Bocas

19 de Fevereiro de 2014 ROOSEVELT Contos 855

Por
Roosevelt Vieira Leite





Era tarde quando
Teófilo chegou a sua casa. O dia de trabalho na marcenaria de seu Tadeu fora
muito difícil para o jovem tobiense de 25 anos. Naquele dia, o rapaz teve de
trabalhar dobrado para atender as demandas da casa. Teófilo era filho único de
dona Maria das Dores e de seu José da Silva. Este era um casal muito temente a
Deus e as leis da terra. O humilde casal de agricultores criou seu filho
segundo os costumes da Santa Igreja. Mas, apesar de uma educação cristã, o
jovem Teófilo era um rapaz cheio de questões existenciais; perguntas que para
ele eram irrespondíveis, pelo menos, segundo ele, nesse “mundão de Deus”.
Depois que ele foi para Salvador visitar alguns parentes e presenciou o assalto
de uma senhora idosa, e a forma violenta como os bandidos o realizaram; a
crueldade humana apareceu nítida diante de seus olhos inocentes que refletiam o
brilho de uma alma quase cândida crescida e criada na roça. Teófilo, então,
passou a descrer da pessoa humana e se tornou um rapaz triste e angustiado.



- Teófilo, meu filho, por que você
não tem uma namorada? O mundo está cheio de moças bonitas. Esta era uma
pergunta que sua mãe insistia em fazer quando o via daquele jeito.



- Ah, mãe, pra que casar e ter
filhos num mundo desses? Deixa pra lá! Teófilo entrou em seu quarto, fechou a
porta, ligou o rádio e se pôs a ouvir o noticiário das seis. O âncora do
programa dizia: “Hoje, em Aracaju, choveu o dia todo, alguns morros deslizaram,
e algumas casas desabaram”. “Sobe para dez, o número de mortos na grande
Aracaju”.  O rádio prosseguia o relato
das tragédias locais enquanto Teófilo adormecia na cama.


O dia na Vila de Campos acordou
cinzento; uma frente fria vinda do sul cobriu o sertão de nuvens carregadas.
Teófilo se levantou da cama e foi direto para a cozinha onde estavam seu pai e
sua mãe.



- Ontem sonhei que o mundo estava
cheio de bocas. E as bocas falavam sem parar, cada uma segundo seu mundo.



- Meu filho você está bem?



- Estou pai. Seu José estava com
medo que seu filho estivesse a delirar.



- Então, a vida continua.
Precisamos esquecer as coisas tristes e segui em frente.



- Mas, pra onde pai?



- Ora, Teófilo, fazer o que todos
fazem: Trabalhar, casar, ter filhos.



- Pai, filho num mundo cheio de
violência não é uma boa ideia. A vida continua pra mim, mas, sem filhos.



Enquanto Teófilo saía de casa rumo à
marcenaria, seu José e dona Maria conversavam sobre ele:



- Mulher, o rapaz ficou caído com o
roubo daquela dona.



- Num foi homem. Coitado!


Teófilo seguia calmamente para o seu
trabalho. Ele gostava do que fazia, dá forma a madeira era sua especialidade; o
povo dizia que Teófilo era um mestre em sua arte, ele era o melhor marceneiro
da região. Próximo ao antigo Parque dos Missionários, uma moto surge de
surpresa em alta velocidade assustando o moço distraído, Teófilo tropeça e cai
no massapê de Campos. A pancada da queda o tira dos sentidos, e o povo que
passava pensou que o rapaz estava morto.



- Ali num é o filho de Dores? Será
que ele morreu?



- Deve ter sido. Vamos ver! O rapaz
da moto tentou socorre-lo, mas, nada conseguiu. A situação estava ficando
preta, Teófilo estava inconsciente. Chamaram uma ambulância e levaram o pobre
marceneiro para o hospital local. Logo uma multidão de curiosos se formou
defronte o prédio do hospital. O povo queria saber o que ocorrera com o filho
de José da Silva e dona Dores.



- Estava drogado?



- Sei não, mas, o povo diz que ele
andava meio estranho.



- Num é nada disso. É o rapaz que
não gosta da fruta mulher e está em crise de consciência.



- Deixa disso, Alfredo, eita, que
boca!



- Bem, é a boca do povo que diz.
Respondeu a crítica o vendedor de chinelos de couro na feira municipal.
Enquanto o povo fazia suas conjecturas, entram na sala de espera do hospital o
pai e a mãe do rapaz.



- Olha, mulher, dona das Dores como
está, coitada!



- E seu José? Coitado!



O casal queria saber de seu filho,
Mas, nada entendeu do diagnóstico do médico plantonista: “Seu filho teve uma
queda glicêmica muito acentuada e precisa de alguns minutos para voltar a si”.
“E isso mata, doutor?” “Não, exceto, se ela estiver associada ao um pâncreas
muito debilitado”. “Então, doutor, pelo o Cristo, ajude Teófilo!” O casal ficou
na sala de espera, e do lado de fora a multidão aguardava mais notícias para
atualizar a prosa do dia. Em Campos, o povo é muito preocupado com a vida dos
outros.


O céu de Campos passou de cinzento
para escuro, e com as nuvens escuras vieram raios e trovões, contudo, nada
disso dissipou as pessoas à porta do hospital. Os primeiros pingos caíram muito
timidamente, depois, veio a tempestade, e ela apavorou a Campos aquele dia.
Nunca se viu uma trovoada daquela. Todo mundo foi se esconder em sua casa e
logo esqueceram o rapaz do hospital. Teófilo descansava no leito 07 da
enfermaria do Hospital de Caridade de Campos.



- Teófilo, acorde!



- Quem é?



- Sou eu.



- Quem? Uma boca muito bem cuidada
falava com o jovem marceneiro.



- Eu. Teófilo levantou a cabeça em
busca de uma pessoa e viu apenas uma boca.



- Mas que diabo é isso? Uma boca?



- Sim, eu sou uma boca e você
também. Levante-se e olhe-se no espelho! O rapaz se ergueu da cama e foi em
direção ao banheiro. Olhando-se no espelho, Teófilo viu apenas a imagem de sua
boca. A boca que falava com ele disse com certa alegria: “Bem-vindo ao mundo
das bocas”.


O mundo das bocas não tinha cor,
cheiro, vento, ou sol. Era um mundo escuro, turvo, e as coisas desse mundo
nunca eram o que pareciam ser. Um cavalo podia, em questão de segundos, ser uma
pessoa, ou um objeto, um ser humano, tudo dependia do que as bocas diziam. A boca
amiga acompanhou Teófilo até a porta do Hospital: “Tenha um bom dia amigo!”
Disse a boca amiga. Teófilo sorriu para a boca e ela sorriu para ele.  O marceneiro de Campos caminha pela Avenida
João Alves Filho em busca do caminho de volta ao trabalho. Chegando a primeira
esquina ainda avistando o hospital havia um carro de frutas. Uma boca muito
grande e silenciosa velava aquele estabelecimento comercial ambulante.



- Bom dia moço!



- Bom dia amigo. Respondeu Teófilo.



- Sua pessoa num quer uma fruta
não? Perguntou a boca mostrando os dentes.



- Não. Na verdade, Teófilo queria
chegar ao trabalho sem mais demora. Contudo, a boca insistiu:



- Uma laranja! Um abacaxi! Que tal?



- Não moço. Estou com pressa mesmo.
A boca fechou os cantos e disse apertada: “Mão de figa”. Alguns passos adiante
Teófilo olha para trás e vê o carro de frutas se transformar em um balcão de
banco cheio de bocas aflitas. As bocas queriam a todo custo se livrarem de suas
dívidas:



“Parcele, por favor!”



“Assim não dá pra mim”



“Lamento, mas, vamos empenhorar sua
casa”. Muitas bocas saíram fechadas do lugar, outras saíram ainda mais desconsoladas.  Essa imagem muito entristeceu o filho de
Campos. Teófilo procura olhar-se no espelho de um carro azul estacionado do
lado direito da avenida. O espelho refletia a imagem de sua boca. Para ele, não
havia dúvidas que algo muito estranho estava acontecendo.



Embora triste com o que via Teófilo
seguiu a Avenida João Alves. Esta estava cheia de bocas sentadas nas calçadas.
Muitas coisas as bocas diziam, mas, nenhuma boca assumia a responsabilidade. Na
verdade, as bocas sentiam a compulsão para dizer, sem, contudo, verem a
consequência de seus ditos. Uma boca miúda aborda o marceneiro e lhe pergunta
sobre seu estado:



- Moço está melhor?



- Sim.



- Moço, é verdade que você desistiu
de viver?



- Não, em hipótese alguma. Amo a
vida e quero continuar. Apenas não acredito mais na bondade humana.



- O que aconteceu com aquela
senhora foi um caso isolado. E ela já estava mais pra lá de que pra cá.



- Não diga isso, pois, a idade da
mulher não justifica a violência contra ela. Todos tem o direito à vida. A boca
miúda deu uma risada com a expressão “direito a vida”.



- Moço, cá em Campos, as pessoas
estão mortas vivas. Elas mal conseguem dizer o que pensam, e quando elas dizem
alguma coisa, a coisa é um dito de outro o qual elas nem sabem por que o
disseram. As bocas falam porque as palavras são doces ao seu paladar.



- Como assim, boca miúda; posso
chamar-lhe assim?



- Sim, pode. Se sua pessoa não
estiver apressada eu te levarei a um lugar e você entenderá o mundo das bocas.
Teófilo estava atrasado para o trabalho, mas, devido à insistência da boca
miúda, ele decidiu acompanhar a boquinha. Os dois seguiram juntos até a Avenida
Sete de junho, a mais importante da cidade. Na altura do estabelecimento
comercial de Zé Bacateiro, a sorveteria mais conhecida da cidade, eles descem
pelo esgoto municipal.


Os esgotos de Campos formavam outra
cidade debaixo da terra onde as leis eram as mesmas da cidade de cima, a
diferença era que na cidade subterrânea o dito parecia mais autentico. As
pessoas eram mais transparentes, e a escuridão parecia ter mais luz uma vez
comparada a opacidade da cidade de cima. As bocas se sentiam à vontade para
dizer o que pensavam. A boca miúda não saía de perto de Teófilo que ao caminhar
pelos esgotos de Campos vivia sensações jamais experimentadas em toda sua vida.
Tobias Barreto se mostrava despida ante seus olhos pela primeira vez. Teófilo segue
calmamente até defronte o supermercado principal da cidade. A concentração de
bocas nesse local era muito grande. Havia bocas de todos os tipos. As primeiras
que estavam à porta do estabelecimento, eram as bocas da periferia que ficavam
ali para mendigarem alguma coisa ou oferecerem algum serviço em troca de alguns
trocados. Uma boca mal cuidada, com a dentição podre, inicia uma série de
enunciações:



- Minha mãe está passando mal em
casa e não tenho dinheiro para lhe comprar remédios, me ajude, por favor! Uma
boca de classe média cuja dona tinha seu carrinho cheio de mantimentos lhe
responde:



- Ah, meu filho me perdoe, não
tenho trocados. Esse diálogo cotidiano soava na cidade subterrânea da seguinte
maneira:



“Eu vou passar a perna nessa coroa
abestada”.



“Vá se catar perdedor”.



Teófilo, ora ria, ora chorava com o
que ouvia das bocas de baixo. A boquinha decide mostrar mais coisas para o
grande marceneiro de Campos.



- Teófilo, vamos mais para frente,
para onde as bocas grandes se encontram para discutirem Campos.



- Ah, sim, seria bem interessante.
Os dois desceram a Avenida Sete até chegarem ao alto comercio da cidade. Ali,
as bocas pareciam unidas num só propósito – fazer o progresso da cidade.
Comerciantes e políticos conversavam na via pública:



- Chico esse negócio de pagar
imposto num dá certo. O governo num faz nada!



- Num é o que rapaz, eu só declaro
um por cento das vendas, e pronto!



- Pois é, eu faço o mesmo. Não
tenho nada a ver com esse governo. Suas vozes chegavam lá em baixo assim:



“Eu quero esse ano é dobrar o
faturamento, mesmo que passe a perna no imposto”.



“Eu quero ficar mais rico, dana-se
a sociedade”.  Dois políticos
proeminentes de Campos abrem diálogo sobre as acusações contra o prefeito local:



- Rapaz, assim não dá, a
roubalheira está grande demais. O interlocutor coça as virilhas e continua
olhando para o céu.



- Campos nunca viu isso, é demais!
O outro interlocutor responde ao enunciado do primeiro:



- É mesmo, amigo, mas quando Zé de
Tico for eleito, a coisa muda, eita, macho honesto!



As falas dos dois chegam ao esgoto
assim:



“Campos e o Brasil sempre foram
assaltados, tomara que chegue nossa vez”.



“Mas quando chegar a nossa vez,
vamos descontar o atrasado”. Teófilo, ora via, ora se recusava a ver as coisas
do submundo. Contudo, o desejo pela verdade era maior. Teófilo decide perguntar
a boquinha sobre os fatos.



- Minha cara boca, será sempre
assim?



- Em vossa história, posso dizer
que sim. A pobreza e a miséria não é um acidente. A potência das duas é a má
gestão pública e o desvio da coisa pública historicamente consagrado. Olhe para
os campos ao seu redor, eles destilam leite e mel, o sertão é viável.



- Mas, seu boca, não tem homens no
sertão?



- O problema do sertão não é a
falta de homens, e sim, de discursos coerentes com nossa realidade. O sertão é
tratado como se não fosse um bioma com peculiaridades só suas. O sertão precisa
de novas bocas que digam o que de fato deve ser dito, pois, o subterrâneo
ressoa as contradições.  Ademais, o homem
político do sertão aprendeu que a coisa pública é privada. O privado e o
público se misturaram nas mentalidades locais, e assim, virou “coisa nostra”.
Teófilo chorou amargamente diante da boca amiga. E esta o confortou: “Amigo,
não chore, pois, a terra produz novidade o ano todo, assim como nascem
espinheiros, também nascem árvores frutíferas. O sertão é isso, um movimento
constante”. Teófilo seguiu seu caminho para mais profundo no subterrâneo de
Campos, a boca amiga lhe pediu desculpas dizendo-lhe que não podia mais
continuar a viagem.


Onde hoje é a Praça do Cruzeiro,
Teófilo percebeu uma grande quantidade de bocas; as bocas estavam eufóricas,
pois, discutiam sobre o carnaval, ou o Carnatobias.



- Olha Rubenita, nesse carnaval, eu
vou arrasar!



- Mulher, você merece toda a
felicidade do mundo. Vá mesmo, pois, dizem que esse ano a coisa pega! Uma boca
que trabalhava numa repartição pública entrou na conversa.



- Sabe pessoal, eu acho que nós não
precisamos de carnaval. A cidade está mesmo é necessitada de educação. Teófilo
ouvia a conversa do jeito em que ela se apresentava nos subterrâneos, ou seja,
sua verdade velada atrás da mascara social. E isso o fazia sentir náuseas com
muita frequência. A ânsia de vômito do rapaz tornou-se tão forte que ele
desmaiou. No chão do subterrâneo de Campos Teófilo se encontra com um negro que
carregava um rosário na mão:



- Meu filho eu vim por causa de tua
saúde. Tens vomitado e perdido muito fluido, estou preocupado contigo. O velho
era meigo e manso e suas palavras eram sabias e davam paz.



- Quem é você?



- Sou um arquétipo da humanidade.



- O que é isso?



- É que minha humilde pessoa está
em vós todos.



- Como assim?



- Quando vós sonhais com o bem, vós
fazeis uso de vossos arquétipos milenares. Existem diferentes padrões para
organizar vossos pensamentos. Este velho é um deles.



- E quando as pessoas sonham com o
mal?



- Existem formas padrões para tudo,
inclusive para o mal. Vosso bicho ainda precisa de domador.



- Como assim, meu velho?



- Disseste bem ao chamar-me de
velho, pois, eu sou tão antigo quanto vossa história. Sonhais há muito tempo.



- Eu não entendo sua pessoa.



- Eu vim porque julgais o mundo e
te esquecestes de que tu és parte dele; um pequeno microcosmo.  Aquilo que vês no outro também está em ti. De
forma súbita, Teófilo passou a ver suas contradições.



Era uma tarde de terça feira, dia
de Ogun. Teófilo caminhava de volta do trabalho pelas dezessete horas quando um
carro de luxo o para, dentro do veiculo estava uma senhora casada. A mulher era
linda e pedia informações sobre o endereço de uma residência. A conversa entre
os dois tomou, de forma inesperada, outro rumo. Teófilo teve um caso amoroso
por três meses com a senhora de um comerciante muito conhecido em Campos. O
rapaz havia esquecido isso, mas, o subterrâneo de Campos revela os mais escuros
segredos. Ao se deparar com sua realidade, o jovem marceneiro busca se
desculpar.



- Foi ela, senhor, quem se jogou. E
eu sou homem.



- Sua pessoa compactuou com tudo.
Os dois cometeram o mesmo erro.



- Mas, se ela não tivesse começado
nada teria acontecido.



- Desde Adão que o outro leva a
culpa. O homem de barro é um arquétipo de vossa fragilidade. Contudo, o barro é
muito fácil de ser moldado de novo, você não acha?



- Olha moço, eu não entendo muito o
que dizes.



- Os homens fogem da culpa como o
diabo foge da cruz.



- Ah, sei. Mas, insisto: A senhora
da sociedade recebeu o que pediu.



- Continue andando por esses
subterrâneos, quem sabe a uma quadra adiante você se encontre. O velho pediu
licença e saiu da presença do marceneiro. O seu rastro no chão enlameado dos
tuneis deixou pegadas fluorescentes.


Agora Teófilo estava só naquele
mundo debaixo do chão de Campos. Ele ouvia as bocas eufóricas falarem sobre
diversas coisas. Uma boca muito grande não parava de reclamar da vida. Para ela
nada bastava. Outra boca se queixava da solidão, mas, não conseguia se doar a
ninguém. Teófilo tenta conforta-la, mas, sem sucesso, a boca não conseguia
ouvi-lo.  Perto de um banco Teófilo se encontra
com duas bocas fazendo planos para o casamento.



- Amor, eu estou ansiosa para
dividirmos o mesmo espaço.



- E eu também querida. Mas
precisamos ajustar algumas coisas.



- Querido, que tal nós fazermos um
empréstimo para a nova mobília? Disseram-me que aqui os juros são bem em conta.
No subterrâneo, Teófilo ouvia a conversa de forma diferente. O casal não tinha
certeza se o amor dos dois era o bastante para uma relação mais íntima.
Ademais, a moça, como muitas filhas do sertão queria sair de casa, ela não
suportava mais a castração infringida por seus pais. Já o rapaz, queria mesmo
era continuar solteiro, a ideia de casamento foi apenas uma desculpa para
conseguir a mulher de suas fantasias eróticas. 
A voz do moço ressoava nos subterrâneos dessa forma: “E agora como vou
sair dessa?” Teófilo sabia que o amor existia e que muitos casais se uniam
inspirados pelo autentico sentimento de amor, mas, os porões do subterrâneo
eram implacáveis, nada passava em branco. Mais adiante, bem perto de uma
igreja, Teófilo para e escuta as bocas religiosas:



- Gente! Gente! Gritava uma boca
afeminada, mas, muito religiosa.



- Sim Arcanjo! O que foi dessa vez?



- Nosso novo padre é lindo!



- Eh, desta vez as mulheres da
paróquia vão sofrer fortes tentações.



- E os meninos também! Não se
esqueça! A conversa nos subterrâneos não foi traduzida, parece que o que
disseram lá em cima ressoava do mesmo jeito embaixo. Um grupo de Calvinistas
conversava baixinho:



- Precisamos converter Campos e o
Brasil à fé verdadeira.



- É mesmo seu Lutero de Souza, esse
país está entregue a sensualidade.



- Nem diga, quanto mais passa o
tempo, mais os costumes se parecem com os de Babilônia.



- Olha, meu caro Lutero de Souza, o
Brasil será de Cristo! As bocas serraram os dentes como se tivessem cheirado
cada uma, cinco carreiras do pó maldito. Seus dentes trincaram uns nos outros tamanha
foi a força que as mandíbulas fizeram. A conversa dos religiosos chegou aos
subterrâneos assim: “Queremos o poder político do Brasil custe o que custar”.


Teófilo ao ver e ouvir o mundo
subterrâneo das bocas teve náuseas e ânsias de vomito. O suco gástrico de seu
estomago produzia uma acidez que lhe saia pelas ventas. Definitivamente,
Teófilo estava exposto ao adoecimento por emoções fortes. Uma criança, ou
melhor, sua boca sem dentes e de gengivas inchadas, se aproxima do mestre da
marcenaria de Campos: “Minha mãe está sem leite no peito, moço, mas que fome!”
Muitas crianças eram filhos sem pais, bocas desesperançadas e espalhadas pelo
sertão. Dizem que o sertão é alvo dos exploradores de corpos, estes são os que
ganham dinheiro agenciando a prostituição. Agora, não havia mais limites para
Teófilo; as visões seriam muito mais pesadas. “Teófilo!” A voz saía das brechas
das paredes do subterrâneo. A voz dizia: “Dancem todos, se divirtam todos!” “It’s
a wonderful world; imagine! No war, no pain, every men marching together!”
Teófilo acreditou nas palavras das bocas das brechas e sorriu por cinco
minutos. Depois, ele tomou uma pílula que a boquinha lhe havia dado. A pílula
fez efeito em 30 minutos, em seguida, Teófilo estava de volta à parte de cima
da cidade.



- Teo! Oh, Teo! Dona das Dores
chamava por seu filho com insistência. Enquanto isso, seu da Silva conversava
com o enfermeiro Tomás. Das Dores insistia:



- Teófilo, menino, ande, vamos! O
mancebo com um quarto de século abre os olhos e depois a boca.



- Mãe! Mãe e filho se abraçam na
enfermaria da Casa de Caridade de Campos. Finalmente, das Dores tinha seu filho
de volta, e a marcenaria de seu Tadeu seu funcionário de ouro. Teófilo ficou
calado por muito tempo. Nada disse do que viu, e nada fez para mudar nada.
Teófilo caminhou para a marcenaria durante longos vinte anos. Quando ele fez
dinheiro e colocou sua oficina, Campos havia se transformado em uma cidade de
pequeno/médio porte, ou seja, uns setenta mil habitantes. O homem da barraca de
frutas estava no mesmo ponto. As pessoas faziam e diziam as mesmas coisas. Os
políticos falavam de seu amor pelo sertão. As pessoas não importando quem
fossem diziam sobre tudo com muita convicção...


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