O sertão de grandes mistérios.

21 de Março de 2014 ROOSEVELT Contos 881

O
sertão de grandes mistérios


A caatinga branda te
recebe logo após Riachão do Dantas que ainda traz o sorriso do agreste. No alto
do Povoado Saquinho, se avista um enorme vale cercado de serras por todos os
lados; a Serra do Canine é a mais imponente entre elas. Mais a frente, o Rio Real
serve de divisa natural entre Sergipe e o Estado da Bahia. Esses sertões de
Campos do Rio Real produziu um tipo de brasileiro muito especial. O brasileiro
da caatinga hipoxerófita. Um povo bonito, trabalhador, e cheio de histórias
para contar. Em meio a uma mata espinhenta, terra de massapé duro no verão, e
entijucado no inverno surge no portal do sertão sergipano o povo mais bonito da
terra – O povo de Campos do Rio Real. Dizem os aracajuanos: “Quer conhecer
mulher bonita?” “Vá a Tobias Barreto!”



Descendo a ladeira do Povoado Saquinho o
visitante se deleita com a natureza viva do lugar. As garças dividem a cena com
o gado que lentamente se movimenta pelas centenas de hectares de pastos até
chegar à ponte do Rio Jabiberi. O carcará, ave da família das águias, risca o
céu em busca de carniça ou algum animal de sua dieta. Dizem os antigos
rezadores da região que uma pena de carcará arrancada dele ainda vivo pode ser
de muita valia na reza contra o mal olhado. Parece que ela ativa a força dos
silfos – os elementais do ar.



O carro de boi com seu som típico também
aparece por essas terras de Campos, sobre ele vai o valente sertanejo tobiense
em busca de seus sonhos. A cidade era apenas uma Vila a pouca mais de um
século, hoje, Tobias Barreto é uma das cidades mais importantes de Sergipe.
Nenhum político inteligente deixa de visita-la em época de eleição.



- Madureira!



- Deixa-me Amaral! O dia mal nasceu e
você já está com meu nome na boca! Deixa-me em paz, mulher!



- Mas, Madureira, você num disse ontem
que queria acordar cedo para ir a Tobias Barreto?



- Dona Maria do Amaral, me perdoe, mas,
não aguento mais! Deixa-me em paz!



- Depois num diga que eu não chamei!



Eram dez da manhã quando Madureira saiu
de seu quarto rumo ao banheiro para um banho frio e demorado. O homem gostava
de cantar ao banho – esse era um costume dos ‘madureiras’. Seu avô Pedro
Madureira, e seu pai José Madureira faziam o mesmo, diz o povo.



- Amaral onde está a chave do carro?



- Você, quando chegou ontem a deixou
sobre a mesa da cozinha. Se não tiver lá, deve estar na peça da sala. Você num
vai comer nada não?



- Mulher, eu como no caminho, quero
chegar a Tobias antes do meio dia.



- Então você vai virar uma bala, pois,
já são quase onze horas.



- Tudo isso? Por que você não me acordou
mais cedo?



- Madureira! Eu te chamei! Sabe de uma
coisa? Vá em paz!


Madureira deixou Aracaju em paz e foi
para o sertão de Campos do Rio Real onde ele se encontraria com lideranças
políticas que apoiariam seu candidato para deputado estadual, o famoso Augusto
Souza, com ‘z’, é claro. Madureira era cabo eleitoral de uma aliança política
que crescia assustadoramente no centro sul do estado de Sergipe. Mas, em
Tobias, o aracajuano não tinha muita fé, pois, as lideranças políticas da
região estavam em conflito há décadas, por essa causa, Campos não elegia nenhum
deputado.



- Vocês não conseguem eleger ninguém,
então pessoal, por que não votar em Augusto Souza?



- Nós só gostamos de votar em gente que não
é daqui. Severino coçou o dedo indicador e polegar ao dizer ‘gente que não é
daqui’.



- Mas, vocês não se unem para que um
nome ganhe força. A culpa é de vocês e não do povo. O traçado político está
muito medíocre, vocês não acham? O Vereador Severino, proprietário do maior
curral da região, cuspiu no chão de massapê em frente à praça principal de seu
feudo.



- Assim num dá! O amigo vem de longe
pedir voto para seu candidato e ofende a gente! Eu num dou apoio não! O
desapoio de Severino deixou Madureira numa situação muito delicada, pois, sem
Severino, político nenhum ganha em Tobias.



- Seu Madureira! Se Severino não der o
apoio, o amigo num tem voto em Campos não! Essas palavras levaram Madureira de
volta para sede do município de cabeça baixa.


O sol causticante da terra deu uma
trégua para o que seria uma rápida chuva de verão. Quando Madureira avista
Tobias, do alto da boiadeira, a cidade estava debaixo d’água. As nuvens cinza
chumbo cobriam o céu formando um estranho e aterrador círculo escuro. O radio
do carro parou de funcionar, o celular saiu de área, e por fim, o carro parou
no meio do nada. Ninguém vinha ninguém e ia. “Mas, o que é isso?” Madureira sai
de seu carro, olha para o céu sobre sua cabeça, e vê luzes como se fossem
raios, mas, não havia trovões. “Onde estão os trovões?” Perguntou a si mesmo o
cabo eleitoral de seu Augusto Souza – “o deputado do povo”. O homem voltou para
dentro de veiculo, tentou a partida e nada. “Será gasolina?” Pensou o moço
tentando acender as luzes do painel. Mas tudo foi em vão. No céu, parecia que
um tornado de alta potencia desceria sobre ele a qualquer momento. Na rodovia,
uma alma se quer aparecia a milhas de distancia. “O jeito é esperar”. Madureira
se sentou em seu carro e esperou acontecer alguma coisa. Contudo, nada
acontecia. Nem chuva, nem tornado, nada.


A tarde caminhava para o seu crepúsculo.
O céu escuro por causa das nuvens encobria a beleza do crepúsculo sertanejo de
Tobias Barreto. Madureira, em seu carro, nada podia fazer, exceto, esperar. O
homem esperou o anoitecer, e ele veio e com ele o medo de maníacos e
assaltantes. Madureira decide ir para residência mais próxima. Uma luz de
candeeiro ao longe indicava que era aquela a residência mais próxima. Passou a
cerca, caminhou pelo pasto e chegou ao local. Este era uma casa quatro águas
com duas janelas de cada lado. A casa estava vazia. Seus moradores não deixaram
recado, no entanto, no fogão a gás havia uma panela de feijão com carne
borbulhando. Madureira correu, desligou o fogo, acendeu umas velas que estavam
sobre uma pequena mesa, e procurou pela casa uma evidência de alguma coisa – um
indicativo que lhe desse uma luz sobre o que estava acontecendo. “Por que
aquelas pessoas saíram justamente na hora da comida? Faz pouco tempo que eles
saíram!” Essa pergunta de Madureira, no momento, não tinha resposta.



Madureira comeu o feijão com carne, cuscuz
de milho e café quente. O homem encheu a barriga como não fazia há muito tempo.
Todos aqueles dias de campanha havia provocado uma total bagunça nos hábitos do
homem; ele não tinha tempo para nada, exceto, cuidar dos votos de seu
candidato. Ademais, no dia em que ele recebeu essa incumbência ele afirmou
amiúde diante de todos que faria o possível e o impossível para atingir a meta
estabelecida. Um som grave é ouvido sobre a casa quatro águas. Parecia alguém
arrastando um baú muito pesado. “Mas, quem está aí?” gritou o cabo eleitoral.
“Olhe eu estou aqui, mas, foi por força da necessidade!” “O que está
acontecendo?” “Faz horas que não passa um carro na pista!” Ninguém respondia ao
pobre caçador de votos.


  Mas,
foi durante a alta madrugada, adormecido na cama de casal, da casa de roça que
Madureira se deparou com o mistério que ele levou para o túmulo. Um disco
voador era a causa de tudo. O disco estava estacionado sobre a casa como esteve
sobre seu carro. As luzes que saíam dele eram como raios, contudo, sem som. O
objeto não fazia barulho, no entanto, naquele momento, o som que vinha dele era
muito desagradável; era como se alguém arrastasse um baú muito pesado sobre uma
superfície de madeira. Uma luz vinda do orifício inferior da nave estranha
incide sobre a casa e sobre o homem. Madureira sentiu um calor muito forte,
depois desmaiou, e acordou no interior do veículo.


O disco tinha um diâmetro de120 metros,
sua área, então, era muito grande. O seu interior possuía algumas pequenas
salas como se fossem ambulatórios médicos. Ele foi levado para a que tinha a
cor laranja. Um ET feminino se aproxima do homem e diz: “Não se preocupe, não
vai doer, nem você vai se lembrar de nada”. A moça de estatura pequena,
aparência humana, muito parecida com orientais, segurava um aparelho que era
introduzido no bulbo encefálico da pessoa e seguia para o encéfalo
conectando-se na glândula pineal. Ao ver o aparelho, mesmo em estado de
sonolência, Madureira tenta sair da maca, mas, suas forças não vieram socorrê-lo.
Madureira jamais soube a quantidade de tempo que dormiu, mas, quando acordou
estava em outro quarto, desta feita, muito parecido com o seu em sua casa em
Aracaju. A nave passou um tempo na órbita da terra; Madureira entendeu, então,
que os seres extraterrestres estavam estudando o planeta. “Mas, o que?” “Qual o
propósito?” Por muito tempo assessorando políticos, Madureira jamais pensou em
falar sobre essas coisas em seus discursos, agora, ele via que havia outras
necessidades para a humanidade se preocupar, pois, se seres estão vindo de
outros mundos estudar este planeta é por que, ou ele deve ser muito especial,
ou está com problemas. A nave decide seguir curso para o espaço infinito. A
mulher alienígena com aparência de oriental, mentalmente, lhe manda entrar em
um tubo de cor azul, do tamanho de um homem, feito com um material que ele
nunca tinha visto na terra. Dentro do tubo, ele inalou oxigênio e um sonífero,
pois, a viagem seria em uma velocidade que o ser humano não suportaria. A nave
entra no hiperespaço rumo à constelação de Orion. As três Marias, tão
conhecidas, no sertão fazem parte dessa constelação, a nave ia para o Planeta
Zit que orbitava o sol de Nous. Este é um sol muito parecido com o nosso, e
possuidor do mesmo magnetismo. A atmosfera de Zit se assemelhava muito a da terra,
a única diferença era que as estações do ano eram tão precisas que parecia que
tudo era uma coisa só. O diâmetro do planeta era menor que o da terra, os dias
do planeta eram mais curtos que os nossos, e os anos bem maiores. Sua gravidade
permitia que as pessoas não fizessem muita força para se moverem em sua
superfície. A nave pousou suavemente em uma área militar. A moça com aparência
oriental acompanha nosso viajante do espaço para seus aposentos. Madureira
ficou hospedado num prédio militar em algum lugar do planeta Zit.


Os dias e noites no planeta Zit foram de
muita aprendizagem, a moça oriental conduziu o novo hospede para o processo de
socialização. Telepaticamente ela dizia para Madureira que ele encontraria
outras pessoas da terra e de outros planetas também.



- Não se preocupe morador do mundo azul.
Você encontrará conterrâneos seu em nosso curso de socialização.



- Mas, sua pessoa poderia me dizer de
que se trata tudo isso?



- Vista seu uniforme, pois, sem ele você
não terá peso para andar no planeta.



- Moça, eu fiz uma pergunta que tal você
me responder?



- Vista o uniforme e ponha o capacete de
cor preta, pois, este tem o programa de tradução multilinguística. Temos
pessoas de muitos lugares do espaço. A moça acompanhou Madureira até a sala de
socialização. Ao se expor a atmosfera do planeta, Madureira sentiu náuseas, seu
corpo era puxado para cima sendo preso ao chão por uma força magnética que
vinha do uniforme que ele usava. A moça com feições orientais dizia para ele
“Calma, já, já você se adapta”. Antes de entrar em um prédio de vidro escuro
onde seria a reunião, Madureira já havia se adaptado à atmosfera. A moça o
deixa na porta recomendando-o que fale somente a verdade. A sala era redonda com
filas de cadeiras postas de forma circular no sentido ascendente. A sala
parecia um teatro romano, no entanto, em vez de gladiadores e plateia, estavam
ali, seres das mais diversas localidades do cosmo. Madureira procurou sentar ao
lado dos abduzidos da terra, entre eles, estava o tal Severino de Tobias
Barreto.



- Rapaz, o que sua pessoa faz aqui?



- Sei não. Eu fui para Brasília, ali perto
do povoado, você conhece o Povoado Brasília?



- Não. Disse Madureira a Severino.



- Então, eu estava na estrada quando o
céu escureceu; as nuvens estavam negras que parecia que era uma tempestade;
nada funcionava, carro, celular, etc., e eu dormi e acordei aqui.



- É. Foi o que aconteceu comigo. Eu
estava na estrada quando tudo parou de funcionar, aí, com medo, caminhei para
uma casa, e lá, eu sumi e estou aqui.



- Sim, e o que a gente pode fazer para
ter alguma informação sobre esse lugar misterioso?



- Tem uma moça oriental que me
acompanha, e você quem anda com você?



- Uma moça oriental. Os dois olharam
para fora do prédio pelo vidro escuro e viram que todas as pessoas do planeta
tinham uma aparência oriental, somente dentro da sala onde eles estavam é que
havia seres de formas e aparências variadas. Um cidadão com a aparência de um
sapo cururu toma a palavra e abre a reunião. Seu idioma parecia
incompreensível, mas, com a ajuda dos capacetes Madureira e Severino entendiam
o que estava sendo dito.


“Todos os moradores da Via Lactea sejam
benvindos a comunidade de Orion sediada no planeta Zit; está aberta a reunião
Intersistêmica bianual para assuntos planetários e morais”. Quando o sapo
extraterrestre disse morais, Severino deu uma risada, o que foi imediatamente
repreendida, o mesmo levou um choque de 70volts.  Severino se ajeitou no assento e o sapo lhe
dirigiu a palavra no vernáculo.



- Quem sua pessoa pensa que é? Suas
moléculas de carbono podem ser facilmente desintegradas pela força de sua
moralidade.



- Olhe seu sapo, eu nem sei por que
estou aqui. Severino se pôs em pé e disse: “Pago bem para alguém me dizer que
diabo é isso, porra!” Houve um tumulto na sala; o presidente da reunião chamou
a segurança para restabelecer a paz.



- O amigo ainda não entendeu que está a
milhares de quilômetros de distância do ambiente onde suas praticas macabras
são realizadas? Aqui é Zit, é a constelação de Orion, um mundo muito maior que
o seu mundinho. Disse o sapo de forma áspera.



- Com todo respeito seu sapo, mas, eu
não entendo nada aqui. Na verdade eu quero ir para casa.



- Primeiro, nós anfíbios estamos na
frente de vossa linha evolutiva. Todos vocês terráqueos já foram sapo um dia.
Por isso, muito respeito, por favor! Segundo, a nossa reunião é muito séria, a
galáxia está ameaça por uma instabilidade nos sistemas, e isso pode destruir o
vosso planetinha. Convidamos os melhores gênios da terra para discutirmos o
assunto, e você é um deles. Severino deu uma rizada e disse: “Mas, seu sapo, no
nosso tempo, Tobias não tinha escola, eu fiz até a terceira séria com dona
Raimunda e só”. Quando Severino disse de sua escolaridade houve uma agitação no
plenário. O presidente da reunião mandou trazer a tripulação da nave enviada à
terra para prestar esclarecimentos. O piloto chefe da nave HZTX1 foi trazido
por militares à reunião. O presidente Doutor sapo pede esclarecimentos. O
piloto, então, toma a palavra:


“Passamos quatro meses gravando as
formas mentais de pessoas cuja origem remonta as mais diversas castas de seres
humanos extraída de toda a história, e percebemos que os políticos e os ligados
a eles tem uma constituição mental muito mais adiantada que a média; vimos,
então, que para disseminar na terra as novas ideias desse plenário tão ilustre
esse tipo esquisito de terráqueo é o mais indicado”. Após terminar sua fala, o
piloto passou para as provas empíricas. Ele abriu um holograma que tinha a
memória de Severino - O senhor de Campos. Nela estava o registro de todas as
campanhas que o homem participara e as estratégias usadas para prender as
pessoas ao seu feudo. Quando o plenário viu as obras do ilustre político
tobiense o povo se agitou novamente. Um extraterrestre com traços filipinos,
natural do Planeta Cum se irou e disse:



- Isso é um absurdo! Esse homem prendeu
as pessoas com falsas esperanças por mais de três décadas e nada mudou em seu
mundo. Recuso-me a estar no mesmo lugar que esse indivíduo. A agitação
continuou parando apenas quando sapo abriu a boca e estendeu a língua tirando o
ET revoltado da reunião. Houve uma pausa, um silêncio fúnebre acercou-se da
sala. Um ET que falava como se fosse uma cigarra tomou a palavra para falar.
Severino cutucou seu amigo Madureira e disse silenciosamente: “Rapaz, aqui, até
cigarra tem vez”.


“Meus caros amigos de Orion e de outros
sistemas. Estivemos na terra muitas vezes. Acompanhamos sua evolução durante as
eras geológicas, podemos afirmar que, em se tratando de formar opinião e
manipular a mente humana, o terráqueo político só perde para os atores de
cinema. Por que não trouxeram esses também? Pois muito bem, eu acredito que
esses dois possam contribuir com nossos estudos. Vamos analisar o input
encefálico deles”. Um raio saiu de um globo que desceu do teto sem fio, a coisa
flutuava na sala. O primeiro foi Severino, depois foi Madureira que teve sua
pressão alterada quando viu sua conduta na campanha passada. “Foi só trezentos
contos”. Dizia ele consigo mesmo. O que mais chamou atenção do conselho
intergaláctico foi a habilidade de convencer as pessoas. Tanto Madureira como
Severino construíram diversos cérebros e mentes. Fizeram gerações pensarem que
a seca era coisa de Deus ou de Santo. A comissão para assuntos de mídia
intergaláctica avaliou que se eles conseguiram tamanha façanha com a tecnologia
da terra quanto mais com a física quântica e a filosofia do Setenário Cósmico.
O Setenário Cósmico é um conjunto de sete energias cósmicas que emanam a luz do
centro do universo; isso para a ciência de Zit é posto apenas para representar
uma referencia no universo, pois, a suprema força transcende o tempo e o
espaço. Em Zit Deus é representado pelo signo de um círculo com um ponto no
meio da circunferência. A língua Zitaniana não tem alfabeto, em vez de palavras,
hieróglifos. O símbolo mais importante em Zit é o símbolo formado por uma seta
com a ponta para cima, e na outra extremidade a seta dobra para a esquerda
formando um triangulo como se fosse o número quadro deitado. A outra linha do
triangulo ao cruzar a seta novamente para a esquerda formando um triangulo
inacabado, digamos assim. Ela aponta para Saturno, o planeta que deu origem a
civilização de Zit há milhares de anos. A comissão decidiu educar Severino e
Madureira em toda a ciência de Zit. Os dois, então, fizeram um curso em estado
de inconsciência enquanto os inputs iam sendo realizados. Após algumas horas,
os dois estavam prontos para um estágio em uma comunidade de Zit, uma pequena
cidade próxima ao monte Hurt.


O crepúsculo Lilás de Zit fascinou os
dois terráqueos. A nave ficou suspensa enquanto os dois homens desciam em um
jato de luz. Eles foram deixados numa plantação de um cereal que muito se
assemelhava ao arroz, a diferença estava na casca que era mais grossa e dura.
Severino, que sempre teve medo do ermo, perguntou ao seu amigo assustado.



- Rapaz, onde estamos?



- Mas, Severino rapaz, tu estás com medo
macho?



- Num é medo não. Eu estou é assustado.
Você faz alguma ideia que lugar é esse?
- Nós não estamos na terra homem! Como é que eu vou saber? Eu sempre fui
péssimo em geografia. Ah, mas, para ser político não precisa estudar mesmo.



- Epa! Pera lá! Assim sua pessoa está me
ofendendo!



- Que direção!



- Ah! Essa aqui! Os dois terráqueos
foram, sem rumo, até que por sorte, encontrarem a cidade de Hurt. Ali as
pessoas choravam muito. Em Hurt o choro era cultura. Se você não chorasse pelo
menos sete vezes por dia, você não era um bom homem. Os religiosos e éticos da
terra acreditavam que o líquido ocular por ser rico em cloreto de sódio,
limpava a alma e dava paz ao coração. Quando Severino e Madureira entraram na
pequena Hurt a comoção era grande. Os homens foram recebidos por homens,
mulheres, crianças e idosos, todos em pranto, isso para eles, era sinal de boas
vindas.


O prefeito da pequena cidade Zitaniana
convidou os visitantes do outro mundo para uma cerimônia que seria realizada no
salão oval, este era o principal lugar de Hurt. A sala oval tinha uma
biblioteca virtual intergaláctica atualizada. Todos os títulos podiam ser
vistos em hologramas ou em outras tecnologias. O ancião da sala oval concedeu a
palavra ao prefeito de Hurt, este era um homem que respondia pelo nome de
Lúceres:


“Meus caros cidadãos de Hurt, é com
muitas lágrimas que chorosamente apresento (pausa – uma comoção muito forte
tomou conta da sala) os visitantes da terra (Pausa, o senhor prefeito tomou o
lenço para chorar, contudo, sua lente de contato ficou presa ao lenço e ele não
podia mais ler o discurso), sim, hum, hum, como eu ia dizendo, os visitantes de
Marte” Ao ouvi a palavra Marte Severino teve um acesso de riso incontrolável, e
isso em Hurt era estritamente proibido. A sala calou. Madureira fala ao ouvido
de seu companheiro: “Rapaz tu é doido?” Você num viu ali na frente escrito na
língua deles que era proibido rir?” Severino ficou a pensar, por um instante,
como foi que Madureira tinha conseguido ler aqueles garranchos. Os dois foram
encaminhados a uma sala reservada para esclarecimentos. “Nós não vamos
penaliza-los, mas, como vocês são imputados, já deveriam ler e escrever na
língua de milhões de civilizações”. Disse o Ancião da sala oval.



O amanhecer de Hurt era igual ao da
terra, mas, às dez horas da manhã, o Sol tomava a coloração azulada, os raios
solares pareciam lasers odontológicos. Madureira e seu amigo iniciam seu
trabalho de convencer as pessoas a pararem de chorar sem necessidade
fisiológica. “Mas como você sabe Madureira que o nosso estágio é esse?” “Rapaz,
o que houve com seu input?” Perguntou Madureira ao colega Severino. “Sei não”
Parecia que o input do dono do maior feudo político de Tobias não estava
funcionando. Os dois começaram o trabalho door-to-door. Eles andaram visitando
as pessoas tentando fazê-la mudar o hábito cultural do choro:



- Bom dia senhora!



- (Chroro) Bom dia amigo da terra!



- Por que você chora assim?



- Como?



- Assim, chora sem ter tristeza?



- Meu filho o choro é muito bom. Limpa
nossa alma.



- Mas, não é isso uma coisa exagerada
não? Disse Madureira com jeito. Severino entra na conversa e tenta convencer a
pessoa com seus truques terráqueos.



- Você sabia que em toda a galáxia as
pessoas que choram são discriminadas? A moda agora é o riso. A senhora hurtaniana
coça uma parte de sua cabeça que parecia um queixo e diz:



- Mas, aqui é diferente! O moço num
tente me persuadir a mudar nossa lei!



- Olha moça, todas as pessoas bem
sucedidas deixaram o choro e foram à luta. A mulher hurtaniana, então, com
olhar de curiosidade perguntou a Severino:



- O que é ir à luta.



- É crescer mulher! Ser diferente,
chique, e não como os demais! Ademais, existe muita gente pagando uma boa
quantia pelo riso. A mulher hurtaniana, dessa vez, arregala os olhos e
pergunta:



- O que é uma boa quantia?



- É dinheiro mulher, grana, cobre,
mufufa! A mulher sem entender procurava uma referencia em sua cultura para
aquilo. Depois de alguns segundos com os olhos fechados ela diz:



- O amigo da terra veio para nos ajudar
a ter crédito, pois, aqui, não usamos dinheiro. Nossa moeda é o crédito. Quanto
mais crédito, mais condições.



- É isso! Eu estou pronto para criar uma
cooperativa de riso onde todos que tiverem um bom sorriso juntarão crédito para
terem mais conforto. A mulher deu um sorriso encobrindo o rosto e disse:



- Rapazes eu tive uma ideia. Seremos
sócios. Em pouco tempo as pessoas apareciam rindo nas ruas. Muita gente hurtaniana
protestou contra a quebra da moral, mas, quando viram que o crédito estava
circulando se calaram. Muitas famílias que não tinham crédito para seus
prótons, o que era muito importante tanto para a economia domestica de Hurt,
como para suas naves que o povo precisava para seu lazer e, ou para o trabalho
como fretistas do espaço, se juntaram à cooperativa. Estava feito, Severino se
tornou, em pouco tempo, em um forte político de Hurt. Madureira o assessorava
como podia.


A Ouvidoria Intergaláctica soube do
feito em Hurt e conhecia seus autores. Os dois foram processados por crime
contra a economia publica, e por causa disso os agregados a cooperativa
protestaram:


O Ouvidor Mor Senhor Nod, Grão Mestre da
Loja Branca do Disco Solar lê o relatório do conselho:



“Hoje, sob a inspiração do sol,
concluímos o relatório que nos foi confiado. Os terráqueos: Senhor Severino e o
Senhor Madureira são condenados pelo crime de enriquecimento ilícito e crime de
manipulação da opinião publica em favor próprio. Nossos agentes também
descobriram, e com provas, que eles possuem juntos mais crédito de que toda a
pequena Hurt, o que é um absurdo!” O advogado de defesa dos réus recebeu a
palavra:


“Digníssimo Conselho Cósmico Astral, é
com muito pesar que tenho de discordar de vossos argumentos contra a moral de
meus clientes, pois, os dois foram de grande valia para as mudanças na Vila de
Hurt, o que se espalha por todo o planeta Zit. Agora, depois da era ‘riso’, o
crédito foi democratizado, o que era barganha de poucos, diga-se de passagem.
Meus clientes não são culpados de nada que o povo não queira. Quanto ao aumento
do crédito pessoal, meus clientes possuem uma declaração que será enviada a
Receita Planetária; isso comprovará que tudo é calúnia. São denúncias
infundadas”.


O povo de Hurt não chorava mais, exceto,
quanto sentia alguma dor ou um fato triste ocorria em suas vidas. O populacho
sorria e gritava alto o nome dos dois terráqueos. Com isso, a policia foi
acionada prendendo a Severino e Madureira. A população acompanhou a nave
policial até o hangar 190. Havia no céu de Hurt uma multidão de naves que
faziam piruetas de todo tipo para homenagearem e prestar solidariedade aos dois
terráqueos. A mídia, então soube do fato.


“O Jornal, que também era gravadora, e
editora, e radio, e tevê, “O espaço é de todos”, reuniu-se para traçar as
coordenadas da cobertura do caso que eles batizaram de ‘Aculturação’ terráquea
em Hurt”.


- Meninas, meninas, venham para a
reunião agora! Falou pelo teleson digital um ser extraterrestre com a aparência
de um pavão terráqueo. Do outro lado da linha, estava dona Chipping - a ancora
do programa de maior audiência.



- Certo, meu plumado lindo! Estaremos aí
em um segundo. De fato, o teletransporte as pôs na sala em trinta segundos.



- Olha gente, não fazem mais tecnologia
boa em Zit. Vejam esse teletransporte demorou trinta segundos para trazê-las
aqui! Além do mais, quando eu cheguei, hoje cedo, percebi que umas penas minhas
não foram rematerializadas nesse tele! Poxa, que atraso! Bem, vamos ao que
interessa! Nossa linha editorial deve ser a que segue as orientações centrais.
Sabe; nós precisamos do poder. Mídia sem o poder não dá bem!



- Mas..



- Cala-te! Não terminei ainda. Então
vamos tentar mudar a mente das pessoas para que elas sejam sempre choronas. O
choro já deu muito dinheiro e audiência. Sem o choro, nossa classe política não
sobrevive.



- Mas...



- Eu num já mandei calar? Então, mulher?
Ave Chipping! Você é muito idealista, eu li seus pensamentos. O nosso jornal só
vai falar mal dos dois e pronto! Cá entre nós, o tal Severino é muito
espertinho, vocês não acham? E o tal Madureira faz uma cobertura sensacional,
há, há, há! A reunião terminou. Um grupo de camaramen, editores, jornalistas e
a ancora do jornal televisivo foram designados para cobrir o caso.


Na cela 288, estavam os dois sergipanos.
Severino deu uma crise de caganeira, e Madureira de prisão de ventre. Severino
ficou muito abalado com o ocorrido. Por isso ficava sempre repetindo como se
falasse com as pessoas: “Isso é uma calúnia, um homem honesto como eu!” Com o
tempo Madureira passou a ter pena do companheiro.



- Rapaz a gente está errado. Nós
passamos a perna em todo mundo.



- Larga de ser besta rapaz! Quantas
pessoas pararam de chorar? Quantas pessoas estão com o riso no canto da boca? A
coisa funciona assim – toma lá, dá cá. É desde os primórdios do Brasil. Os
portugueses não tinham dinheiro para investir nas colônias, então, eles
inventaram as sesmarias e as capitanias. E estas inventaram a gente.



- Oh, filho da peste! Você não viu ainda
que não estamos mais na terra? Severino, deixa- me ver o seu input! Madureira
olha a região do bulbo, neste havia uma placa com três entradas, todas piscavam
suas luzes. “Eu não entendo” disse Madureira a si mesmo.


A imprensa chegou à cela 288. Os dois
sergipanos estavam adormecidos. O input implantado em seus encéfalos regulava a
serotonina, por isso, o sono é bastante regular, a cada 6 horas ele tinha que
dormir, senão, seus cérebros sofriam convulsões. Chipping viu que os dois
dormiam, a repórter se aproveitou da cena para fazer uma tomada com os dois
naquela situação.



“Estamos na cela 288 onde ficam aqueles
que formam quadrilha. Aqui estão os dois terráqueos que deram o calote na
economia popular de Hurt. Fontes fidedignas informam que eles são elementos
perigosos e suas vidas passadas na terra comprovam suas ações aqui em Zit.
Dormem, gastam a verba pública, que afinal, para sustenta-los aqui, temos que
gastar muitos prótons. Vamos tentar acorda-los”. A jornalista tocou uma buzina
que tinha o poder superior a 140db. Severino se senta em sua cama, tira a chapa
dentária de um copo com água, a põe na boca, e vai ao banheiro. O barulho provocado
pela saída das fezes do reto do tobiense deixou quase todos surdos. Um ET não
suportou a cena e o cheiro de entranhas podre e deu uma gargalhada. Todos
olharam para o rapaz que era apenas um entregador de prótons ionizados muito
usados nas discotecas astrais. Contudo, Severino voltou a dormir e não ouviu ou
viu ninguém. Madureira dormia como um anjo, de vez em quando, ele dizia
resmungando: “Amaral onde está a chave do carro?” A mídia fez de tudo para
entrevistá-los naquele momento, mas, o sono deles devia ser respeitado. Exibiu-se
em rede planetária o sono dos dois marginais da terra: “TERRÁQUEOS SÃO BEM
TRATADOS EM PRISÃO DE ZIT” Todos que assistiram a reportagem caíam na gargalhada
quando Severino evacua seu ventre cansado de tanta carne de bode da Capitoa. O
bode da Capitoa só perde para as moças que são as mais bonitas do mundo. A
mídia, então, sem querer, fazia as pessoas rirem e isso fazia o povo amar mais
a Severino e a Madureira. Uma grande multidão estava do lado de fora da prisão,
em vez de choro e orações as pessoas riam e se divertiam com seus ídolos na
cadeia. Isso mexeu com o poder central que prontamente enviou a ordem de
extermínio das duas infames criaturas da terra.


- Severino, levante tem uma mulher aí.
Parece que ela quer falar com a gente. Disse Madureira ao seu amigo. Na
verdade, a moça era a ET com rosto oriental que abduziu os dois.



- Como? Sei; Quanto, mesmo?



- Não é nada disso rapaz. A moça
mentalmente passa o mapa do hangar ao lado para a mente de Madureira e põe um
objeto luminoso no chão. Este parecia uma chave.


Os ETs dormem muito pouco, mas, nunca
deixam de dormir. Às onze horas da noite Madureira e Severino abrem a cela com
o objeto misterioso e seguem para o hangar onde havia uma nave. Ninguém os viu,
pois, em Zit, o sono é coisa muito séria. A nave levanta voo em velocidade
terrestre, faz uma volta em torno da orbita de Zit e entra no hiperespaço.
Nenhum dos dois sabia explicar como eles sabiam controlar aquele aparelho tão
sofisticado. Depois de sete horas em dobradas quânticas no hiperespaço, os dois
sergipanos avistam o planeta azul. A nave faz uma volta na orbita terrestre, e,
em seguida, os dois são descidos da nave em um jato de luz. Severino acorda em
seu carro a caminho da Capitoa. Madureira acorda na cama na casa de roça na
estrada que vai para Tobias Barreto. “Rapaz eu dormir que perdi o tempo”.
Madureira olha para seu relógio; eram sete horas da noite. “Puxa, devo ter
dormido umas duas horas”. Madureira volta para o carro, liga o motor, depois o
radio e segue calmamente rumo a Tobias. Na sua cabeça não havia outra coisa,
exceto, o fora que recebera de Severino que lhe negou apoio para o seu
candidato Augusto Souza, com ‘z’, é claro.



Na manhã do outro dia na sala do
sindicato dos ruralistas, encanadores, eletricistas e o diabo a quatro, haveria
uma reunião para decidir se Tobias Barreto teria candidato próprio a deputado.
Madureira foi à reunião. Deram-lhe a palavra por volta das onze e meia. Isso
foi estratégico segundo o analista político da cidade João Maria: “Deram a
palavra a Madureira na hora do almoço para ele saber que não tem vez aqui”. No
entanto, ao discursar Madureira faz elogios a Severino e disse para todos que
ele era o homem de Tobias. Ainda tomado pela inspiração de seu discurso
Madureira ver, em pé à porta de entrada da sala, o ilustre Severino. Este diz
de onde estava: “Madureira, meus votos são seus”. O reboliço foi total. Os que
diziam ser contra o lançamento de Augusto Souza, com ‘z’, é claro, como
candidato por Tobias passaram dizer o contrário, agora o povo gritava: “Augusto
por Tobias”. Madureira não entendeu o porquê que o maior coronel do sertão de
Campos se tornou aliado dele. O tempo passou, Augusto ganhou para deputado
estadual. O homem nunca pisou os pés na cidade de Tobias, nem se quer para
agradecer os votos. Madureira continuou fazendo o seu trabalho como sempre fez.
Mas a vida nos ensina coisas, e o sertão tem grandes mistérios. Certo dia dona
Amaral ligou a tevê e assistiu uma reportagem que dizia que agora podíamos
fazer uma viagem ao espaço. Esse era um projeto americano que foi por muito
tempo interrompido por falta de recursos. A reportagem dizia que Severino de
Tobias Barreto, uma pessoa muito influente estava vendendo passagens para a lua
$250.000,00, e para marte $500.000,00. A reportagem também dizia que você podia
rir ou chorar durante a viagem que contava com um guia ET do sexo feminino com aparência
de oriental. As pessoas interessadas poderiam telefonar para o número que
estava na tela ou procurassem por Severino na Rua Severiano Cardoso, 1234
próximo ao cruzamento da Rua Itabaianinha...

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