A escola de Mandala

20 de Março de 2014 ROOSEVELT Contos 1054

A
ESCOLA DE MANDALA – O RETORNO


Com a morte de Plínio,
a Escola Estadual Freitas de Matos voltou a ficar em paz. No início, o povo
reclamou a falta do grande funcionário – ‘o homem que enfrentou a fera’, como
diziam os outros funcionários concursados. Em Campos, se você não for
concursado, você não é ninguém.



- Oh, dona Cotinha, Linderval que
trabalha na Exatoria é concursado?



- Muier, sabe que não sei.



- Pois, tão dizendo que ele num é não!



- Num é o que muier?



- Concursado.



- Oia, dizem que Linderval foi posto lá
pelo homem.



- Mas, o homem faz o que quer, ele pode.



- Não senhora, agora todo mundo tem de
ser concursado.



- Tem mulher, mas não é assim. Lembra -
se de Plínio do Freitas de Matos?



- Sim, me alembro muito bem. Aquele era
um depravado, totalmente, fora da bitola. Ele era concursado, adiantou de que?



- Muier, cá entre nós duas. Há o boato
que Mandala mandou matar o homem. A cova dele ainda num foi mexida e já passam
de quatro anos.



- Olha, Cotinha, me arrepiei toda com
essa história, deixa a alma de Plínio em Paz!


No Freitas de Matos tem de tudo. A
eterna diretora, Maria Mandala fez uma reunião no final do ano passado para
traçar algumas mudanças para o ano letivo vigente.  A reunião foi na biblioteca da escola. O
Freitas de Matos sempre teve pouco espaço para organizar suas coisas. Por isso,
a biblioteca é mais umas dez coisas além de biblioteca. O resultado da reunião
foi muito bom para a escola segundo diz o moto taxista Fernando, pai de uma
aluna da 3a série. Segundo ele, o staff da escola foi reorganizado
assim: A eterna diretora, Maria Mandala, eternamente indicada pelo prefeito,
Dr. Aspeguetti; a secretária, dona Salvador, também indicada pelo Dr. Aspeguetti,
a coordenadora, dona Tácia, também indicada pelo Dr. Aspeguetti. A coordenadora
do turno vespertino, dona Isolda, também indicada pelo Dr. Aspeguetti. Esse era
o time de feras da educação local. Todos os funcionários vinham da mais viva
geração de alunos do Freitas de Matos, como diz dona Cotinha: “É um orgulho
para Campos, os filhos da terra cuidando da educação de seu povo”.


O ano passou rápido. O mundo nunca viu
uma coisa dessas, novembro chegou e o povo mal tirou os enfeites da árvore de
natal do ano passado. De acordo com o profeta do Candial, seu Venceslau
Feitosa, o tempo se encurtou por causa da vinda do Cristo.  “Eu vi o Cristo andando em Campos, seu
Nonato”. “E como era ele?” “Ele era a cara do finado Plínio, lembra – se dele?”
“Quem num lembra?” “Num foi ele quem papou a fera do Freitas de Matos?” “Essa
parte aí, eu num sei”. O Cristo de Venceslau de fato existia, mas, não era o
messias da Galileia, era o proprietário do jazigo 277 do Cemitério Municipal de
Campos. No dia 2 de novembro do ano corrente, Plínio foi encontrado desacordado
ao lado do seu sepulcro. Sua barba e cabelos haviam crescido, bem como as unhas
das mãos e dos pés. Foi um grande alvoroço em Campos. Contudo, quem não sabe
que no sertão as coisas acontecem bem acontecidas? Plínio voltara, ou retornara
para viver sua vida interrompida. Parece que o homem tinha mais uma vereda
nesses sertões.


Plínio se levantou do sepulcro por volta
das seis da tarde. Como era novembro, os dias estavam escurecendo mais tarde.
Às 18h00min ainda tinha luz, Plínio saiu da terra santa limpando-se do resto de
flores e coroas que haviam sido depositadas em seu túmulo. Plínio sacudiu os
ombros e foi pra casa. Sua pele estava suja de terra e seu terno além de sujo
todo rasgado. Sua casa na Avenida João Alves estava fechada. Somente dona
América zelava do imóvel. A mulher gostava muito de Plínio, contudo, havia
falecido no mês de setembro do mesmo ano vítima da dengue. Nenhum parente havia
cobrado o imóvel, parecia até que estavam esperando o retorno do funcionário
problema. Plínio entrou em casa e foi banhar-se. Em seguida, procura o que
comer; a geladeira estava vazia. Plínio olha para o calendário pendurado na
parede próxima ao fogão e lê: “2013”. “Como?” Perguntou o homem a si mesmo. O
tempo havia passado, e Plínio fora deixado pra trás. Seu emprego no Freitas de
Matos certamente poderia ser retomado, pensou ele. “Amanhã, irei ao Freitas de
Matos, eu sou concursado, minha vaga deve estar lá”.



O dia 4 de novembro de 2013, Campos
amanheceu debaixo de muita chuva. ‘A barra do tempo’ como as pessoas do sertão
chamam estava escura como a noite, somente os raios iluminavam a terra do Poeta
Tobias Barreto. Plínio fez a barba, vestiu sua melhor calça de tergal, vestiu
meias de algodão cor azul, calçou sapatos pretos em perfeita harmonia com a
calça e camisa social de listras azuis e brancas. No rosto, óculos escuros que
combinavam com seu bigode grande e grosso. Plínio parecia um vendedor ambulante
de loção de cânfora.


A Avenida João Alves estava deserta. As
pessoas fugiam da tempestade que a qualquer momento podia cair furiosamente
sobre o sertão de Campos. A escola estava em plena atividade, pois, mais um ano
letivo estava chegando ao fim. O portão trancado como sempre, forçou o tobiense
a bater o cadeado. Após alguns rápidos minutos, Maria Mandala aparece no
segundo portão. A mulher espreme os olhos para ver quem é, em seguida, caminha na
direção do portão principal com a chave na mão.


- Eu tenho a impressão que eu te
conheço. O que é mesmo?



- Eu sou Plínio, voltei para meu posto.
Você num se lembra não?



- De Plínio, sim. Mas, de sua pessoa
não.



- Como assim? Eu sou Plínio.



- Amigo, o Plínio que trabalhava aqui,
que, aliás, era um funcionário concursado nota mil, é falecido há quatro anos.



- Maria, deixa de história, eu sou
Plínio.



- Lamento moço, mas, sua pessoa vai ter
de provar que está vivo. Veja, sua pessoa parece com o finado, no entanto, sua
pessoa usa bigode, e Plínio tinha a cara limpa. Quando Maria Mandala se referiu
á aparência de Plínio, seu rosto ficou rosado.


Plínio retorna a sua casa onde passa
pouco tempo. Ele queria andar pela cidade de Campos. Tudo estava quase do mesmo
jeito. Poucas pessoas haviam mudado de vida. As que tinham mais alguma coisa
eram aqueles protegidos pelo Dr. Aspeguetti. Aspeguetti, embora, corrupto,
ajudou a muitos amigos se fazerem na vida. Quase defronte ao restaurante
Trindade, no antigo posto de ‘BAL’, Plínio merendava coxinha com caldo de cana.
Seus pensamentos queriam se organizar, mas, ele não conseguia. No dia de sua
morte ele tinha voltado da escola. Fazia alguns dias que ele sentia um amargo
na boca e um embrulho no abdômen. Assim ele ficou por quase cinco dias até que decidiu
ir para a Casa de Caridade. Somente no hospital foi que ele viu que estava
morrendo por envenenamento. A questão é: “Quem o envenenou?” Essa pergunta
passou a habitar a mente do homem.


O Freitas de Matos, logo, ficou
apavorado com a história que sua diretora Maria Mandala lhe contara: “Tem um
fulano se fazendo passar pelo finado Plínio para pegar um emprego concursado”.
“Mas, Mandala, num se preocupe não, porque o dito cujo terá que provar
cientificamente quem é”. “Olha, Isolda, eu adorei essa parte ‘cientificamente’”.
A conversa fluía, mas, o dever era mais urgente. “Pessoal, vamos fazer um
mutirão para pormos as cadernetas em dia”. “Mandala, acredito, que isso pode se
configurar desvio de função”. Disse um funcionário de serviços gerais que usava
brinco na orelha esquerda e óculos escuros tipo Steve Wonder. “Olha, é difícil
lidar com gente!” Exclamou Maria Mandala. A mulher foi para sua sala e segundo
lar. A conversa sobre a identidade do novo funcionário durou o dia todo. Todo
mundo queria conhece-lo, mas, ninguém ousava ir ao cemitério para ver o que
houve mesmo. Contudo, o destino não poupa ninguém. O coveiro do Cemitério
Municipal tinha uma filha que estudava no Freitas de Matos. Isso o forçou a ir
lá naquela manhã.


- Bom dia, eu sou o pai da pequena
Edineia.



- Ah, eu queria mesmo falar com sua
pessoa. Respondeu Maria Mandala com voz forte.



- O que houve senhora? Edineia fez algo
errado?



- Não! Vocês é que estão fazendo com
ela!



- Como assim? Perguntou o coitado do
campo da morte. “Nós não fazemos nada de errado com nossa filha não senhora!” O
homem estava com as maçãs vermelhas e os olhos arregalados. Sua mão tremia ante
as duas forças que lutavam contra ele aquele momento. A primeira tinha natureza
etílica, e a segunda vinha da ousadia de Maria Mandala. A mulher, na verdade,
não deixava escapar nada.



- Sua filha, este ano inteiro, tem
chegado atrasada.



- Nós acordamos cedo. Minha mulher
trabalha na fábrica, e eu tenho o cemitério.



- Ah, então dê um jeito para cumprir o
regulamento da escola senão não vou renovar matricula dela, e esse ano ela
começa na última semana de dezembro.



- Mulher pergunte a ele sobre o jazigo
277. Sugeriu dona Salvador Hortelina do Amaral, aquela que desconfia de todos e
não aceita críticas. O pobre Aldezinho ficou apavorado com a pergunta feita à
sua pessoa. Antes de dizer qualquer coisa, o homem gaguejou muito, até que de
sua boca alguém escutou algo coerente: “Eu limpava o canteiro do Jazigo de dona
Aurea quando levantei a cabeça e vi aquela mão saindo de dentro da cova”. “Eu
corri e me escondi atrás da imagem de São Gabriel”.



- Mas, como foi rapaz?



- Sim, senhora, o defunto saiu
inteirinho da cova e era seu Plínio. No ato da ressurreição, a jega de seu
Olegário, lembra-se de Olegário?



- Sim, senhor. Responderam em coro as
duas especialistas em educação.



- Pois, seu Plínio se levantou, se
sacudiu todo e enquanto isso a tal jega pinotava pelos quatro cantos da terra
santa.



- Oxente, e você num teve medo não?



- Num fiquei o que, homem? Até hoje a
mulher num viu mais jeito pra minhas calças. Mandala e sua amiga estavam de
olhos arregalados.


- Salvador, mulher, o que há de ser do
Freitas de Matos? Esse homem tem parte com o cão!



- Mulher, se aquiete, pois, num há
impossível para o nosso bom Deus. Além do mais, é sabido que Ele dá o frio
conforme o cobertor.


As autoridades de Campos foram
investigar o ocorrido e comprovaram que a cova onde Plínio fora sepultado tinha
resíduo de um produto químico não conhecido pela química atual. Seu Rivas,
investigador de carreira, ficou muito intrigado com o fato.



- É muito suspeito. Uma pessoa
ressuscitar por foça química. Geralmente, é Deus ou Nossa Senhora que faz isso.



- É seu Rivas, mas, o sertão é cheio de
mistérios. Disse Francisco, um dançador de Funk sertanejo.



- E agora, o que será dele, para todos
os efeitos, ele encontra-se morto.



- Oxente, mas o homem num tá aí,
respirando e andando na rua?



- No estado de direito, seu funkeiro, as
coisas não são tão fáceis. A Plínio cabe o ônus da prova de que está vivo,
afinal, ele é portador de uma certidão de óbito.


Foi essa a desculpa que a escola Freitas
de Matos apresentou para não readmitir o antigo funcionário. Plínio, então,
procura seus direitos contratando o advogado do povo, o Dr. Peixoto, ou,
Peixotão como os meninos do Aranhas futebol club costumava chama-lo. Peixotão
adorava ajudar aos moços nos dias de campeonato.


- Mas, doutor Peixoto que lei é essa?
Então, quer dizer que mesmo vivo, com dezenas de testemunhas de minha condição
de vivo, para o estado eu preciso resolver a papelada. E o que é que eu vou
fazer? Peixoto tira um cigarro de dentro da carteira que estava sobre seu birô,
acende-o, gagueja um pouco e traz a mão trêmula até sua boca. O ar letal lhe
enche os pulmões enquanto a brasa do cigarro ficava mais viva. Peixoto parecia
assustado com o morto-vivo.


- Sabe, Plínio, o estado é burocrático.
Já pensou uma sociedade sem burocracia?



- Como assim?



- A burocracia é uma indústria rentável.
Se retirássemos do mercado os soldos pagos pela burocracia a economia quebrava.
Ademais, sem o documento escrito e juramentado, nada feito. Ninguém vai crer na
palavra de ninguém.



- É, mas, no meu caso eu voltei, qual é
a culpa que eu tenho?



- Nenhuma, então, espere os processos
legais para reaver seu cargo. Traga-me sua certidão de óbito, que vou
providenciar um encontro seu com o Dr. Afonso Santos. Afonso era o juiz da
comarca de Campos. Plínio se retira da presença de seu advogado e o deixa ao
telefone. Peixoto conversa com Maria Mandala.


- Peixoto, meu filho, hoje ao conversar
com dona Florinda, lembra-se de Florinda, ela foi sua professora na terceira
série?



- Sim, lembro-me muito bem, Mandala. Em
que posso ajuda-la?



- Meu filho, estamos organizando as
fichas dos ex-alunos. Queremos em dezembro agora homenagear alguns que se
destacaram e você é o nosso escolhido para receber o prêmio excelência da
Escola Freitas de Matos.



- Mas, professora, eu fui um péssimo
aluno. Por quê?



- O que conta agora é que você é um
grande advogado. Sim, Plínio esteve aí?



- Os assuntos com meus clientes são
todos confidenciais.



- Meu filho, esse homem é um bandido, um
tarado sexual. Ajude-nos a mantê-lo fora da escola. Mandala estava mesmo
decidida a prejudicar Plínio mais uma vez.


Apesar dos clamores de Mandala, o
advogado preferido dos filhos de Campos ajudou o finado ressurreto Plínio. A
escola não pode fazer nada, Plínio estava de volta à suas funções. Contudo, se
antes as pessoas o evitava, agora, muito mais, pois, a suspeita do mal estava
sobre ele. Para todos os efeitos, Plínio vivia no Freitas de Matos como se não
existisse. As pessoas o ignoravam, e faziam questão de mostrar-lhe o desprezo.
Tudo porque Mandala não gostava dele. “Mamãe, reze por mim, agora, terei de
conviver com aquele maníaco”. Maria era muito apegada a sua mãe. Na verdade, o
povo comentava que Maria era a mãe mais nova. “Mandala faz tudo que a mãe
quer”.


Plínio foi para sua sala que também era
depósito, e em certas ocasiões, biblioteca. Entre, livros velhos e novos,
tralhas e freezers velhos, Plínio retoma sua vida. Ninguém, nenhum funcionário
ousava lhe dirigir a palavra. Inevitavelmente, o velho Plínio era um execrado
da comunidade escolar. Mandala estava muito feliz em saber que seus subalternos
a obedecia prontamente. Todavia, algo muito curioso acontecia nos horários de
trabalho do funcionário defunto. Um pé de mandacaru nasceu em sua sala. A
cactácea rompeu o cimento do piso e rumou para cima heliotropicamente: “Meu
Deus do céu, um pé de mandacaru na sala do homem?” “Como?” Esse milagre da
natureza chamou a atenção de todos, contudo, o medo do desconhecido provocou
maior evitamento. Agora, Plínio era um homem com a arte do demônio.


Quanto mais Mandala cortava a planta,
ela surpreendia a todos, no outro dia, ele estava verde e forte. Mesmo que a
arrancasse do chão, no outro dia, ela se erguia e tornava ao mundo dos homens.
Chamaram, então, Frei Anacleto. “Mulher creio muito na reza de Anacleto”. “Por
que comadre?” “Anacleto é um homem tão santo que sua voz é bem fininha”. “Ah,
sim. E num é mesmo mulher; ele só anda com os meninos da paróquia”. A reza do
Frei de nada serviu. Mandala decide fazer outro piso. O prefeito Aspeguetti
providenciou de imediato o material. Seu lema sempre foi: “Aspeguetti, a
educação em primeiro lugar”. No entanto, em sete dias o mandacaru insistente
estava forte e firme. Plínio decide analisar o ser vivo. Segundo sua apreciação
se tratava de uma cactácea plenamente adaptada à vida semiárida. Todavia, ele
retornou com uma forma fálica, na verdade, depois que a diretora mandou
arrancar a planta; ela ganhou a forma de um pênis bem crescido. Era um falo de
mais de metro. Com o tempo, as moças, as mulheres e os efeminados foram ver o
mandacaru pênis. O professor de biologia do ensino médio tinha uma teoria: “Os
pensamentos coletivos provocaram a anomalia”. O caro docente era da corrente
junguiana. Nada contra a planta lograva sucesso, da mesma forma era com Plínio.
Fizeram de tudo para implica-lo em alguma coisa. Plínio e o mandacaru, pela
força das circunstancias, se tornaram amigos. Foi num sábado de sol muito
quente que tudo começou. Plínio fora designado para trabalhar num sábado
letivo. Quando os mestres se foram, Plínio permaneceu até chegar o outro staff.
Entre meio dia e uma hora da tarde, Plínio escuta um assobio vindo da planta
sertaneja. Ele, a princípio pensou ser uma ilusão auditiva, mas, depois, na
terceira vez, a planta moveu-se.


- Ei moço, dá pra dá uma coçadinha aqui.



- Eu? Rapaz num dá não.



- Por que?



- Rapaz, você parece...



- O que moço?



- Um..., o órgão dos homens.



- E dai? Qual é o problema em ser fálico
nesse mundo?



- O povo num gosta não.



- Bem, eu vejo que as mulheres adoram
minha aparência.



- Mas, Mandala, mandou corta-lo inúmeras
vezes.



- Você se refere a afrodescendente de
pele branca?



- Sim, amigo.



- Às vezes queremos nos livrar do que
nos seduz.



- Ah, sei. A conversa entre os amigos
tornou-se hábito. Agora Plínio tinha um amigo de verdade nos sertões de Campos.



- Psiu!



- Sim?



- Plínio, muito cuidado com a fera, o
desejo também pode ser ódio e o ódio desejo.


Mandala não desistia do que queria. Sempre
firme a seu credo e a sua fé passou a provocar o tarado do Freitas de Matos.
Algumas pequenas que faziam vida foram arrebanhadas para comprometerem a vida
de Plínio: “Eu sei que ele num suportará umas pernas trabalhadas”. As meninas
passaram a frequentar a sala de Plínio no horário de trabalho e câmeras ocultas
faziam o serviço sujo, mas, nada foi flagrado, a ficha de Plínio continuava
limpa; as meninas gostaram muito dele e do respeito que ele tinha por elas.



- O danado é sem vergonha, agora, faz o
papel de homem de bem.



- Calma, calma, Mandala. É como diz o
ditado: “Um dia atrás do outro e a noite no meio”. Mas, cedo ou mais tarde, ele
revelará seu íntimo. Disse a pedagoga Márcia que fez o curso por
correspondência e com a ajuda da comunidade. Mandala passou a provocar os
nervos de Plínio. Quando a mesma chegava a sua sala, ela abria as gavetas com
violência. Muitas foram as vezes que as professoras deixaram suas turmas para
ver o que acontecera no depósito da escola. Com o tempo o povo se acostumou,
quando se ouvia uma reclamação ou zoada de pancadas raivosas nos móveis, todos
sabiam que era a guerreira do Freitas de Matos. “Eita, que Mandala está que
tá”. Pensou seu Rodrigo, um velho funcionário, que trabalhou até os oitenta
anos para se aposentar com o salário mínimo menos o desconto de R$ 270,00 do
sindicato.


A vida de Plínio no Freitas de Matos não
lhe dava vontade de permanecer lá. Mas, o velho funcionário da educação
sergipana não tinha outra coisa pra fazer. Certo dia, conversando com seu amigo
mandacaru, no horário de troca de turno, ele descobre algo que lhe intrigou a
mente por muito tempo.


- Eu não queria fazer intriga, mas, foi
Mandala que matou você.



- E como ele fez isso?



- Foi a comida envenenada. Ela te serviu
a comida e você nem desconfiou.



- Como você sabe disso?



- Simples, as cactáceas observam a tudo
no sertão.



- E por quê?



- Você é tudo que ela abomina.



- Rapaz, mas, que sorte a minha.



- Em Campos, destruir o próximo é máxima
social.



- Mas, por quê?



- No sertão, quando alguém escolhe sua
vereda deve se lembrar de que as coisas não mudam devido à relação promíscua
das mentalidades. A mentalidade local não aceita o novo, o diferente, e você é
diferente. No sertão, os homens estão a serviço da moral, e esta é ferramenta
de amansamento do gado local.



- Seu mandaca, eu posso chamá-lo assim?



- Pois, não.



- Como a moral se torna uma ferramenta?
O mandacaru pediu um momento para se coçar, e depois, retoma sua fala:



- Por meio dos paradigmas morais, a
classe dominante, assim como o clero, pode estabelecer uma relação meritória
com a realidade. Os homens de bem, são os que cumprem as regras consagradas,
sendo que essas regras, na sua grande maioria, nada de ético tem, são apenas
costumes locais, inventados, e forjados para tornar a vida das pessoas ainda
pior. O seu boné é abominável em Campos. Para Mandala, usar boné é coisa de
bandido. Seu cachimbo é um escândalo, pois, em Campos, cachimbo é coisa de
macumbeiro, e macumbeiro em Campos é coisa do demo. Seus costumes, como tomar
banho de rio com essa idade é, também, uma afronta à sociedade local, pois, o
lugar de se tomar banho em Campos é o banheiro, ou o clube social.



- Bem, seu mandaca, então, eu estou mal
em Campos.



- Não senhor, do mesmo jeito que eles
execram o novo, eles amam ao mesmo. A relação é ambígua.



- Eu não entendo, seu mandacaru.


A conversa estava boa, entretanto,
Plínio precisava deixar a escola para fazer algumas compras. Ao longo de seu
trajeto, nenhum ser humano se aproximou do homem. Nenhuma conversa, apenas,
algumas palavras com o doutor Peixoto defronte ao mercadinho local.


- Rapaz por que você num sai do sertão?



- Eu vim pra cá novo, agora é tarde, eu
amo essas terras.



- Mas, o sertão não ama você. Estão
fazendo um abaixo assinado para te por pra fora do Freitas de Matos.



- Mas, como doutor?



- Sim, eles já têm cem assinaturas e vão
enviar para o secretário na capital.



- Mas, o que foi que eu fiz?



- Não precisa fazer. O advogado do
sertão se despede de Plínio desejando-lhe paz.


O ano letivo comporta muitos sábados
letivos. Dizem que o programa do governo é pôr algo redondo num buraco
quadrado, pois, com os feriados, e imprensados ao longo do ano é impossível
cumprir a carga horária. Aquele seria um sábado letivo cheio de novidades para
Plínio. Mandala o recomendou que ficasse na escola até a chegada dos
funcionários da tarde. Plínio tentou negociar com a mulher, mas, a mesma foi austera
com o moço: “O expediente só termina às treze horas”. “Mas, é um sábado”. “É
treze horas e pronto”.



Os professores terminaram suas
atividades por volta das dez. O portão principal da escola foi fechado às dez e
quinze. Plínio aguarda terminar seu turno no depósito como era costume há muito
tempo. Próximo das onze horas, o seu Mandaca reclama ao seu amigo Plínio que
estava sentido umas coceiras estranhas em seus espinhos e que alguns deles
estavam muito desidratados. Plínio explica-o que seus conhecimentos de botânica
eram muito escassos. O mandacaru diz que compreende, mas, isso não aliava seu
mal estar. Às onze e sete minutos, Plínio percebe que a planta havia amarelado.
O mandacaru, amigo de tanto tempo, havia falecido misteriosamente. Plínio chega
perto da planta e percebe que havia sangue saindo de sua casca, a cactácea, em
vez de seiva, tinha sangue.


A morte de seu mandaca preocupava a
mente de Plínio aquele fim de expediente. O silêncio na escola era absoluto. O
vento do sertão, de vez em quando, soprava e assobiava um som sinistro. Era a
morte que havia visitado o depósito do Freitas de Matos mais uma vez. Um som de
cadeado bem suave é ouvido por Plínio. “Quem será?” “Deve ser alguém da
escola”. “Pois, se não fosse teria chamado”. O portão interno range. Plínio se
levanta para verificar. A ninguém viu, exceto, os pardais a comer restos de
merenda escolar. “Mas, que?” Ao retornar para sua sala, Plínio encontra a
guerreira do Freitas de Matos.


- Então, você tem parte com o satanás!



- Como Mandala?



- Você precisava ouvir umas verdades. Eu
não suporto você. Seu depravado! Mandala ao dizer depravado corou o rosto.



- Mandala eu não sei o porquê que sua
pessoa me odeia tanto.



- Se olhe no espelho coisa nojenta!
Plínio se aproximou da eterna diretora de sua escola. Ao fazer isso, a
respiração da mulher ficou ofegante. Os dois frente a frente a quase quarenta
centímetros de distância fez Mandala baixar a voz.



- Mandala nunca eu te entendi. Nunca
encontrei uma explicação para teu ódio por mim. O que eu te fiz? Mandala tenta
se recompor e responde ao moço.



- Não é nada pessoal. Apenas defendo a
comunidade.



- Mas, não sou bandido, ou coisa assim.
Os olhos de Plínio estavam cheios de lágrimas. As gotas escorriam pela face.
Mandala nunca havia visto um homem chorando, aquela era a primeira vez. Sem
consciência do que fazia, Mandala estende a mão e toca a face de Plínio. Seus
dedos se molham de água e sal. Mandala encontra os olhos de seu adversário
finalmente. Sua respiração volta a ficar ofegante, sua pele recebe uma descarga
elétrica vindo de seu encéfalo que segregara substancias progesterônicas.
Mandala sentia, novamente, o mesmo calor de quatro anos atrás. “Nós já vivemos
isso”. Disse Plínio. “E depois, eu morri”. Continuou Plínio. Mandala permanecia
em silêncio, contudo, suas mãos falavam muito aquele final de manhã. Mandala
tira a roupa de Plínio como se estivesse em um transe agudo, seus olhos não
perdiam o foco – os olhos de seu adversário. O funcionário concursado Plínio
permanecia imóvel. A mulher lhe beija o peito repetida vezes, passa-lhe a mão
pelo corpo suado que também se aquecia com o toque da senhora. Os dois estavam
sós, a escola agora nada significava, o que movia a mulher era uma força
interna muito maior que seu bom senso. A mesa do depósito biblioteca foi
rapidamente adaptada para cama, o casal gemia sobre ela, o barulho chamou a
atenção das aves que logo começaram a cantar e a celebrar o maior sentido de
vida. Beijos são trocados, alternados com palavras de carinho, uma troca
constante de afeto acorria sem planejamento. O casal repetiu a mesma coisa até
suas forças não suportarem. O portão bate novamente. Plínio sai para ver quem
é. Não era ninguém, ele retorna a biblioteca e ela estava vazia. “Pra onde foi
Mandala?” Pensou o homem. De repente, Plínio sente uma pancada na cabeça, seu
corpo cai sobre o chão frio da escola Freitas de Matos. Seus olhos veem o
brilho do aço da lâmina que lhe corta o pênis. Seu coração lentamente para.


- Plínio! O amigo mandacaru o aguardava
do outro lado.



- Onde estou, onde está Mandala?



- Ela se safou dessa de novo.



- Como?



- Ela te matou. Não te lembras?



- Não.


Mais uma vez enterraram Plínio. Ninguém
de sua família reclamou o corpo. Plínio foi parar no Campo Santo da mesma forma
como da outra vez. A polícia investigou o caso. O sangue encontrado no
mandacaru era o mesmo de Plínio. Uma coisa intrigou muito a perícia policial:
“Como o sangue do funcionário concursado foi parar no interior da cactácea e
quem levou o pênis da vítima”. A escola Freitas de Matos estava em Paz
novamente.



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