E mais uma manhã eu
despertava, estava tudo quieto no andar de baixo de minha casa, tudo normal,
exatamente como era todos os dias da semana. Era para ser só mais um dia como
qualquer outro, um dia simples, era só eu acordar, levantar, ir trabalhar,
voltar para casa, discutir com minha esposa e ir dormir bravo novamente pelas
discussões sem nexo que tínhamos a cada dia que se passava.



     Quando finalmente abri os
olhos e me situei um pouco, notei que os pássaros que gorjeavam todas as manhãs
e que eu amava ouvir, já não estavam mais em minhas árvores como de costume,
também notei que minha esposa não estava ao meu lado como sempre fazia e, ainda
sim, tudo continuava quieto, em um silêncio mortífero, não se ouvia nada, nem
mesmo passos na gigantesca casa.



     Levantei-me como de costume,
mas algo parecia diferente, algo me parecia errado, era algo forte que golpeava
meu peito, mas com a confusão do recém acordar não me lembrava do porquê dessa
dor enorme que quase me matava. Fui ao banheiro, lavei meu rosto e me olhei no
espelho, vendo meu rosto que outrora parecia muito mais vivo, mas já agora
parecia meio morto. Voltei ao quarto e então pude notar que ao lado de onde eu
dormia, onde minha mulher sempre ficara, nada fora mexido, aquele lado estava
ainda completamente arrumado.



     Desci as escadas e ainda
tentando entender o que havia acontecido ontem à noite, pois não me lembrava de
nada após o trabalho, nem das discussões e ainda menos das inúteis brigas
diárias e, então, me deparo com a sala, novamente um cômodo sem alma, sem
ninguém, sem o meu amor. Mas onde será que ela estaria tão cedo da manhã, se
eram apenas 6 horas?



     Continuei indo de cômodo a
cômodo, cozinha, sala de jantar, quarto de hóspedes, mas não a encontrei em
nenhum lugar, fui ao quarto das crianças e, para minha surpresa, elas também
não estavam lá. Para onde minha mulher e meus filhos teriam ido tão cedo, a
ponto de suas camas estarem arrumadas?



     Minha preocupação aumentava,
meu coração acelerava a cada cômodo que eu passava. Em direção ao jardim, eu
tentava imaginar o que eu teria feito de tão ruim para tudo isso estar
acontecendo, mas não conseguia. Quando chego lá, me deparo com as ruas vazias e
uma leve neblina que deixava o ar com uma solidão eterna. Então gritei o nome
de minha mulher e de meus filhos, baixo no início, mas depois a minha voz podia
ser ouvida a quarteirões de distância e, mesmo assim, os meus bens mais
preciosos não davam retorno algum e nem os vizinhos acordavam.



     Ninguém respondia. Por um
forte desespero invadi as casas dos meus vizinhos e, a cada casa, notava a
semelhança da casa deles com a minha, ninguém nos cômodos, casa toda arrumada e
um ar sinistro dentro de cada uma. Quando dei por mim, notei que estava sozinho
e sem ninguém, e nada adiantaria ficar ali parado. Voltei a minha casa, peguei
meu carro e fui em direção ao centro da cidade.



     No caminho, nada se
alterava, era neblina e mais neblina, cada vez mais densa, e as casas, mesmo
com o passar do tempo, continuavam sem demonstrar qualquer sinal de vida, eram
casas mortas, nada mudava. No centro, o cenário era igual, prédios, escolas,
hotéis, bares, baladas, todos os lugares sem ninguém, nenhuma pessoa, nenhuma
alma se quer, tudo praticamente morto.



     Continuei minha procura
durante horas e nada avistei, já começava a acreditar que todos haviam morrido
e me deixaram para sofrer a sós, na solidão e a pagar meus pecados cometidos
por aqui. Eu já estava quase desistindo de viver, pois não achava as joias mais
preciosas de minha vida em lugar algum.



Pensei em olhar, por último,
o maior prédio da cidade, se nada achasse ali, me jogaria do alto, pois já
estava morto por dentro, sem minha mulher e filhos não sou nada a não ser pele
e osso. Como constatava a cada andar, mais e mais inércia, sem ninguém, sem
nada vivo, a não ser eu que vagava por ali.



     Cheguei ao terraço e nada,
não encontrei ninguém. Subi vinte andares e dali o que me restava era a vista
da qual se podia ver a cidade inteira, uma cidade sem ninguém, uma cidade
morta, onde o que tinha era neblina e casas vazias.



     Parei à beira do abismo que
estava a minha frente, a queda seria feia, seria algo que não sentiria e eu,
finalmente, poderia sumir, assim como todos fizeram, e não ficaria mais
sozinho. Eu enfim iria ficar ao lado dos meus preciosos tesouros, seja lá onde
eles estivessem.



     Então subi a mureta e, de
uma forma como se meu corpo já não aguentasse mais tanto sofrimento, me joguei
os vinte andares abaixo. Tudo foi tão rápido para qualquer observador, mas para
mim passou como horas e horas, me vendo e revivendo tudo que eu já tinha
passado até aquele momento e então cheguei ao chão. Nesse instante, acordo de
súbito, em minha cama novamente, tenso, suado e com uma respiração ofegante.



     Olho em volta do meu quarto
e vejo minha mulher ao meu lado, ela ainda dorme tranquila. Então me levanto e
vou até o quarto dos meus anjos para ver se isso não é uma ilusão de minha
mente. A casa e os móveis continuavam os mesmos, mas a vida havia voltado à
casa. Chegando ao quarto, vejo que eles dormem como anjos e então, solto um
suspiro de alívio, ao notar que recebi mais uma chance de poder ser feliz.
Volto ao meu quarto, minha mulher acorda e me pergunta meio manhosa – O que
aconteceu amor? – eu só sorri para ela e disse – Nada, minha vida só que
finalmente abri meus olhos para os meus verdadeiros motivos de viver, você e
nossos bebês.