Aguardando peixes voadores franceses

04 de Março de 2014 Maurício R B Campos Contos 763

MM38 ou O dia no qual esperamos peixes voadores franceses

Reunidos em volta da mesa jogamos cartas por horas e horas. Por ser proibido fumar no abrigo, há ânimos exaltados. 6. Truco. 9. Ladrão. 12. Um murro. A mesa virada. Uma lâmpada que balança no fino fio que desce do teto embolorado. Os homens são separados e cada um se dirige para um canto da sala. Um agacha, outro senta, o terceiro fica em pé fitando a lâmpada que como um pêndulo ainda balança, fazendo sombras bailarem nas paredes, um quarto tira um lenço do bolso de trás da calça e enxuga o suor do rosto.  

As pessoas gostam de ignorar o horror, virar sua face o outro lado. Não é bem assim, alguém exagerou, dizem pra si mesmas. Pois é, se respondem. E assim seguem suas vidas ordinárias como se nada houvesse acontecido. Mas todas as ações humanas são cumulativas. Como as coloridas camadas do solo que um arqueólogo examina tentando descobrir o passado de um monte de pedra e lama. Cada omissão deixando que o mal se propague como uma ondulação em uma superfície líquida. Que se soma a outra, que se soma a uma terceira, e se encontra com mais ondulações e estas com outras mais sucessivamente até desaguar no caos generalizado em que nos encontramos. Eu me fazia de cego para não enxergar o horror em minha vida, mas me afoguei em um mar de atrocidades, e cego, não pude ver a luz na superfície, e perdido nessas águas fui tragado para o fundo.

Outro grupo se senta a mesa. O mais velho tira um jogo de dominós do interior da jaqueta. O jogo começa. Os uns se ligam aos uns, os dois aos dois, os três aos três, e assim sucessivamente. Os velhos contando as peças que são colocadas no jogo e montando suas estratégias para vencer o jogo, enquanto esperam os mísseis Exocet


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2014 Maurício Robe Barbosa Campos

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