SORTE GRANDE

06 de Agosto de 2011 Abreu Contos 1006

Sabe, não existe coisa pior que chegar aos trinta e cinco, separada, três filhos para criar, inúmeras contas a pagar e ainda com formação acadêmica capenga. Nos tempos de hoje pouco importa se você tem diploma de segundo grau. Vale nada. Só se arruma subemprego. Ingênua e sonhadora, a paixão me pegou aos dezessete e menos de um ano já estava grávida. Fomos morar juntos e Roberto, caixa no Bradesco e a desconfiança no juízo, me fez aceitar como coisa normal ficar em casa a cuidar dele e dos meninos, que foram chegando um atrás do outro, mal dando para respirar. Quando dei por mim, já largada eu estava, as estrias que nem enxergava me maltratando, a assustar, e os produtos de beleza para uma recauchutagem geral que nem sabia existir, custando salário de mais de mês.

Depois de cinco meses de muita batalha e nenhuma experiência, por indicação de uma amiga da amiga de Ana Lúcia, amiga de Telma, minha ex-cunhada, arranjei um emprego na lotérica Sorte Grande, aqui no Shopping Iguatemi. Emprego não, trabalho duro e estafante. Vocês não têm a mínima idéia da situação! Entro pouco antes das oito da manhã e logo depois da reunião diária e muito enchimento de saco e após o recebimento do material de trabalho, já se passou pouco mais de uma hora e o bendito Shopping está aberto. Num minuto o mundo se deslocou para a fila. Não para. Todas as horas e minutos de todos os dias. Não há descanso, apenas dois intervalos de contados quinze minutos pela manhã e tarde e meia hora para o mal digerido almoço. Saio sete e meia e chego ao apartamento mais de nove, estafada, depois de ter encarado um buzu barulhento empilhado de gente, sem nunca conseguir viajar sentada, engolindo odores de todos os gostos e recebendo amassos de todos os lados, ainda com milhares de números e cédulas de todas as cores circulando em minha atormentada cabeça, mal dando tempo para me inteirar dos horrores da casa, os meninos na fase aborrecente da puberdade, só querendo saber de jogos no computador, a engolir todo estoque da casa, televisão sempre nas alturas, todas as luzes acesas e muita desarrumação pela frente. Na tarde do sábado, faço da folga a faxina da semana e depois de mais de quatro horas de muita labuta, enfim vejo tudo em ordem. Quando à noitinha alguma amiga me liga chamando para sair, um barzinho ou qualquer outra festinha, o parco dinheiro já saltou da bolsa para o bolso dos moleques e o ânimo o sono levou. Resta o esperado domingo e de pronto o desânimo se instala ao lembrar-me que é dia de descanso de tudo que é pobre, onde estão a trafegar aos montes, espojando pelas praias, invadindo ônibus pelas janelas, com batuque, suadeira, e muita baixaria, afastando de mim qualquer tipo de prazer.

Não sinto saudade do Roberto, por tudo de ruim que sobrou para pensar. Mas sinto muito falta do lazer que curtíamos juntos. Pelo menos serve aos domingos e feriados, quando leva os meninos para bem longe. É quando tenho sossego. De resto, vou levando a vida e sonhando, igual a muitos dos meus clientes, os quais todos os dias estão na fila, com seus números repetidos que nunca dão ou aparecem pela metade e nunca desistem. Alguns deles a me prometerem casamento, vida de princesa e dinheiro de montão e eu sempre os rebatendo: “a gente só deve falar de dinheiro quando ele estiver em nossa mão. Dinheiro de sonho é coisa íntima, a saltitar na imaginação”. E todos os dias estão lá, com a mesma conversa e os mesmos sonhos e a me animarem a penetrar em suas viagens, a hipnotizá-los a cada ”boa sorte” que balbucio com leveza e voz melosa, olhando-os firmemente, a não se esquecerem de mim, quando a tão esperada sorte grande, enfim, bater em suas portas.

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