– Sabe amiga, desde que o ano novo rompeu fico em vários momentos com os olhos rasos d’água. É tanta tragédia, tanta notícia ruim que fico até me perguntando se Deus também estava em algum reduto, ocupado com seus anjos, a se purificar de tanto horror que muito vivenciou nesses doze últimos meses.

– Cruz credo! Fala de Deus assim não... Mas é mesmo nêga. Dá até medo. Por isso que até café preto sem manteiga no pão eu saboreio. Sei lá meu dia! E não tem isso de pobre ou rico. Em Angra, de uma só vez, o morro levou todo tipo de gente. E foi uma facada! De uns, tirou pai e mãe; de outros, todos os filhos; um coitado perdeu a noiva, outro, família inteira. E imagine todo esse povo a ficar sem as casas. Perde seus parentes e ainda é desalojado. Como fica a cabeça dessa gente, hein? Explica aí tu, que é inteirada.

– Amiga, nem quero ficar me importando muito com isso. Se ficar a ouvir noticiário, esqueço de mim e fico a chorar pelos outros. Como bem sabe maior problema é meu filho. Tá nessa fase nojenta a tudo responder, nada está bom e fica me jogando na cara o que não pude oferecer. Desde a separação, conviver com o Carlinhos está muito complicado. E o pai, a me provocar, fica dando trela, lhe envenenando ainda mais. Qualquer coisa: “pensa que me esqueci do que fez? Tá tudo aqui dentro. Você nunca me valorizou! Vira e mexe, me largava na casa de Vozinha e sumia, curtindo com seus grandes amigos.”

– Mas nêga, é verdade. Dificuldade financeira, falta de tempo, ignorância, ou qualquer outro motivo, faz com que deixemos de fazer, dentro do viver, aquilo que hoje está a machucar, povoando a área do arrependimento, isso sem nunca se alterar.

– Por isso amiga que gosto de conversar contigo. Tu és boa nisso. Tiro e queda. Vai lá fundo. Justamente isso que queria ouvir. Quero tirar essa culpa dentro de mim. Igual ao pai, ele sabe como me arrasar. Só não quero te cansar, viu? Quase todo dia o assunto é o mesmo. Até me envergonho.

– Qual nada, nêga! Amiga é pra essas coisas. E você sabe quantas vezes já conversei com ele. Ontem mesmo, logo depois que ligou, o encontrei na saída e em um canto reservado, lhe disse: “Carlinhos, não adianta remoer o que não se muda. O que passou e foi feito, foi feito; o que passou e não foi feito, passou. Nada volta.”

– E ele, amiga?

– Me olhando, daquele jeito esquisito como sempre fazia, vítima por completo. E mal fechava a boca, logo saía. Mas nêga, como já lhe disse, nada volta. Como nada se muda. Podemos remendar, a minorar as dores, mas quem sente, guarda. Quem não recebeu, sofreu. E o que valia, perdeu-se, naqueles momentos vazios. E ele ressente isso.

– Amiga, é justamente isso que eu quero que ele entenda. Não adianta relembrar coisas que nada mais podemos fazer. Todo momento lhe digo: “filhinho, sei que errei. Não te dei a atenção devida em todos esses anos. Você não entende, mas eu precisava viver. Depois de adulto, me dará razão. Mas vamos mudar isso. Só temos a nós dois. Vamos nos unir e viver nossos momentos!”

– Nêga, na próxima vez que conversarem, olhe profundamente em seus olhos e diga-lhe: “na verdade filho, todos podemos tirar proveito até daquilo que não tivemos. Como todo o tempo acaba sendo preenchido dentro de nós de uma forma ou de outra, uma simples negação se preenche em dores e como resultado, aflora mágoa e rancor. Mas, pior é nada! E como dizia Guimarães Rosa: ‘o nada é uma faca sem lâmina, da qual se tirou o cabo’. Como se vê, quando nada impera, nada sobra. Por isso filho, por mais que não lhe tenha ofertado prazeres em dado momento, algo se manifesta em nosso pensamento, como resposta à circunstância vivida. Logo, tudo é válido no viver. O importante é saber tirar proveito do momento vivido.” Assim mesmo nêga. Na lata! Quero ver ele não se ligar.

– Amiga, dessa vez você foi fundo. E está mais do que certa. Tudo é válido no viver. Certíssimo! De tudo devemos tirar proveito. Até das negações. E, para arrematar, nem darei tempo pra ele respirar. De pronto, vou lhe gerar outra importante reflexão, também do mestre dos Grandes Sertões: “o que é o que é: é melhor do que Deus, pior do que o diabo, que a gente morta come e se a gente viva comer morre?”

– É nada, nêga! Nonada.

– Isso mesmo amiga. Pior é nada!