Jackpot De Départ

04 de Março de 2014 Maurício R B Campos Contos 818

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A obra máxima de Charles Garnier estava em frente de
meus olhos. O arquiteto não economizou detalhes ao desenhar o
cassino que seria sinônimo do gênero por toda a eternidade. Em cada
afresco do estilo Belle Époque olhos já lançaram juras de
maldição e lábios soltaram beijos de gratidão. Naquele átrio a
fortuna e a miséria andavam de mãos dadas, uma correndo atrás da
outra.



Adentrei a sala de jogos onde o clássico e o moderno
encontravam seu equilíbrio no requinte. Fui saudado por uma jovem
linda e elegante, que polidamente me ofereceu um cartão de
fidelidade. Fiquei alguns minutos perdido no azul daquele olhar
enquanto sua voz suave me explicava cada vantagem do 777
- The Slot Privilège card
. Olhos azuis. Como
os de Josh, o garoto portava o azul do mar profundo, mesmo estando em
um deserto. A garota sorriu, e o sorriso de Josh veio à sua mente,
quanto tempo ficara perdido naquele sorriso de criança, um sorriso
que era só amor para ele.



Não, não estava interessado em cartões de fidelidade.
Era o último dia que pisaria em Monte Carlo, não precisaria de
descontos. — Bem, senhor, por onde deseja começar, temos toda a
variedade de jogos de mesa, como a clássica roleta europeia, o
charmoso Trente & Quarente, a roleta inglesa, bacará e
sua variação Chemin de Fer, Punto Banco, 21 e dados.
Basta escolher em qual o senhor deseja tentar a sorte. — Sentindo
que não despertara meu interesse por nada ela tentou outra
abordagem: — Também temos mais de mil máquinas caça-niqueis, o
senhor aprecia essas máquinas?



Susan era capaz de passar horas em frente das máquinas,
e cada vez que as fichas desciam pelo metal rodopiando e gritando
cling-cling, ela ficava eufórica. — Você viu? Você viu? Ganhei!
Ganhei! Olhe as moedinhas! — gritava excitada, saltitando e
sorrindo. E no cruzeiro, em que ganharam mais de cem mil, em moedas
de vinte e cinco centavos. As fichas caíam feito loucas, e era
difícil segurá-las, os baldinhos se enchendo em questão de
segundos, e ante a alegria de Susan, eu corria para buscar mais
baldinhos que ficavam lotados e foram formando uma fileira de potes.
Nossa fileira de potes de ouro! — ela não se cansava de repetir,
esfuziante.



— Qual você prefere, Anna? — eu perguntei olhando
para o crachá em seu peito.



— A sorte pode ser benfazeja em qualquer uma de nossas
mesas de jogo, tanto quanto nas máquinas.



— Mas se você tivesse que dar uma opinião pessoal?



Ela balançou a cabeça:



— Eu diria que os cidadãos de Monte Carlo estão
proibidos de jogar, na verdade eu só posso entrar aqui porque
trabalho para Société des Bains de Mer, que administra o
cassino.



— Hum... não fazia ideia. Caça-niqueis você disse?



— Sim, venha comigo, senhor?



— Anderson.



— Pois bem, senhor Anderson, venha por aqui — ela me
disse, me escoltando pelo elegante salão, onde ao redor de mesas
onde funcionários elegantes e bem educados atendiam os seletos
apostadores do Monte Carlo Cassino. — O cassino conta com mais de
mil máquinas caça-niqueis, na verdade, a maior coleção delas na
Europa. Nós temos máquinas exclusivas na Europa, e até mesmo
algumas exclusivas no mundo. Hoje mesmo temos a inauguração das
novas máquinas “Guerra nas Estrelas”.



Logo chegamos até a sensação do dia, as novas
máquinas Guerra nas Estrelas, as brancas dos Stormtroopers, as
brilhantes do comando de clones e as pretas onde o temível Darth
Vader encarava os apostadores. Ela me mostrou os corredores onde
estavam aquela multidão de máquinas e então voltou à sua posição
na porta. Eu não podia imaginar que o espaço dentro daquele prédio
do século XIX pudesse comportar tantas máquinas.



Josh gostava tanto dos desenhos animados sobre o comando
clone, passava horas vendo e revendo. Eu lhe dei o jogo de computador
dos clones em seu aniversário de doze anos, ele vibrou muito, estava
esperando fazia tempo. Logo depois houve uma exposição da série em
Los Angeles, e eu o levei. Ele ficou maravilhado com a centena de
itens que havia lá, tirou fotos de cada item, me explicando a ordem
cronológica e importância daquele item para a série. Tiramos fotos
com os personagens, em alguns cenários que foram especialmente
remontados para a exposição, comemos cachorro quente em uma réplica
da cantina do espaço-porto de Mos Eisley.



Lá estava uma pequena multidão em frente à grande
sensação do dia. Um cartaz prometia:



NOUVELLES MACHINES STAR WARS



JACKPOT DE DÉPART



1 000 000 €



Á Monte-Carlo, jouez à un niveau intergalactique.



Fui até o caixa, passei o cartão, peguei um balde
cheio de fichas e retornei para a máquina de Guerra nas Estrelas.
Voltando às máquinas, estavam todas ocupadas. Aguardei um tempo,
então um rapaz vestindo uma camiseta verde, onde estava estampada
uma frase chamativa, se virou, liberando a máquina. A frase me
chamou a atenção: “Chekov não é um cara da Jornada nas
Estrelas”. Puxei a alavanca e as figuras começaram a rodar à
minha frente. Os personagens da série rodavam, rodavam, rodavam e,
então, pararam, nenhum par, nenhuma figura igual à outra. Coloquei
mais fichas e puxei a alavanca novamente, a máquina rodou mais
alguns segundos então parou de uma vez, os três soldados imperiais
olhando direto para minha cara. A máquina começou a piscar, então
houve um clique e uma pequena porta se abriu no alto da máquina, um
sabre de luz saiu de dentro da máquina, piscando, a famosa música
de John Williams tocando, a Marcha Imperial a anunciar o prêmio. Em
seguida as moedas começaram a tilintar rumo ao baldinho que logo
apareceu, trazido pela funcionária do cassino.



— É seu dia de sorte, senhor Anderson, ganhou o
grande prêmio de abertura! Parabéns!



A segurança do cassino apareceu, um oriental com óculos
grossos, parou a máquina. Era muito dinheiro para ser retirado em
fichas. O oriental retirou um bilhete da máquina e informou que meu
prêmio estava disponível no caixa.



Compareci ao caixa no mesmo instante, peguei meu milhão
de euros . Mulheres belíssimas me ofereceram lugares em uma mesa de
pôquer, ao que recusei, dizendo que retornaria no dia
seguinte.



Voltei milionário para o hotel, onde me deitei
confortavelmente ao lado do dinheiro. Tomei os comprimidos e voltei a
deitar. Como teríamos festejado, Susan, Josh e eu. A essa hora o
quarto já estaria todo molhado de champanhe, o sonho de Susan
realizado na máquina escolhida por Josh...



Comecei então a sentir uma tontura, a cabeça pesada,
dificuldade para respirar, difícil pensar... Que pena eu não ter
mais herdeiros, um milhão de euros! Meu jackpot de partida...




©
2014 Maurício Robe Barbosa Campos

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