Memórias de Nina - Pequena alma

05 de Abril de 2014 Folheto Nanquim Contos 817

  O descontentamento esta em meu peito, como um vácuo espacial, um fluxo de pensamentos empoeirados e perdidos, presos sem que eu mesma possa exibi-los, como uma sílfide que esta presa a uma fonte e que nunca o querubim poderá voar. O vazio mora em mim neste período como um algoz, aprisiona meus pensamentos e faz de mim apenas mais uma nula entre tantos outros por ai.

           Não me importa mais o que todos pensam de mim, estou aqui nas ruas, entre alguns viadutos e minha morada deixou de ser meu lar, ainda não sei o porque, me vejo imunda, velha e sem sonhos, a mente que tanto brilhava, tornou-se em uma bruma marítima longínqua, até mesmo de mim, não sou mais a Nina que conheci, a desintegrei.

 Uma de minhas lembranças mais doentias foi de um jovem ser, a luz que iluminava meus dias, as proporções de ser uma mulher feliz, certamente deslumbrada pela vida e suas belezas, aos equívocos os arautos erguiam teus clarins, e aos sucessos, comemorações. Estive por nove meses a tua espera, jamais esperei tanto tempo por alguém, uma parcela de minha existência dimensionada em outra vida, um presente.

          No verão, quando ar quentíssimo escaldava intolerantemente, os preparativos da chegada se iniciavam, os móveis tinham um brilho singular, as pessoas aflitas, e quanto a mim a ansiedade havia consumido. Por algumas horas e alguns gritos, concebi minha filha, bela, com olhos negros, poucos fios em sua cabecinha, e um pouco menos ainda de pigmentação, eu a beijei e abracei por alguns segundos.

         Teus olhos me encararam como uma ternura jamais vista anteriormente, a pequena alma que temia o grande mundo, se aproximava de tua progenitora, a fragilidade era tão perceptível que ainda que eu pudesse omitir qualquer sombra de proteção, tua individualidade era tremenda, uma outra pessoa, próxima a mim, mas com um legado a ser construído, alguém que me faria tornar responsável por uma vida toda, mesmo que isso não tenha acontecido.

          A pequenina cumpriu sua missão no mundo em menos de quatro horas, em meus braços se despediu em um pueril sorriso de luz e carinho, apertou meu seio e meus dedos pela última vez, o que esperei por tanto tempo, e que a acompanharia até pelos restos de meus dias. Eu fechei os olhos naquele momento para o mundo, e me distanciei dele.

           O que pode importar a uma mãe quando parte ti se vai? Estou aqui, sozinha neste grande mundo agora, com todos a minha volta se questionando o porque não terem mais dinheiro ou prestígio. Eu não queria nada mais que alguns anos com minha menininha. E aqui estou. Sem nada, nem ninguém, pois, nada me apetece mais.

                                                                     - Marcos Leite

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