E o nada

04 de Março de 2014 Maurício R B Campos Contos 667

Joyce
chegou em casa por volta das três horas, abriu o portão com a
facilidade de sempre e subiu a escada até sua quitinete no primeiro
andar. Pegou o molho de chaves e abriu a porta de sua casa. Na porta
o número 2 do número 25 pendia meio torto. Ela anotou mentalmente
que precisava consertar isso. A porta rangeu e ela entrou. Foi ao
banheiro. Pensou nos acontecimentos da noite anterior, mas se
arrependeu. Não deveria pensar nisso agora.


Punta
Del Este, a Las Vegas da América do Sul. María lhe levava pelo
braço. A beleza da noite, as estátuas e o brilho opaco de uma
lâmpada de rua. Através do vidro leitoso dos biombos da sala de
computadores do hotel ela divisou as coxas de María. Coxas de leite.
Estou na terra do leite e mel, pensou, enquanto se ocupava de enrolar
uma mecha de seu cabelo na ponta dos dedos. A deliciosa falta de
familiaridade dos ambientes estrangeiros. O som da língua que ela
não dominava preenchia os espaços e a língua portuguesa só vagava
em sua mente. Imersão total num ambiente totalmente
latino-americano. Mas brasileiro não é latino-americano?
Hispano-americano é a definição que buscava. Pegou um comprimido
na bolsa e colocou debaixo da língua, sentindo o sabor ocre.


Uma
noite para chamar de sua. Com as bênçãos de Nix. Um corpo. Um céu
estrelado. As estrelas no quepe do policial. Um som, uma textura. E
então o retorno das coxas de María, o leite e o mel. Mas algo não
estava certo. Um jogo de dados. A luz.


Joyce
se levantou do vaso sanitário e se lavou. Tirou a roupa e desfrutou
de uma chuveirada demorada. Não queria mais se preocupar com o
tempo. Ficou por muito tempo sentindo a água fluir por seu corpo,
então fechou a torneira e passou um óleo perfumado no corpo todo.
Secou-se, se vestiu, e foi até o carro. Subiu com a pesada mala
cheia de dinheiro e voltou para pegar a sua mochila de roupas.


Ela
ainda sentia o cheiro da uruguaia, embora fosse apenas uma lembrança.
Uma lembrança em forma de cubo de gelo, que sua mente consciente
deixava sob o sol. Subiu as escadas e foi até o quarto. Deitou-se na
cama.


Dois
dados. Seis. Seis. Doze. Perplexidade.


Joyce
não quer pensar nisso, nem no significado de tudo isso. Não agora.
Ela abre a gaveta do criado mudo e pega o revólver. Sente o frio
metálico na têmpora. Frio como o gelo que o sol liquefez. O ser...


©
2014 Maurício Robe Barbosa Campos

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