Obsessão

12 de Fevereiro de 2014 Priscila Pereira Contos 1167

    Abrigado no interior de meu carro, observo as pessoas que transitam
pela praça, tento imaginar de onde estão vindo, para onde vão, se tem
família, amigos. Olho atentamente sua fisionomia, as mais felizes sempre
me atraem, me levam a pensar que conseguiram tudo o que queriam da
vida, tudo o que haviam planejado.  Infelizmente não conseguia achar
pessoas felizes com tanta facilidade, já passava das cinco horas da
tarde e não havia encontrado ninguém ainda.     Quando eu estava
prestes a desistir e voltar para casa, percebo uma mulher jovem,
aparentava estar ainda na casa dos vinte anos, talvez vinte e seis, ou
menos. Loura, roupa de ginástica, seu cabelo comprido e liso preso em um
rabo de cavalo, caminhava pensativa, um sorriso leve se formou em seus
lábios e uma expressão sonhadora em seus olhos. É ela.     Ligo meu
carro, um discreto Fiat Uno preto com vidro fumê, e vou seguindo de
longe a garota escolhida, que anda tranquilamente, sem pressa,
satisfeita com a vida. Vira várias esquinas e vai para a parte
residencial da cidade, destinada à classe média baixa, para em frente a
uma casa simples, com varanda pequena, um gramado, algumas roseiras.
Abre o portão, pega as correspondências da caixa do correio e entra. Vou
para casa, no outro lado da cidade, uma euforia muda toma conta de mim,
minhas mãos suam, meu coração parece querer explodir, respiro fundo e
sigo adiante, amanhã viria ver a moça outra vez e veria o que descobria a
seu respeito.     Em um mês de constante vigilância a casa de
Marília, descobri muitas coisas sobre ela, é casada com um homem alto,
magro, meigo e trabalhador, tem uma filha, de uns cinco anos, Ana Lívia,
loura e linda como a mãe, mas com os olhos verdes e meigos como os do
pai. Não recebe visita de muitos amigos, na realidade são poucos, mas
fieis. Parece não ter nenhuma religião, não praticante pelo menos, tem
um cachorro poodle pequeno. Eles são uma família feliz. Perfeito para os
meus planos.     Hoje, uma sexta feira, seis horas da tarde, será o
grande dia. Estou de tocaia na mesma praça, logo ela virá de sua
caminhada habitual. A espera produz um efervescer em meus hormônios,
sinto uma excitação crescente em meus sentimentos, a adrenalina faz a
pulsação de meu coração ensurdecer os meus ouvidos. Lá está ela, com a
mesma roupa de ginástica, uma calça legging preta e rosa choque e uma
blusinha de lycra preta, sem mangas.     Saio com meu carro e paro
algumas casas depois de sua casa, a rua está deserta, como sempre.
Observo atentamente o portão fechado enquanto me preparo, minhas mãos
tremem de leve, um sorriso de felicidade não saí do meu rosto, uma gota
de suor corre pela minha fronte, estou alerta e vivo, me sinto o dono do
mundo, invencível, com um poder sobrenatural de dar ou de tomar a vida. 
   Lá vem ela, com seu meio sorriso, pensando talvez no beijo que dará
em seu marido logo que chegar em casa,  ou no abraço que dará em sua
filhinha. Mas isso quem decide sou eu, na verdade, sua felicidade me
irritava, ninguém deveria ser feliz assim. A tragédia é mais humana, a
tragédia eu entendia, me fascinava. Apontei minha pistola 9mm com
silenciador assim que Marília parou em frente ao portão, mirei e atirei,
uma no coração e outra na cabeça.     Estava acabado, um frenesi de
emoções quase me cegavam, mas ainda pude ver seu belo e esguio corpo
tombar e cair pesadamente no chão da calçada, seu sangue formava uma
poça purpúrea, seus olhos estavam abertos e olhavam para o céu.   
 Ainda excitado e tremendo devido à intensa emoção que presenciei, dei a
partida no carro e pelo retrovisor ainda pude ver Ana Lívia correr e se
debruçar sobre o corpo da mãe, sujando assim seu vestido branco com o
sangue ainda quente. A tragédia enfim.  A doce tragédia mudaria para
sempre aquela menininha que gritava segurando a cabeça baleada de sua
mãezinha.    Dobro a esquina e rumo calmamente até minha casa, com
um prazer latente ainda percorrendo o meu corpo. Agora me mudaria de
cidade e procuraria outra pessoa e traria mais da doce e triunfante
tragédia.


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