Durante uma das minhas habituais visitas sabatinas à Paloma, notei que ela estava diferente, seu olhar entusiasmado denunciava que algo importante lhe acontecera. Mal nos sentamos à mesa para um café com biscoitos e fui alvejada pela novidade. Paloma fizera uma nova amizade pela internet, o que de fato não tinha nada de extraordinário, então eu não entendi o porquê daquilo parecer tão importante para ela.
Quando minha amiga começou a me contar os detalhes, fiquei apreensiva, pois ela recebera um e-mail longo, com confidências, sonhos, projetos e questionamentos de um completo anônimo. Isso tudo, ao invés de assustar Paloma, estranhamente aguçou sua curiosidade, o que a fez mandar uma resposta à altura, cheia de sentimentalismo e expressando o desejo de uma amizade mais profunda.
Infelizmente Paloma me revelou sua aventura quando esta já havia se desenvolvido, evitando assim que minha desaprovação a impedisse de dar continuidade a sua empreitada, mas como boa amiga, e com um sentimento maternal, precisei perguntar ao menos se se tratava de homem ou mulher, se havia a possibilidade de ser alguém conhecido, e alertá-la sobre os perigos de se contar segredos a estranhos. A resposta foi clara, ela não tinha nenhuma ideia sobre a identidade da pessoa, apesar de conhecer seus sonhos mais íntimos, o que, a meu ver, era perigoso e desprovido de senso prático.
O que mais me preocupava era que apenas com base na troca de e-mails, Paloma estava convencida que aquela pessoa era sua alma gêmea. Aquela amizade começava a se tornar uma obsessão. Paloma vivia em função de receber uma mensagem a cada manhã e, ao passar de alguns meses, ela afirmava conhecer a alma, os sentimentos e os pensamentos mais profundos de seu correspondente, embora ainda não soubesse nada sobre sua identidade.
Apesar de ser sozinha na vida; seus pais haviam morrido recentemente em um acidente de carro; Paloma era feliz, mas depois de iniciar essa amizade, a vida e a rotina dela foram alteradas, passava os dias sozinha, não saía mais de casa, não queria ver os amigos. Depois de muita insistência ela aceitou receber-me um dia e desabafou, disse ter momentos de depressão e euforia, tinha dificuldades para dormir e se alimentar. Sugeri leva-la a um médico, o que ela recusou veementemente.
Contara-me que ultimamente não suportava mais o fato de ignorar a identidade da pessoa que sabia tanto sobre sua vida e em relação a qual sentia como se fossem um só. Passara muito tempo pensando e havia elaborado um plano, segundo ela, infalível. Rastrearia o IP do qual se originavam as mensagens. Um programa de hacker a ajudaria a encontrar o endereço do seu correspondente e, então ela iria até sua casa e se apresentaria, simples assim. A contra gosto apoiei sua ideia, pois ao menos haveria a possibilidade de resolver aquele mistério e quem sabe alcançar um pouco de paz.
No dia seguinte fui até a casa de Paloma para descobrir se o plano era mesmo infalível e encontrei-a desesperada. Mal consegui acalma-la a ponto de obter algumas respostas e, por alto, ela me contou que o endereço para o qual o programa apontava era o da sua própria casa. Ao ouvir a informação, também eu fiquei confusa e determinada a solucionar de uma vez por todas aquele mistério.
Fui para casa pensando em como ajudaria minha amiga, refleti a noite toda e não encontrei uma explicação plausível. Como sabia que ela precisava de apoio e de uma refeição caseira, voltei a sua casa levando-lhe um almoço de verdade. Quando cheguei, embora já passasse do meio dia, Paloma acabara de acordar e, ainda sonolenta, avisou-me que naquele dia iríamos desvendar o mistério, contou-me que deixara a webcam ligada a noite toda e que se alguém havia entrado em sua casa e usado o seu computador - era o que ela imaginava estar acontecendo, - naquele mesmo momento iríamos descobrir quem era.

A ideia pareceu-me absurda, mas fiquei feliz de estar junto dela naquele momento. Primeiro obriguei-a a comer um pouco, enquanto comia ela me contou que já havia lido a mensagem do dia, então era certo que se realmente as mensagens se originavam do seu próprio computador, naquele dia haveríamos de descobrir. Quando Paloma terminou a refeição, fomos até a sala onde ficava seu computador e ela começou a exibir a gravação.

Sugeri-lhe que adiantasse a filmagem até o ponto em que surgisse alguém, o que de fato eu duvidava que acontecesse. Paloma adiantou o vídeo em algumas horas e subitamente o parou. O filme, antes todo escuro pela falta de luz no ambiente, ficou claro de repente. Alguém acendera a luz da sala, nesse momento, ambas prendemos a respiração. Estávamos vidradas na tela do computador e, talvez por causa da nossa ansiedade, tudo parecia mover-se em câmera lenta. Um vulto atravessa a sala, arrasta a cadeira e senta-se em frente ao teclado.

Meu coração batia descompassado ao assistir a cena, olhei para Paloma e ela parecia petrificada, nem um único músculo de seu corpo se movia, até que ela começou a escorregar lentamente da cadeira. Recuperei rapidamente a presença de espírito e amparei-a antes que caísse ao chão, estapeei levemente seu rosto chamando-a pelo nome, Paloma havia desmaiado.

Acomodei-a o melhor que pude no piso e, ainda sem acreditar, voltei novamente meus olhos para o monitor, que agora revelava claramente o intruso. Nenhuma vez a pessoa olhara diretamente para a câmera, ainda assim não restavam dúvidas sobre sua identidade. Desliguei o computador e percebi que Paloma voltara à consciência, muda, parecia em estado de choque. Deixei-a quieta por um instante, mas ela logo se dirigiu a mim e pediu-me que a levasse a um médico. Paloma temia estar ficando louca.

Após uma breve consulta, o clínico a encaminhou a um especialista. Depois de muitos exames e uma longa conversa com Paloma, o psiquiatra deu seu diagnóstico. “Transtorno Dissociativo de Identidade”, mais conhecido como dupla personalidade. Quem aparecia no vídeo, de pijama, cabelo desgrenhado, olhos esgazeados e gestos inquietos era a própria Paloma. Todas as madrugadas, ela levantava-se, sentava-se ao computador e, após redigir e enviar mensagens a si mesma, voltava para a cama. O médico ainda explicou que a perda dos pais não havia sido totalmente superada e que, com a tragédia, seu cérebro liberara o transtorno como meio de escape para que a paciente sobrevivesse à dor da perda.

Hoje, depois de uma internação de dois anos e sem permissão para receber visitas, Paloma finalmente recebeu alta, vim busca-la. Enquanto dirigia meu carro até o hospital, não pude deixar de pensar sobre como seria este reencontro depois de tanto tempo. Como estaria a minha amiga, teria mudado? Lembro-me bem de seu constante ar de felicidade, da vontade de viver e do bom humor que emanavam dela e contagiavam todos que a rodeavam, e fico repleta de ternura ao lembrar todo o carinho que ela costumava demonstrar pelos amigos. Chego à recepção do hospital e uma senhora me informa que Paloma sairá em minutos. Aguardo e minha ansiedade faz com que os minutos pareçam horas. A porta no fundo do corredor finalmente se abre, com passos firmes, Paloma avança em minha direção. Ao se aproximar, olha-lhe nos olhos com ar sério, então sorri, abraça-me com força, diz em meu ouvido que sentiu minha falta. Contendo o choro, respondo-lhe que eu também, e me calo enquanto, animada, ela continua a falar. Estou feliz, mas mesmo tomada pela emoção, não posso deixar de notar um brilho estranho em seus olhos.