Caçadores de Espiões | Capítulo 1

07 de Agosto de 2011 Lucas Campanaro Contos 997

Melanie mantinha-se calada durante todo o percurso que o táxi percorria, mas aquilo não era estranho. Desde que perdeu seus pais em um acidente de trabalho aos 10 anos, a garota era assim. Mas quem a conhecia de verdade sabia que sua personalidade não era nada fraca. Pelo contrário, determinação e força eram o sobrenome de Melanie.
Os pneus quicavam no chão e o ar condicionado fazia mais barulho que uma colmeia de abelhas. Melanie bufava e volta e meia perguntava ao motorista gorducho e barbudo se já estava chegando ao seu destino. Cinco quilômetros adiante, depois de cruzar a ponte Willary, avistou o prédio de aparência antiga, mas extremamente bonito que seria sua nova moradia em anos. Malditos cupins, pensou ela, quando lembrou o motivo de estar se mudando de sua antiga e aconchegante casa. Olhou pela janela do carro e viu o céu se tornar aos poucos alaranjado, com tons em rosa e amarelo enquanto o Sol descia grandioso e majestoso como um rei ao Oeste. Pelo canto do olho, percebeu o prédio se tornar cada vez maior, até que o motorista anunciou sua chegada.
- Vinte dólares, moça. – disse em tom presunçoso enquanto coçava o nariz em forma de batata. – Vou ajudar com as malas, só um instante – falou preguiçosamente enquanto abria a porta para descer.
- Não, não precisa. Só tenho essa aqui – e olhou para nécessaire que estava segurando na mão direita. – Abriu um sorriso e sem dificuldade nenhuma desceu do veículo.
Que barba brega, Melanie disse numa risada e girou nos calcanhares em direção ao grande portão de entrada do prédio que habitaria nos próximos tempos.
Entrou e ficou maravilhada com o que via. Grandes lustres colossais se penduravam do teto como pássaros incrivelmente brancos sobrevoando o céu dourado e logo mais a frente a recepção espaçosa e luxuosa, enfeitada com esplendorosos tampões de granizo escuro, que contrastava com o amarelo mostarda das paredes. Logo atrás, haviam pequenos espaços, uma espécie de armários, de cor mogno, onde dentro alguns papéis e chaves se encontravam.
- Você deve ser a nova moradora, não? – perguntou uma voz feminina e doce.
- Ahn, sim... – disse virando-se para olhar o rosto que direcionou a pergunta. Diante dela, uma jovem a beira de seus vinte e poucos anos estava parada com uma chave prateada e brilhosa na mão. – E você, quem é? – indagou.
- Oh! Desculpe-me pela inconveniência. Suzie. Suzie Hampshire. Sou a recepcionista daqui – e levantou o queixo apontando a recepção, com um sorriso amigável no rosto. – Bem-vinda ao Residencial Charllene – e esticou a mão desocupada em forma de cumprimento.
- Prazer, Suzie. Melanie Parker. – e segurou a mão da menina, sacudindo-a.
- Então, aqui estão suas chaves e seu cartão de acesso aos outros aposentos do prédio. – entregou a chave que segurava em uma mão e com a outra, retirou um objeto retangular todo ornado em tons dourados do bolso de seu uniforme e o entregou a Melanie, que guardou com urgência no bolso traseiro de sua bermuda jeans. – Se precisar de algo, temos um telefone em cada cômodo dos apartamentos e nos corredores. O número da recepção é 0840 e o melhor: é de graça! – Suzie soltou uma risadinha tímida e foi para trás do balcão. – Mais alguma coisa, querida?
- Hm, depois de você me sufocar com tantas informações ao mesmo tempo, acho que não! – Melanie riu - Vou conhecer o meu apartamento agora, está bem? Prazer, Suzie! – e partiu em direção as escadas. Suzie esperou a garota desaparecer no próximo lance de escada, pegou um telefone e discou um número longo.
- Ela chegou. Melanie Parker está aqui. - sussurrou no telefone.
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Melanie girou a maçaneta da porta branca e entrou no aposento. Haviam inúmeros móveis tapados com lençóis brancos, que pareciam fantasmas ou estátuas que costumam reinar em praças públicas. O apartamento era bem iluminado e arejado graças as enormes janelas que se espalhavam por todos os cômodos de sua nova casa.
Melanie suspirou e antes que fosse avançando, lembrou-se do mito. Riu consigo mesma e mudou a posição de seus pés, entrando apartamento adentro primeiro com o pé direito. Deixou a nécessaire na escrivaninha branca que estava no hall de entrada e olhou em volta. Essa é a minha nova vida, pensou ela.
Melanie admirava o espaço quieta, pensativa. Se existia desgraça maior para a garota, era ter que se mudar de um lugar para o outro de repente. Ela abriu caminho entre as milhares de caixas depositadas no chão da sala e foi em direção a cozinha americana que era grande e magnificamente espaçosa. Do jeito que eu gosto, ela disse e girou em direção a pia, aonde estavam alguns copos, pegou um e abriu a pia. Nada. Fechou e abriu novamente. Nada de novo. Frustrada, fechou o registro e largou o copo em cima do balcão.
Mais adiante, Melanie dobrou à direita no largo corredor e entrou no primeiro quarto do apartamento. A decoração era estupidamente linda. No papel de parede, rosas brancas e amarelas se misturavam com um tom de rosa envelhecido enquanto nos cantos, sancas finas de gesso emolduravam o teto de onde pendia um lustre cinza como um quadro. Melanie deu um passo a frente e avistou uma luxuosa penteadeira entalhada em madeira encostada na parede e a sua frente, um espelho monumental e uma pequena cadeira forrada em couro se escondia debaixo da penteadeira. Melanie a puxou e se acomodou ali por um instante enquanto procurava a cama que havia comprado pouco tempo antes de se mudar para ali. Semicerrou os olhos e levantou-se rapidamente. Andou pelo quarto, tateou por de trás do armário branco e encontrou peças de madeira embrulhadas em plástico bolha. Ufa, pensou aliviada.
- Pois bem – disse – Então eu mesma terei que montar isso aqui... – falou em um tom irônico enquanto sua mão ia a cintura.
Estava prestes a puxar a peça pesada quando o seu telefone tocou. Andou vagarosamente até a escrivaninha e atendeu o telefone.
- Alô? – perguntou.
- Então é verdade que Melanie Jean Parker está em Blue Hills. – uma voz masculina falou ao telefone em tom divertido.
- Quem... Quem está falando? – a garota foi até a janela e lentamente puxou a cortina da janela. Curvou-se o bastante para ver quem andava pela rua e avistou um homem vestido com um sobretudo marrom e de chapéu preto no outro lado da calçada olhando para aquela mesma janela com um celular na mão. Assustada, afastou-se da janela e correu até a porta da frente, ainda com o aparelho no ouvido. Checou a chave e a girou, trancando de vez a entrada da casa.
Podia ouvir a sua respiração ficar cada vez mais alta e a cada instante que passava, mais apreensiva ficava.
- Seu idiota! Quem é que está falando? – gritava ao telefone com o homem do outro lado da linha. Um misto de raiva e preocupação subia pelo seu corpo. – Eu não tenho medo de você.
- E nem eu de você. – ouviu-se uma risada e depois, silêncio total. O telefone havia sido desligado.
Melanie tirou o telefone do ouvido e olhou para a bina. A pequena tela verde apitava número desconhecido. E então outro toque ecoou pela sala.
- Olha aqui, cara... – a garota foi interrompida pela mesma voz, dessa vez mais calma.
- Me encontre no seu café preferido daqui a dez minutos. Não precisa ter medo. Não vou machucá-la e nem você a mim. – avisou friamente e desligou.
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Extasiada. Era como Melanie se sentia quando a ligação fora interrompida. Incrédula, percorreu todo o caminho da sala até achar uma caixa enorme de papelão nomeada ROUPAS DE FRIO, em uma fonte desajeitada e grande. Com certa urgência, abriu o pacote, pegou o sobretudo bege que estava na frente e vestiu-o apressadamente por cima de sua cashmere preta. Sem nem ligar para a combinação das peças, correu até a escrivaninha do hall de entrada do apartamento, apanhou a chave prateada, destrancou a porta e partiu.
Obviamente, Melanie pensava, não se trata de um trote e eu estou louca. Vou descer, irei até a Starbucks... – suspirou - e lá não terá ninguém. – movendo-se rapidamente entre os largos corredores e lances de escada do prédio, Melanie chegou a recepção e avistou Suzie ocupada escrevendo alguma coisa em um papel largo e amarelado, no topo havia escrito “Cadastro – Residencial Charllene” e em frente a garota, um homem alto vestido em um terno cinza e elegante estava parado com a cabeça baixa.
- Suzie, aciona o alarme do meu apartamento, por favor. – pediu Melanie em um tom abafado – Eu esqueci e estou com um pouco de pressa. – E então saiu de fininho.
Ela podia ver certo movimento do outro lado da rua quando finalmente saiu do prédio, afinal, uma loja Tiffany & Co inaugurando não era para qualquer lugar e o seu bairro era bem situado, obrigada, pensava quando virava para descer a rua. De onde estava, podia ver onde se situava o centro da cidade. Grandiosas palmeiras e esplendidas casas eram agora iluminadas pelas luzes da cidade que havia sido acesa há pouco. Linhas sinuosas destacadas pela mínima luz do pôr-do-sol iam sumindo conforme Melanie andava pela rua. Num verão qualquer a paisagem a sua frente como essa teria sido linda. Mas nada era lindo quando se estava no inverno, absolutamente nada.
Reparando nos mínimos detalhes de sua nova morada, desde rachaduras no antigo asfalto até as mais antigas construções que dominavam Blue Hills, a garota finalmente chegou ao seu destino. Os prédios novos e modernos não ocupavam muito da cidade onde as pessoas passeavam tranquilamente com seus filhos e seus balões de ar. Melanie sorriu e tirou um chiclete do bolso traseiro de sua calça e o jogou na boca.
Enquanto mascava o chiclete sabor cereja, ela ia admirando alguns lugares específicos do lugar. Nos limites da praça principal, uma fonte de água límpida que jorrava em movimentos padrões que reluzia por entre as árvores baixas e iluminárias altas, o rio que descia as montanhas azuladas e principalmente a árvore ancestral que se estendia no centro do parque. Ao contrário de outras árvores que havia visto em sua vida, aquela era diferente. Crianças em balanços coloridos que se estendiam dos fortes caules da árvore e algumas plaquinhas com iniciais estavam pregadas no grande tronco. Seus olhos marejaram e precisou de poucos segundos para se dar conta do motivo de estar ali. A ligação.
Àquela altura, será que o tal homem realmente estaria esperando por ela lá? Todo mundo fazia aquele tipo de brincadeira – principalmente adolescentes – mas o que a instigava era supostamente ter visto esse mesmo homem em frente a sua janela. Chegar ao lugar de encontro seria complicado, não sabia exatamente para onde ir e estava perdida naquele lugar cheio de novas informações. De certa forma, Melanie ainda não existia por ali. Ela ficou imóvel, num silêncio absurdo, pensando no que faria. Duas crianças passaram gritando a sua frente e só assim a garota saiu do transe.
Sentiu-se uma besta por estar agindo daquele jeito e avançou até a beira da calçada, fazendo sinal para um táxi verde que vinha logo adiante.
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Melanie entrou esbaforida no carro e ajustou-se no confortável banco de couro. Bem melhor que aquele carro velho, pensou lembrando-se de quando chegou.
- Err... Aqui tem alguma Starbucks? – indagou ao motorista curiosa.
- O que é isso? – o homem magro e de feições orientais se virou para olhar Melanie com ar confuso.
- É um café, vende biscoitinhos, cappuccinos... – explicava ao homem gesticulando as mãos – Deve ter, não?
- Ah, claro! – o motorista girou o corpo e pôs a mão direita na marcha – Te levarei até lá, mas vou avisando que já é bandeira dois – avisou e partiu com o veículo.
Enquanto vislumbrava cada fonte de luz ser acesa nas ruas, os olhos de Melanie se encheram de água. Mas não por incomodo.
Ela lembrara de seus pais. Owen e Meryl Parker, que já não os via há 19 anos. Mortos. A palavra ecoava em sua mente como um pêndulo que batia em um relógio avisando as horas. Ela levou os dedos ao próprio rosto e sentiu o nariz fino, molhado por algumas lágrimas que insistiram em cair sem ela querer. Naquelas ruas movimentadas e iluminadas, não havia como se esconder. Não havia nenhum refugio em que pudesse ter se confortado por pelo menos alguns minutos até aquele sentimento ir embora. A explosão de sentimentos veio como uma bomba e Melanie desabou. Suas mãos agora trêmulas iam ao rosto tentando esconder as provas de que estava chorando. Prometeu a si mesma que não iria nunca mais fazê-lo desde o dia que foi para o orfanato.
- Moça, chegamos. – o oriental de rosto simpático avisou e seu rosto parecia se perguntar o que estaria acontecendo. – São doze dólares. – o homem estendeu a mão, esperando o trocado. Melanie depois de enxugar completamente o rosto, levou a mão até seu bolso, retirou algumas notas amassadas, entregou para o homem que sorria e saiu do veículo.
- Fique com o troco – bateu a porta e se afastou. A barulheira fez Melanie franzir o cenho e olhar a sua volta desorientada. Um homem com uma bateria eletrônica pendurada no corpo passava pela calçada e alguns festeiros o seguiam, gritando como loucos. Ela sorriu e seguiu até a calçada do outro lado da rua, aonde um toldo verde com detalhes amarelos estampava a palavra “Starbucks – Coffee Company”. Deu um passo em direção a porta e a empurrou.
O ar frio de dentro da loja fez Melanie suspirar fundo e ficar com o corpo arrepiado. Enfiou as mãos no bolso da blusa e encolheu os ombros. Andou pelo lugar e a sua direita, mesas elegantes de madeira se estendiam pelas janelas totalmente feitas de vidro, dando total visão da rua. Nos fundos, dois casais riam enquanto se serviam de biscoitinhos amanteigados e frappuccinos. A sua frente, um homem bem vestido com um sobretudo marrom e chapéu preto estava de costas. A fumaça do café que estava a sua frente subia serpenteando pelo ar e sumia logo mais.
Uma grande tontura tomou o corpo de Melanie, que perdeu o equilíbrio e se segurou na cadeira do homem. Droga, ela xingou mentalmente ou achou que fez, pois os rostos do lugar viraram para olhá-la e um rubor tomou conta de sua face. Enquanto o homem misterioso não virava para vê-la, a imagem de tudo passava pela mente da garota. Palhaços horripilantes, monstros verdes, alienígenas, tudo, menos um homem normal e simpático.
- Cuidado por onde anda, mo... – a figura imaculadamente sentada virou-se e surpresa tomou conta de seu rosto. – Ora, ora, ora. – girou sobre a cadeira e levantou-se. A garota fechou os punhos e deu um passo atrás. – Calma, mocinha. Não fique com medo.
Melanie agora enxergava o rosto do homem com clareza. Aparentava ter uns 62 anos, o cabelo – pelo pouco que podia ver – era ainda grisalho e crespo, seu nariz era largo e seus lábios eram finos, a testa grande demais e as bochechas rosadas. Não era nenhum monstro afinal, bem simpático até. Um avô, Melanie respondia as suas próprias perguntas automaticamente em sua mente.
- O-oi – ela custou a responder e ainda assim gaguejou – Pelo amor de Deus, você não vai falar quem você é? – Melanie percorreu o Café com os olhos e voltou-os ao velho. Os lábios do homem se repuxaram em um sorriso grande que fez Melanie se sentir a vilã da história, do tipo que maltrata velhinhos no asilo.
- Meu nome é Cornelius Western e eu estou aqui para contar quem realmente é Melanie Jean Parker – e outro sorriso se abriu.

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