O esforço de um pai

08 de Abril de 2014 Luis Henrique Kolba Contos 1537


     Seria bom se esse fosse apenas mais um dia comum, acordar de um sono profundo e notar que já amanheceu quando os raios do sol batem em seu rosto, notar simplesmente
que tudo esta bem e que a vida continua em ordem. Bom seria mesmo se a casa estivesse
movimentada como sempre foi, as crianças levantando e correndo para se arrumar
e ir a escola, aquele cheirinho de café e ovos fritos com bacon para o café da
manha no ar, seria tão bom que aquilo voltasse.


     Seria ótimo se eu pudesse levar minha família para ir ao
parque de novo, ver as árvores desabrocharem e sentir o leve aroma que vinha
com a primavera e poder correr, brincar e se divertir com meus filhos e minha
mulher, eu tenho saudades das vezes em que íamos todos juntos de baixo daquelas
árvores floridas que eram tão belas.


     Ainda me lembro, quando nos reuníamos na frente da
televisão, eu, minha mulher e nossos bebês, era tão bom assistir um filme
juntos, tendo uma pipoca quente sempre e as risadas que dávamos, sempre riamos
de tudo juntos, pois quem esta feliz, ri e se diverte sempre, seja por coisas
bobas ou não, sempre riamos.


     Sinto saudades daqueles momentos felizes, hoje minha
mulher e meus filhos não saem da cama, estão doentes com uma doença nova, nem
os médicos sabem o que é. Não adianta pedir para os doutores do nosso país,
eles não sabem de nada, nunca sabem quando a gente mais precisa.


     Decidi viajar para o Japão, onde a medicina parece ser
melhor, e a tecnologia para investigação de doenças e mais avançada, mas isso
não deu em nada, eles não conseguiram descobrir o que era, e ainda não chegaram
nem perto de descobrir algo.


     Não podia ficar parado e esperando por eles, eu tinha que
fazer algo e então mergulhei nos livros e em pesquisas, não podia deixar as
pessoas que amo morrerem assim, e enquanto eu tiver uma gota de força irei
fazer de tudo para achar alguma cura ou tratamento.


     E no porão eu fiquei pesquisando, se passaram dias e
dias, e cada vez os gemidos de dor dos meus amores, antes inaudível, agora se
escutava de longe, isso me apertava o coração, e eu me esforçava mais. Quase
não dormia mais a noite, pois meu objetivo chegava mais perto de ser realizado.


     Foi muito tempo de pesquisa, essa fora feita em tantos
locais e tantas fontes que já não lembro a maioria, mas o importante era que eu
estava conseguindo, não só com os estudos, mas também com experimentações e
adaptações para esta nova doença desconhecida. Eu estava quase lá, tão próximo
da cura, eu sentia isso, era algo forte me dizendo que estava certo. Após meses
de pesquisas, análises e estudos rigorosos, eu havia conseguido a cura, aquela
que salvaria meus anjos, os meus motivos de viver.


     Eu subi as escadas e relembrava os momentos de
felicidade, o sorriso de cada um deles, já podia ate sentir o abraço deles me
apertando novamente, era tudo o que eu mais queria, era o que ainda me mantinha
em pé.


     A enfermeira que eu contratei para cuidar deles, em
quanto eu fazia as pesquisas, estava no seu expediente de almoço, e eu com
tanta saudade e com a vontade de ver meus anjos sorrirem e se levantarem de
novo, fui e apliquei o remédio sem pensar em mais nada, sem medir as
consequências que isso podia causar, a saudade deles me deixou ensandecido por
revê-los, e quando o fiz parei, e pensei no que podia acontecer, em todos os
riscos que envolviam o que eu fiz, mas já era tarde, remédio já tinha sido
injetado e só o destino poderia falar por si.


     De segundo em segundo, eu acompanhava os monitores de
batimentos cardíacos deles, estava tudo bem por enquanto, os gemidos tinham
parado, isso me havia sossegado um pouco, e estava aumentando minhas esperanças,
quando aconteceu o que eu mais temia, como se fossem um só, os monitores
apitaram, dizendo que tinha ocorrido uma parada cardíaca. Eu dei um passo em direção
a eles, tentei chegar até meus bens mais preciosos, porém nem isso consegui,
minhas pernas bambearam e a visão começou e escurecer
e a última coisa que eu lembro de ter ouvido foi o bip contínuo do aparelho que
monitorava meus anjos.


     Eu não queria que isso acontecesse, só queria meus bens
mais preciosos comigo, pois sem eles eu estava enlouquecendo, eu não tinha mais
vida, eu queria poder sorrir com eles de novo, abraçar eles mais forte que eu
pudesse. Saber que eles estavam bem, era isso o que eu queria, só queria a chance
de poder ama-los de novo, e de poder ser feliz como eu era com eles, com os
meus amores.


     Quando me dou por conta e abro meus olhos, acordo em um
hospital, em um quarto branco com soro colocado em meu braço e um dos mesmos
aparelhos de medição cardíaca que estavam em minha mulher e meus filhos, minha
visão estava meio embaçada ainda, eu só sabia que tinha alguém no banco ao meu
lado, com a cabeça deitada na cama, esta estava levemente adormecida. Conforme
a minha visão foi melhorando fui percebendo o seu contorno e seus longos e
lisos cabelos castanhos, seu corpo era magro, tinha algo nela que eu sei que
conhecia, mas não me lembrava muito bem quem era.


     Estava revirando minha mente, em busca de quem era essa
pessoa, mas com toda a confusão e com o que acontecera, minha mente havia
bloqueado tudo, então movi minha perna um pouco para o lado, e ela acordou em
meio a um sobressalto e olhou para mim, e quando vi seus olhos e seu rosto, que
antes estava abaixado, meu coração acelerou e meus batimentos subiram, eu não
pude acreditar no que estava vendo, mais parecia um sonho do que a realidade.


     Era minha mulher que estava ali deitada perto de mim, eu
não conseguia expressar tamanha alegria, só consegui falar uma ou outra
palavra, e ela então contou tudo, que o remédio quase os matou,mas os curou da
maldita doença, que nossos bebês estavam bem e estavam descansando e ainda
resaltou que foi a enfermeira que chamou a ambulância, já que eu desmaiei por
comer pouco e por desidratação.


    Eu a perguntei o porquê ela também não estava
em casa descansando e então ela me respondeu que, se eu não a tinha abandonado
até meu ultimo suspiro, o porquê ela me abandonaria agora, se ela estava em
condições graças aos meus árduos esforços.


     Esse foi à demonstração do que o amor pode fazer na vida
de uma pessoa, eu não a larguei e não a largaria por nada, e tenho a certeza
que foi esse amor que nos salvou da morte certa.


     Fui liberado do hospital dez dias depois e um mês após
era a primavera, fomos todos ao parque realizar o meu sonho depois de tanto
tempo imaginando como seríamos nós, todos juntos de novo, embaixo daquelas
árvores todas floridas de várias cores e vários tons. Houve muitas gargalhadas
e muitos sorrisos que faziam falta nos meus dias, tudo que eu queria estava ali,
comigo agora, pois nada supera o amor de alguém por sua família.


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