer?     Assustado, ele olha pra cima e vê um lindo par de olhos verdes, irritados com sua demora em responder.     - Um X-Tudo e um refrigerante.     - Hummm... Diz a garçonete anotando seu pedido. 
   Enquanto ela escreve Eduardo admira sua pele branca com sardas, seus
cabelos ruivos presos num rabo de cavalo e sua pequena estatura.
Parecia quase uma criança ainda, mas em seus olhos, agora o encarando,
via-se uma mulher com uma força e um gênio incríveis. Não queria se
meter com ela.     Comeu devagar. Começou aos poucos a prestar
atenção ao ambiente, ouviu trovões, viu pessoas entrando tão molhadas
quanto ele. Um casal de namorados brigava na mesa ao lado, a garçonete
olhava para ele.     A garçonete olha para ele. Parou de devanear e
olhou firme para ela. Ela não desviou o olhar, ficaram os dois medindo
forças, ele poderia fazer isso à noite toda, ela desviou o olhar.
Levantou-se e foi pagar, ela não olhou para ele, pegou o dinheiro e
junto com o troco veio um bilhete. Ele colocou tudo no bolso de dentro
do casaco e foi embora sem olhar para trás.     Estava ansioso por
chegar em casa e poder ler o bilhete, não imaginava ser de amor, não,
com certeza não seria. O olhar dela mais parecia ser de irritação,
aversão e talvez curiosidade. Andou depressa e nem reparou que não
chovia mais. Chegou, abriu e fechou rápido o portão e foi correndo para a
sala, sentou-se e tirou o papel, agora úmido do bolso.     Abriu o bilhete, estava meio manchado, mas dava para ler perfeitamente.                  “O que você quer aqui e como me achou?” 
   Ficou olhando atônito para o papel, não estava entendendo nada.
Nunca tinha visto essa moça antes. Decerto tinha confundido-o com outra
pessoa ou era maluca. Pensou sobre o bilhete a noite toda, não conseguia
dormir mesmo a noite a um bom tempo, pelo menos hoje tinha em quê
pensar.     Quando a lanchonete abriu Eduardo estava sentado num banco na praça em frente.Viu
os funcionários entrarem, começarem a limpeza, arrumarem as mesas,
começarem a atender os fregueses que chegavam e nada da moça misteriosa.
Estava quase desistindo.     - O que você está fazendo aqui?     - Pare de me assustar assim!     A moça sorriu e sentou-se ao seu lado. Era o sorriso mais lindo que já vira na vida, ficou hipnotizado olhando para ele.     - Como me achou?     - Você por acaso é maluca? Nunca te vi antes... 
   Ela olhou-o bem dentro dos olhos e parecia poder ler sua mente e
adivinhar sua alma. Ele sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Podia
sentir que ela realmente o conhecia, mas não tinha idéia de como nem de
onde. Tinha certeza de que nunca a encontrara antes.     - Fomos feitos um para o outro.     Falou a moça docemente.     -Você está começando a me assustar...     - Eu observei você de longe por anos. Mas você nunca me notou. Estava sempre ocupado demais para me notar.     - Do que você está falando? Realmente não te entendo.     Eduardo começava a achar que a moça poderia ser uma psicopata, ou até mesmo maluca, como previra. 
   - Tenho cuidado de você a vida toda, mas você não percebia que eu
estava aqui. Olhava para mim, mas não me via. Agora é diferente. Sua mãe
está no céu e você está sozinho. Sua alma está pronta agora, você vai
começar a viver.    Ele olhava para ela sem piscar, não parecia uma maluca, parecia dizer a verdade.     - Quem é você afinal?     - Aline, seu anjo da guarda!     Ainda sem entender, ele olha em seus olhos e se espanta, estava olhando para o nada. Ela havia sumido.     Em seu lugar no banco havia outro bilhete.                “Chegou a hora de você viver, seja feliz!” 
   Pegou o bilhete, colocou no bolso e sorriu, pela primeira vez desde
que sua mãe morrera. Balançou a cabeça e simplesmente ficou ali na
praça, sentindo o sol em sua pele, olhando a vida passar. Sentia-se
diferente. Certamente havia chegado a hora de viver. Levantou-se e foi
para casa, tinha muitas coisas para arrumar para o começo de sua vida
nova.


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