BRINCADEIRA DE CRIANÇA

04 de Agosto de 2011 Abreu Contos 2935

Ontem estive em um aniversário chique lá no Cidade Jardim, bairro de rico aqui em Salvador, onde com lindos meninos brinquei a correr, estórias fiquei a ouvir, gargalhei com o palhaço até o fim, coração quase a sair pela boca de tanto no pula-pula saltar, em muitos outros brinquedos estive a suar e depois de tanta felicidade a sorrir, vejam que delícias comi até enjoar: brigadeiro, cajuzinho, casadinho, moranginho, sonho de valsa, olho de sogra, quindim, docinho de nozes, bombom de uva, até chegar a hora do bolo cortar e eu convidada ao lado da minha nova amiga ficar, enquanto os parabéns todos estamos a cantar. E para ajudar, gostoso bolo a descer, todo tipo de refrigerante tomei e em nenhum momento para descansar eu parei.

Soraia tanto gostou de mim que me chamou para com ela dormir. E depois que todos foram embora, em sua casa me pediu pra ficar. Em seu mundo assustada fiquei, perdida a nunca imaginar que existisse realidade assim. Depois de banho tomado, alfazema pelo corpo espalhado, cabelos bem penteados e pijama de coelhinho vestido, uma lasanha inteira nós devoramos, a coca-cola sem querer arrotamos e, depois dos beijinhos de boa noite e muito, mas muito carinho, seus pais então se afastaram e sozinhas então nos deixaram, quando em seu imenso quarto entramos, a sorrir nos entreolhamos, para os presentes, enfim, estarmos a abrir.

– Menina, pare de sonhar! Levanta daí! Tá chegando outro caminhão. Venha logo sua mãe ajudar...

Dói quando abro os olhos. Não, não é o sol a me cegar. Estou sedenta, suja e suada, mas isso é meu normal nessa vida amargurada. Tenho muita sede, mas é de uma vida que não seja muito sofrida. Quanto me ponho a chorar, não é sol e chuva a me machucar. Nesses meus sete anos de vida, acompanho minha mãe, muito a contragosto, todos os dias, menos domingo, aqui em Canabrava, na solidão de meu lixão. Como viram, todas as minhas brincadeiras moram nos meus sonhos. Aniversário só a festejar na ilusão do meu pensar. Aqui é trabalho. E duro. Tá vendo aqueles meninos ali? Também não podem brincar. Igual a mim, só nos intervalos sentam no chão sujo a sonhar. Mas pouco mais de quinze minutos chega novo caminhão e quando descarrega, você sabe, não há regras. É cada um por si. E é nesse momento que recebo o desejado carinho. Quando me apodero de comida da boa ou algo que dê algum dinheiro, ela passa a mão suja e repugnante em minha cabeça uma duas vezes e diz: "Isso filha! Hoje teremos banquete." Fico tão feliz.

Por isso, quando ela me tira das brincadeiras dos meus sonhos, eu logo saio correndo e me jogo de imediato nos grandes e fedorentos sacos que antes eram quase todos pretos e hoje aparecem de muitas outras cores. Não gostei só um dia quando muito apanhei. Foi quando vi aquele saco plástico vermelho e grandão, destacado naquela multidão de sujeira, e eu de pronto nele pulei, e tão festeira fiquei, ofegante a lembrar, que na desembestada carreira, uns vinte meninos ultrapassei e, por alguns minutos ali permaneci, parada, agarrada, fervilhando em imaginação. E o baticum em meu coração aumentou, eu ainda pensando a cismar: "Quanta coisa boa ali estava a morar..." E minha maior alegria era plantar difícil sorriso na cara sofrida de mainha, tão nova a bichinha e já toda enrugada. Mas não foi assim. Para tristeza minha só tinha restos de hospital, tanta coisa feia e fedida, exalando odor de bebida, que logo estava a lembrar de cachaça e painho, quando ainda em casa morava e minha mãe todo dia apanhava e eu, sem nada poder fazer, ficava num canto jogada, baixinho a choramingar.

Essa minha companheira aqui, um pouco suja eu sei, nem sei de quem amiga era. Aqui mesmo eu a encontrei, já sem um braço, um olho fechado e roupas um pouco rasgadas, mas bem mais melhoradas que as minhas. Única confidente e igual a mim vivia sempre triste e sozinha. É a ela a quem tudo eu conto. Ela sabe que um dia meus olhos vão se abrir e não mais verei tanto lixo a revolver; nossos amigos não mais brigarão a dividir comida com grandes urubus; nenhum vizinho estará sua mulher a massacrar, tão logo eu ouça a porta se fechar; nunca mais verei menina levar tapa e puxão de orelha só porque queria estudar e não saiu com os outros, a esmolar.

Vai chegar o dia em que não vou mais apanhar só porque queria, por direito, brincar. O dia em que essa amiga querida apareceu algo em minha vida se transformou, pois em meus sonhos alguma coisa se acendeu. Foi meu dia de maior alegria. Pena que seja rosada, de cabelo liso, boneca de branca. Queria uma de minha cor, inventada há pouco tempo, vendida por capenga, o camelô, na estação da rodoviária, que só vejo quando vou com mainha e a turma lá da favela, todo domingo rezar na nossa Igreja Universal, quando damos muito do pouco que ganhamos pra Deus tornar esse meu sonho real.

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