Contos Paulistanos - Vagante da trilha

17 de Janeiro de 2014 Pierre Souza e Lima Contos 944

Ele foi caminhando por uma estrada, cheia de pedras e capins rasteiros. A lua iluminava seu caminho, mas ele não se sentia seguro.

Estava tarde e o local por onde passava era sombrio aquela hora da noite.

Por todos os lados sons de sapos coaxando, e o clima se tornava cada vez mais frio. A estrada foi ficando ingrime e a medida que se afastava dos postes de eletricidade seu coração começava a aumentar a frequência, e assim adentrou a escuridão da trilha.

Ele sentia que algo o vigiava, a medida que a paranoia aumenta, suava frio, e aumentava a passada das pernas.

Qualquer barulho era motivo para puxar sua atenção.

 Uma vez ou outra um sapo aparecia pela estrada e ele se sentia aliviado por não ser alguém se esgueirando pelo mato.

O medo foi tomando conta de seu ser e ali era o ultimo local da face da terra onde queria estar. Mas estava ali cara a cara com seus temores.

A lua  foi coberta por uma nuvem, e ele não conseguia ver um palmo a sua frente, o que restava era apenas andar de cabeça baixa procurando pela trilha para não se perder. O celular ajudava a iluminar o caminho, mas resolveu guardar bateria para caso precisasse em outros pontos mais escuros.

Cravado três da manhã ele continuava em sua caminhada, metade do caminho já havia sido percorrido, mas ainda não se sentia seguro, talvez só se sentisse seguro dentro de sua casa e embaixo de seus cobertores.

Quanto mais andava, mais desejava estar em casa, e o caminho parecia se estender a medida que andava.

Fora checar as horas, e o relógio tinha travado as três e um. E assim seu coração gelou, já fazia mais de minutos que havia visto as horas e seu celular era de um modelo que raramente apresentava algum problema, vendo que agora perdera a noção do tempo e que ainda estava longe de casa, retomou sua caminhada aflito.

Tentou ligar para um amigo, mas não havia sinal naquele lugar. Ele sentia uma atmosfera fria lhe cobrindo o corpo inteiro, só restava o escuro e ele.

Quando olhava para trás e via alguma arvore, pensava ter alguém ali a espreita, quando voltava a olhar a frente se assustava com qualquer coisa que não estivesse em sua percepção, e fazia isto mais vezes do que imaginava.

Já estava ficando torturante para ele continuar a ir por ali, ficava se martirizando por não ter pego o outro caminho, esperava algo de ruim mais a frente. Sentia como se estivesse indo em direção ao perigo eminente, mas não tinha ideia do que poderia ser.

O céu se abriu e a lua voltou a brilhar, com ela veio as sombras das poucas arvores da trilha, ele se encolhia dentro de seu suéter e continuava a andar naquele breu.

Mas algo estava estranho, já fazia horas que ele estava a andar, e mesmo assim nunca chegava em seu destino. Ele percebeu isso tarde demais.

No exato momento em que ele percebera que estava a andar em círculos, um rapaz surgiu em seu caminho.

Um rapaz aparentemente triste, com expressões de como se estivesse prestes a chorar, vestido uma camiseta branca e um jeans e descalço. Ficou ali, imóvel. Com seu olhar triste para o rapaz que vinha.

Não conseguia respirar, seu coração queria sair pela boca, e teria saído se o pudesse.

Seu medo o deixou paralisado, não tinha o que fazer, não sabia quem era o rapaz, mas sentia um frio no ar que o não deixava se mexer.

O rapaz foi chegando mais perto, e o medo foi aumentando, seus batimentos estavam no limite.

Cada passo do rapaz era uma eternidade até ele, sentia como se o tempo estivesse parado.

O que vou fazer pensou consigo, como vou me defender, o que ele quer de mim.

A mais ou menos cinco passos do rapaz, ele conseguiu se mover e correu todo o caminho que havia percorrido.

Estava ofegante, estava assustado e mesmo que não soubesse, estava pálido de medo, ao chegar na rua por onde entrara na trilha sentou-se e vomitou, seu coração estava exausto pela descarga de adrenalina, e ele só queria ir para casa.

O caminho por onde voltou a seguir foi mais longo, mas para ele aparentava ser mais seguro, pois havia os postes de luz, e algumas pessoas a transitar na rua e pacientemente foi andando devagar e com cautela pelas ruas até chegar em casa. Quando chegou, não teve vontade nem ao menos de jantar, apenas estava extasiado por tamanho susto que levara.

Ficou refletindo, o que aquele rapaz de camiseta branca teria feito com ele se não tivesse corrido, o que teria acontecido.

Lembrando desses fatos, procurou o celular e nele marcavam ainda três e um.

Sentiu um mal estar e se revirou na cama, mas não conseguia dormir.

Foi até a sala de sua casa e ali ficou a observar o celular, e foi procurar ver as horas, para concertar aquilo, pois ainda estava acesa a lembrança do que acontecera.

Quando foi olhar as horas no relógio que ficava na estante, marcava três e um.

Ele começou a achar tudo aquilo estranho demais, e correu para seu quarto e trancou a porta.

Se sentou na cama e começou a lembrar do rosto do rapaz que ele havia visto, não conseguia tirar aquela imagem da cabeça, aquele rosto triste fixo a o encarar, depois a se aproximar dele.

Um calafrio percorreu seu corpo e ele se deitou e ficou ali imóvel, perplexo.

Os pelos de seu corpo se eriçaram, ele suou frio e ali estava no teto de seu quarto,o garoto da camiseta branca.

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