A Sentença

04 de Agosto de 2011 TiaCaroleta [?] Contos 897

Olhou para os dois lados antes de iniciar travessia da rua, assim como a mãe lhe ensinara. Pisou cautelosamente no asfalto ardente, sentindo as pedrinhas no solado do chinelo. O pé esquerdo ainda se mantinha na calçada. Colocou-o também nos asfalto. Estava na rua agora. A calçada estava ali do outro lado, era só atravessar. Respirou fundo. Esperou um corsa que passava e adiantou um dos pés. Depois outro e agora o próximo, e mais um, e outro e outro.
Sentia a adrenalina e medo correndo pelas veias. Era a primeira vez que se expunha em público após 40 anos. Mamãe nunca devia tê-lo deixado, agora precisava sair de casa para comprar comida. Não era difícil, mas desconfortável, de fato. Tentava não entrar em pânico. E se de repente passasse mal e ninguém o visse?
As pessoas ainda não deixavam de olha-lo, elas sempre o olharam, mas não sabia a razão. Não havia nada de errado consigo nenhuma deformidade, nada. Apesar de ser o centro das atenções, tinha consciência que estava se arriscando demais, que algo de muito ruim poderia acontecer a si a qualquer momento e que nada poderia salva-lo e que ninguém o ajudaria. Tentou ignorar e continuar seus passos. Um após o outro, primeiro um e depois o outro, e mais um e outro. Atravessar a rua era algo absurdamente arriscado, onde estava com cabeça?
Parou novamente. E se não conseguisse falar com…
Ouviu a buzina. Viu o farol aceso, malévolo. Viu o asfalto quente, carniceiro. A dor. Ouviu o agourento som de ossos esmagando. Sentiu o sangue escorrendo pelo rosto. Viu a escuridão.
Naquela hora, ninguém o via, ninguém o perseguia e não sabia se alguém o ajudaria. Os quentes e afáveis braços do além o levavam e esperava que lá encontrasse sua mãe de novo e que ela o guardasse do mundo como sempre fez, para que nada de mal lhe acontecesse, como acontecera agora. Expor-se havia sido sua sentença de morte e sabia disso. Afinal, evitara isso por 40 anos.

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