Caçadores de Espiões | Capítulo 2

07 de Agosto de 2011 Lucas Campanaro Contos 1017

As lágrimas rolavam pelo rosto duro de Melanie quando Cornelius finalmente fechou a pasta marrom e a guardou em uma maleta preta que estava ao lado de sua cadeira.
- Então, meus pais foram mortos? – ela riu incrédula e levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos.
- Basicamente – o senhor deu de ombros e franziu o cenho. – Mas você já estava longe, Melanie. De férias, lembra? – e passou a mão enrugada sobre fotos antigas que estavam sobre a mesa. Os olhos da garota se fecharam e seus lábios fecharam em uma linha reta. Um suspiro.
- Tudo que eu vivenciei depois... Era pra isso? Pra eu ter que viajar o mundo atrás de pedaços de papel? Os esportes, as aulas de línguas estrangeiras, tudo... Tudo foi para que um dia eu vingasse a morte dos meus pais? – Melanie gesticulava incessavelmente enquanto vomitava as palavras que viam afobadas.
- Ninguém falou em vingança, mocinha. – Cornelius digeria as dúvidas da garota e as respondia em uma calmaria. – Tudo o que precisamos é de alguém vivido, suficientemente capaz de lidar com as nossas questões. E você foi escolhida. – os lábios do homem se curvaram em um pequeno sorriso. – Não apenas pela morte dos seus pais. Vimos o que você enfrentou até você sair do orfanato – a mão de Cornelius passou novamente pelas fotos revelando Melanie durante sua vida com outras meninas.
- Cada uma dessas meninas estão em um canto do mundo agora. Cada qual com sua missão, garota. E são especiais assim como você é. Algumas não sobreviveram, desistiram e como imaginávamos, muitas alcançaram seu objetivo. – disse dando ênfase às ultimas palavras.
- Eu.. Eu não qu... – Melanie tentou falar e foi interrompida pelo velho.
– Nada do que vemos é realmente o que parece ser. O mundo, a sociedade em que vivemos não é verdadeira. Essa cidade, por exemplo, o que você acha dela? – ele perguntou a garota que parecia estar em outro mundo. Um solo de piano começou a ecoar e Cornelius soltou um suspiro.
- Bem, é diferente. E tão... Tão feliz. – Melanie dizia enquanto seus olhos se voltavam para as fotos espalhadas pela mesa de madeira.
- Vou te contar um segredinho. Promete que não conta à ninguém? – o homem se debruçou pela mesa e chegou perto do rosto de Melanie. – Todas as pessoas que vivem aqui conheceram seus pais ou já ouviram falar deles. Todos, aliás, se conhecem. – disse num tom divertido, sussurrando – Eles foram privilegiados com uma missão, mocinha. E foram bem sucedidos.
“Blue Hills não é uma cidade normal. Foi feita especialmente para todos que passassem nas missões, finalmente morassem em paz. Olha aquela moça sentada ao lado do balcão – Cornelius apontou para uma senhora que estava de costas. Seus cabelos eram grisalhos e estavam amarrados em um penteado elegante. Usava uma saia rodada branca que caiam até os joelhos e uma blusa lápis-lazúli que entrava por debaixo do corte da saia, deixando-a elegantemente vestida. – Ela foi uma das primeiras mulheres a entrarem na Agência e foi sua babá. Ameliah Thompson, lembra-se?”
- O que? Ame... Não pode ser! Tia Ameliah? – o queixo de Melanie caiu quando reconheceu a mulher que estava encarando. Sua voz soou tão alta que novamente os olhares se voltaram a ela, inclusive da senhora, que acenou e abriu um sorriso magnífico. – Isso... Isso é totalmente insano, Cornelius! Toda minha vida foi programa para esse dia e eu nunca suspeitei de nada! – Melanie dizia esbaforida. Sua voz saia trêmula e ao mesmo tempo alegre, ainda que desacreditada. Cornelius gargalhou.
- Ninguém nunca suspeita, minha cara. – sua mão parou em cima da menina que olhou para o rosto do homem. Seu olhar soava admirado. Lágrimas se acumularam em torno de seus olhos e caíram.

__________________________________________________________________________________

Melanie entrou desesperada dentro do apartamento. Acendeu a luz, jogou a chave na escrivaninha e bateu a porta. Correu até o sofá e sentou. Sua respiração estava ofegante e seus lábios torcidos em um sorriso inacreditavelmente sincero. Ergueu a pasta rechonchuda na frente do rosto e suspirou. “Melanie Jean Melanie – DOSSIÊ” era o que havia escrito no envelope dentro da pasta transparente. Seu corpo tremeu apenas de imaginar o que estaria escrito ali. Sua vida toda fragmentada em linhas escritas por outra pessoa totalmente desconhecida a assustava. Vamos lá, você consegue, pensava. Com as mãos trêmulas e sem jeito, afastou os elásticos das extremidades da pasta e jogou tudo ao seu lado, em cima do sofá camuflado por lençóis brancos. Mexeu entre fotos, arquivos, papéis desinteressantes até achar um envelope branco e encardido pelo tempo onde havia escrito “Carta” em letra ridiculamente pequena e já quase apagada. Melanie passou os dedos finos pelas bordas do envelope, os pressionou e rasgou, revelando papéis azuis dentro. Mais um suspirou. Puxou os papéis gastos de dentro do envelope e os desdobrou. Uma caligrafia impecável rompeu aos olhos da garota e ela abriu um sorriso. Era a letra da sua mãe. Então, começou a ler.
“Querida Melanie,
Você deve ter vinte e poucos anos agora. E isso dói, dói muito. Não vi minha menininha loira crescer e nem pude educá-la da minha maneira. Me desculpe por isso. Eu escrevo essa carta com pressa, pois não tenho muito tempo de sobra. Estou acampando no meio de um deserto gelado na Antártica e faz muito, mas muito frio aqui. Seu pai está preparando uma sopa de frutas para nos esquentar enquanto cantarola “Thriller” do Michael Jackson. Como sempre, ele quem me faz rir nas piores horas.
Se você estiver lendo essa carta agora, saiba que não sobrevivemos.” – gotas desenfreadas caíram sobre o papel e Melanie fechou os olhos e soltou um gemido de dor, de perda. Abriu-os novamente e voltou a ler a carta. “Posso afirmar que não foi o frio, nem algum animal selvagem que atacou nosso acampamento. Foram eles. Foram os únicos animais com que você terá que se preocupar pelos próximos anos: os seres humanos.
Filha, confie apenas naqueles que sabem o que falam, que sabem de nós, do segredo de Blue Hills e Cornelius. Ninguém mais.
Eu sei que você deve estar confusa e milhares de dúvidas aparecem a sua volta. Não se preocupe. Tudo vai dar certo. Cornelius não deixará nada dar errado para você, meu bem. Eu tenho certeza. O que houve conosco foi apenas um contratempo, um erro de cálculo. Não se repetirá com você e com ninguém.
Lembre-se do que você aprendeu no orfanato, das lições que Ameliah te impôs e tudo o que você aprendeu até hoje. Não se esqueça de nada e seu caminho será escrito de maneira correta.
Seu pai está mandando um beijo, disse que te ama, que nunca se esquecerá da sua carinha assim que você nasceu e que foi o melhor momento da vida dele.
Terei que parar de escrever agora, a sopa está pronta”
A carta terminava ali. A palavra “pronta” desenhava um padrão rabiscado pelo papel e alguns respingos manchavam o papel. Melanie aproximou o papel dos olhos e mais uma vez o choro saiu sem permissão. Em um vermelho escuro, já velho, os respingos escorriam por todo o papel. Sangue.
Com um pouco de esforço, levantou-se do sofá e soltou a folha que foi caindo até o chão como uma pena. Apesar da dor que sentia, conseguiu manter-se de pé e andou pelos arredores do cômodo. Um som abafado vinha pelas paredes. Pessoas gritavam e choravam. Melanie encolheu-se num dos cantos, cobriu a cabeça com as mãos e começou a contar.
Vinte segundos depois, o chão começou a tremer. Passos largos podiam ser ouvidos no corredor do prédio e cada vez mais alto ficavam, até que o barulho agudo de madeira se espatifando deixou a garota arrepiada.
Melanie ajoelhou-se no chão da sala e começou a engatinhar para trás do sofá.
Tudo naquele instante parecia ser demais. Dos pássaros gritando até o barulho de seu coração martelando em seu peito. Ficou parada como uma estátua até avistar em sua visão cortada pelo sofá dois pares de penas na porta destruída paradas ali como postes. As luzes do corredor, pelo que podia ver, estavam apagadas e muita fumaça se esgueirava pelo corredor agora silencioso.
As pernas envolvidas por calças negras e largas resolveram se mexer e o barulho que as botas de couro meladas por algo denso faziam no assoalho deixavam o corpo de Melanie cada vez mais tenso.
- Cheque os outros cômodos que eu vou ficar por aqui. – uma voz grossa e autoritária ordenou.
- Sim, senhor. – dessa vez, a voz não era autoritária e sim franzina, aparentando ser de um menino jovem, com seus lá 19 anos.
- Espere pelo meu assobio para voltar – a voz medonha ordenou novamente.
A bota voltou a bater no assoalho que rangia com o movimento e Melanie podia sentir seu corpo gritar pedindo fuga. Agora não, por favor, os pensamentos de Melanie gritavam para seu corpo.
A garota engoliu seco e virou os olhos na direção do homem. Rapidamente, o pode ver parado na janela contemplando a vista da rua.
Em um acesso de adrenalina, Melanie dobrou as pernas e levantou-se em silêncio. Suas narinas inflaram e cada centímetro do seu corpo tremia. Enquanto decidia o que fazer, o homem que estava de costas vira-se soltando um assobio de seus lábios. Surpresa e ódio puderam ser vistos arderem nos olhos do homem de cabelos raspados e olhos castanhos quando a avistou ali, parada e indefesa.
Os pulmões de Melanie se encheram de ar e ela correu desesperadamente até a porta. Era incrível que ela não houvesse batido em nenhum obstáculo enquanto passava por ali.
Um grito jorrou da boca da menina, suas pernas dobraram-se e com um baque, caiu no chão desmaiada.
- SENHOR! – o jovem veio gritando pelo apartamento até se chocar com a imagem da garota caída. Seus cabelos loiros abertos em um leque e um dardo encravado em suas costas.
- Chame os outros para amarrá-la antes que ela acorde. Não podemos perdê-la de jeito nenhum. – Jackson Collins pediu a Scott enquanto andava até o corpo desacordado. Agachou-se ao seu lado e com um dedo, acariciou o rosto da menina.
__________________________________________________________________________________

Esse texto está protegido por direitos autorais.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem permissão do autor.

Leia também
O CAMELO QUE DECLAMA NO ZOOLÓGICO DE RECIFE há 4 horas

O poeta quando escreve seu trabalho inspirado faz a narração dos fato...
carlosale Cordel 6


A madrugada… há 14 horas

A madrugada e eu temos um romance a longo prazo… Nos entendemos e nos cu...
anjoeros Poesias 14


Vou tatuar a tua boca... há 14 horas

Quero tatuar na tua boca Meu beijo mais safado, mas também apaixonado, ...
anjoeros Poesias 8


Quero te pegar para mim...Capítulo 3 há 14 horas

Capítulo 3: Eu te quero pra mim e não vou abrir mão... Toco a campain...
anjoeros Prosa Poética 9


Quero te pegar para mim...Capítulo 2 há 14 horas

Capítulo 2: A expectativa mata... Meio dia. Nossa, nem acreditei quando...
anjoeros Prosa Poética 7


Quero te pegar para mim...Capítulo 1 há 14 horas

Capítulo 1: Decisão tomada, arrependimentos posteriores... Mais uma no...
anjoeros Prosa Poética 10