Sentiu uma dor que parecia lhe cortar em duas. Foi para o banheiro enxugar as lágrimas que não conseguia conter. Não poderia deixar à mostra a fragilidade dela diante dessa estupidez. Sempre foi forte e desta vez, será também.
Ele disse que não há chance alguma de os dois viverem juntos como desejavam antes dele viajar. Ela não persuadiu. Não insistiu. Não disse nada. Ele ficara impressionado. Ele lhe dissera que estava se envolvendo com outra pessoa. Mas Carolina teve de aprender a ser forte muito antes de superar qualquer término de namoro. Isso era de menos, mesmo que estivesse rasgando sua alma.

Cresceu na favela. Viu tudo que nenhuma criança desejaria ver. Mesmo quando os olhos insistiam em sonhar. O pai morreu num confronto entre policiais e traficantes no Morro do Quadro em Vitória. O pai não tinha envolvimento com o tráfico. Mas era negro, de periferia e se vestia mal, por não ter condições de comprar roupas melhores. Para os policiais, era só mais um “negro”. Para Carolina, era o herói dela morrendo em sua frente.

Aos cinco anos de idade já ajudava a mãe a cuidar dos outros quatro irmãos. Brincava pouco, pois tinha que ajudar a mãe nas tarefas domésticas e ir para a Fundação da Igreja, pois sua mãe não a queria perto dos meninos do morro. Cresceu assim. Sua mãe sustentava a casa sozinha, depois que o marido morreu. Foi trabalhar na limpeza de uma terceirizada na Assembléia do Estado do Espírito Santo. E para ajudar nas contas, Carolina e seus irmãos iam para as ruas vender balas no trânsito.

Sua mãe teve sérios problemas de coluna e teve de se aposentar. E teria de fazer fisioterapia toda semana para não ficar inerte. Carolina, já com seus onze anos, já trabalhava nas casas dos deputados da Casa do Estado. Informalmente, é claro. E assim, conseguia manter seus irmãos menores na Fundação o dia inteiro e ajudar a sua mãe nas contas e ainda estudar a noite.

Aos dezessete anos, prestou vestibular para Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo. Passou em oitavo lugar. Estava estagiando num banco no Centro da capital, ainda ajudava a manter o sustento da casa com a aposentadoria da mãe e seus irmãos só estudavam e iam para a Fundação, pois Carolina preferia assim. Não queria que eles perdessem o resto da infância trabalhando.

Às vezes ia para o banheiro do banco e chorava desesperadamente. “Quando esse inferno vai acabar?” Enxugava seu rosto depois de molhá-lo para melhorar “a cara”. Os pesos das responsabilidades estavam a esmagando, e muito. Em sua memória viu o seu pai caindo depois de ser baleado inocentemente cinco vezes pelos policiais militares. E lembrou do pensamento que lhe veio quando tinha apenas cinco anos “Tenho que ser forte”. É, tenho que ser forte. Saia do banheiro e continuava. Por honra ao pai que foi morto por ser negro e pobre. Ela lhe daria muito orgulho aqui na Terra esteja ele aonde estiver.

Em casa, não tinha tempo para conversar muito. Chegava exausta e sempre verificava se sua mãe estava bem e se seus irmãos estavam limpos e fazendo os deveres de casa. Está tudo bem, posso dormir em paz.

Conheceu Gustavo no terceiro período do curso de Psicologia. Ela era negra, cabelos cacheados, lábios grossos e possuía no olhar uma feminilidade diferente das outras garotas. Como se fosse dona de si mesma. Uma mulher forte, corajosa e que não temia ninguém. Isso atraiu Gustavo, que nunca viu isso em outra mulher que ele tivesse conhecido.

Gustavo morava em Jardim da Penha, na mesma capital. Filho de um empresário e de uma diretora de um colégio particular, não precisava fazer nada da vida além de estudar. Era o que os seus pais o exigia, boas notas. Só.

Branco, de classe média, cabelos lisos e sempre bem vestido, não tinha muitas dificuldades na vida. Ia à praia todo final de semana, viajava nos feriados e férias da escola e agora da universidade. E uma vez por ano, junto dos pais, viajava para o exterior. Estava namorando Carolina há dois meses e insistiu para que ela fosse até a casa dele para apresentá-la aos seus “futuros sogros”, dizia. Ela não gostava muito da idéia. Tinha medo do preconceito que podia sentir de longe destas pessoas.
Já conviveu em casas de deputados e sempre era inferiorizada por ser negra e pobre. Não queria sentir isso novamente. Mas Gustavo insistia e ela não conseguiu resistir muito e decidiu ir, mesmo quando a intuição a avisava que ela iria se machucar, mas por Gustavo ela decidiu ceder e foi, mesmo que doesse demais nela depois.

Ele não percebeu a estranheza dos pais ao vê-la. Ela sentiu, percebeu. Pode-se sentar querida, disse o pai de Gustavo, sorrindo forçadamente, por educação. O que você faz? Logo perguntou a mãe dele, preocupada com o futuro do filho, pois não queria ele envolvido com negros, ainda mais de periferia onde há tantos traficantes. Carolina respondeu educadamente, sentindo a pressão da futura sogra. Estava desconfortável e tensa, parecia que estava para ser enforcada, como numa inquisição.

Fingiu um mal-estar. Disse que era devido a alguma coisa que comeu. Agradeceu a boa receptividade dos sogros e os abraçou. Ao sair, viu que sua sogra a fitava de maneira aniquiladora. Gustavo a levou para a casa, no Morro do Quadro. À noite se você melhorar amor, me liga para a gente pegar um cinema ta? Me dá um beijo. Ela o beijou amantemente. E se despediu.
Ao entrar em casa, sem cumprimentar a mãe e os irmãos foi-se para o banheiro chorar lembrando do semblante da mãe de Gustavo. Uma dor estava surgindo, avisando que ela iria sofrer para continuar com ele.

Não demorou muito para os pais de Gustavo desmascarar todo os preconceitos diante da atual situação. “Não queremos neto mestiço” Gritava sua mãe. “Meu filho ela não é da nossa raça, entenda. É pro seu bem. Isso irá fechar muitas portas profissionais para você. Ela carrega um destino ruim e você não precisa carregar também. Nós nos preocupamos com você e com o seu futuro.” Disse seu pai. “E alguém aqui está preocupado com o que eu sinto? Alguém? Por favor?” Gritou ele, chorando. E foi-se para o quarto batendo fortemente a porta e trancou-a.

“Nos preocupamos até com o que você sente pois não queremos te ver sofrendo filho.” Disse a mãe dele atrás da porta. “Temos que fazer alguma coisa Eduardo. Não podemos deixar isso acontecer.” Disse Glória ao esposo.

Dois dias depois, Gustavo ligou para Carolina dizendo que iria sair do país para fazer intercâmbio. A lágrima escorreu no rosto dela ao ouvir no celular essa dura notícia. Ela já sabia que algo ruim estava para vir e agora chegou. Era só questão de tempo. Ela já esperava.

“Tudo bem” respondeu. “Posso desligar? Preciso lavar algumas roupas aqui em casa.” E desligou. Desceu a escadaria do Morro e pegou o primeiro ônibus que ia para Jardim Camburi.
Queria chorar, queria encontrar o silêncio, queria gritar, queria achar a paz que acabou de se esvair.
Desceu perto da Estátua de Iemanjá e foi até a ponta da passarela que dava para uma bela vista de Vitória. Estava morrendo de dor. Chorou todas as dores contidas nesta dura e dolorosa vida. Algumas pessoas que passavam se assustavam, achando que ia suicidar-se e perguntavam se estava bem. Ela respondia que sim e agradecia, sorrindo enfraquecidamente para demonstrar sua gentileza.

Ao anoitecer, foi para casa. Olhos vermelhos, rosto abatido. Sua mãe lhe perguntara o que havia acontecido e ela respondeu que nada havia, que estava tudo bem. Seus irmãos demonstraram certa preocupação também enquanto jogavam vídeo game. “Tá tudo bem maninha?” Perguntou um deles. Tá tudo bem meus lindos, eu só preciso descansar ta? Um beijo pro cêis. E fechou a porta do seu
quarto. Deixou o rádio ligado para não se sentir sozinha e no instante que ligou, uma de suas músicas prediletas tocou: My Immortal, do Evanescence. Ela não se agüentou e chorou mais o resto da noite até adormecer.

Amanheceu. Novo dia. Revigorou-se. Nada tinha a derrotado na vida até agora e não vai ser um rapaz que irá acabar com sua força e alegria. Iria encontrar alguém que a respeitasse, que a valorizasse, que a perguntasse se ela se importaria de ir antes de decidir sair do país e deixá-la sozinha. Sentia-se se encaixando perfeitamente na letra da música que a fez dormir à noite:

“And if you have to leave,
I wish that you would just leave,
Cause your presence still lingers here,
And it wont leave me alone..."

Um dia depois ela soube pelo professor que Gustavo havia saído do país. Ela seguiu sua vida, como sempre seguiu: com força e insistência, sem perder a delicadeza, a esperança e a ética.

Mas há que a vida nos guarda grandes surpresas. Um ano e meio depois de morar no Brooklyn, Gustavo havia voltado. Ela já estava no sétimo período e trabalhava numa empresa de recrutamento. Ela não pôde disfarçar a alegria chegando e a dor da rejeição lhe invadindo. Ele estava diferente. Possuía um semblante mais rígido e um pouco mais amadurecido. Parecia um homem e não mais um garoto. Mas estava calado demais, como se algo tivesse o aprisionando.

Se encontraram na fila do refeitório da universidade e ele não pôde deixar de iniciar uma conversa. Perguntou se estava tudo bem, ela como de etiqueta respondeu que sim e lhe perguntou como foi a vida no exterior, já que não se falavam há mais de um ano. Ele disse que foi bom (para a tristeza dela no momento), que aprendeu várias coisas, conheceu pessoas muito legais e bacanas. Aprendeu diversas coisas com diversas culturas, mas algo lhe estava faltando, disse.
Ela perguntou se ele havia conhecido alguém por lá e ele disse que sim, que chegou a sair com algumas garotas (um pontada no coração agora ela sentiu), mas nada demais, nada sério. Ela decidiu não perguntar mais nada, já chega de notícias péssimas por hoje né?
Ele foi se sentar no canto do refeitório e a convidou. Ela aceitou. Conversaram sobre planos de carreira, política, Freud e o que aconteceu de novo em Vitória.
A sineta tocou, ele a abraçou e se foi para a sala. Ela preferiu ficar sentada. Queria sentir por mais tempo o perfume dele em sua blusa, o calor de seu abraço em seu corpo. Estava se sentindo tão morta desde que ele se foi. Agora parecia renascer. As mulheres da limpeza apareceram e ela foi para a sala também, com a cabeça lá na lua.

A sineta tocou. A aula acabou e ela não percebeu que ficou as duas últimas aulas totalmente dispersa em seus desejos. Pegou sua bolsa e foi-se pelo corredor em direção ao portão que dava acesso ao campus e a entrada principal da universidade. Enquanto caminhava, sentiu alguém lhe tocar o ombro. Era ele. Disse que queria conversar com ela esta noite na casa dele, pois os pais dele estavam viajando. Ela quis recusar, por orgulho mas não conseguiu resistir ao desejo e combinou de vê-lo a noite.

Ela toca a campainha, feliz. Ele abre a porta, com meio sorriso e beija a bochecha dela, lhe dando boa noite. Ela sente um misto de dor e prazer. É o que sabe que vai sentir. Mas continua.
Ele foi até o barzinho da casa e pegou um Dry Martini para os dois. E iniciou a conversa perguntando como estava a família, o estado da mãe dela, se os irmãos estavam lhe dando trabalho e então tudo está indo bem, fluindo com saudade e desejo. Ela respondia alegremente, olhando-o com muito amor, e ele parecia querer retribuir, mas de algum modo, disfarçava.

Ele disse que conheceu uma garota e que seus pais estão o apoiando e querem que casem com ela. Mostrou a foto dela e disse o que ela estudava e fazia da vida. Ela partiu-se ao meio, chocada, mas dizia “que bom!” enquanto a dor lhe invadia mais uma vez por dentro. Um escuro a penetrava novamente. “Queria lhe dizer que tudo que tivemos foi maravilhoso e que eu guardo com muito amor e carinho e queria te dizer isto pessoalmente. Você foi a minha primeira paixão e é impossível esquecer alguém assim como você. Então queria a sua permissão.” Disse rindo no final.

“Eu te digo que ainda te amo e te quero como nunca. Que chorei e ainda choro várias noites por não estar com você, por não sentir mais teu cheiro, sentir teus braços nos meus, de fazer amor com você. Mas vou tocar minha vida. É assim que tem que ser.” E pediu-lhe licença para ir ao banheiro. Abriu a porta como se estivesse abrindo o fundo do poço e jorrou toda a dor da rejeição novamente. E olhou-se no espelho. Ela sabia que sentiria dor esta noite. Sua intuição já avisava. Ela já sabia. Para que sofrer? Molhou o rosto e o enxugou. Não vai mostrar fragilidade diante desta estupidez.

Vou embora, já está ficando tarde e eu preciso acordar cedo para trabalhar amanhã. Ele segurou o seu braço e disse “É isso, você vai abandonar tudo que vivemos e vai embora?”. “O que? Quem foi morar no exterior sem se importar como que eu iria me sentir e me deixou aqui, apodrecendo? Quem?” Gritou. “Carolina, essa viagem foi coisa dos meus pais, eu nunca quis nada disso. Me perdoe.” “Eu te perdôo, como perdôo qualquer ser humano que falhe. Mas você nem ao menos manteve contato depois dos primeiros meses, me deixando solitária aqui. Como curar essa ferida Gustavo? Você acha que é fácil assim? Chegar e achar que o mundo está girando ao seu redor e ir entrando na vida das pessoas sem pedir licença? Eu estou cansada de ser tratada como número! Eu farta de tudo isso! E sabe de uma coisa? Você é covarde! Eu nunca desejei que você fosse corajoso, mas no momento em que desejei, você me feriu. Traiu meus sentimentos. Agora me diz que está com uma garota e que me quer? O que você acha que eu sou? Escrava sua?” Falou em bons tons.

E abriu a porta para ir embora.
“Carolina, fecha! Sente-se. É, me perdoe. Eu não sei o que fazer. Meus pais me pressionam diariamente para te esquecer, mas acontece que eu não consigo... E começou a chorar, abaixando a cabeça. Ela não se agüentou e o abraçou. “Eu não sei ser como você. Forte, segura, determinada. Não sei...”

“Amor, a minha coragem e força são as minhas únicas escolhas. Eu tive que optar por isso desde que vi meu pai morrer diante de mim. “ Agora ela começava a chorar. Ele levantou a cabeça e tocou o rosto dela enxugando as lágrimas. ‘Quando você passa por algo assim você tem duas escolhas: ou deixar que a vida te derrube ou lutar para não deixar que ela te derrube. E eu escolhi honrar a morte do meu pai, que nada tinha a ver com a maldade deste país.” E desabou a chorar no colo de Gustavo que abraçou fortemente. “Eu não quero ser só mais uma negra morta pelo tráfico, não quero ser só mais uma negra de periferia sem estudo limpando casas de ricos. Eu preciso vencer minhas sombras sociais senão elas me derrotam diariamente. É muito doloroso isso. Às vezes eu acho que vou enlouquecer...”

“Não amor, não... Eu estou aqui e não vou te abandonar mais, nunca mais.... Eu quero viver com você pro resto da minha vida. Me perdoe, por favor. Eu ainda te amo e te quero como nunca quis todo esse tempo.” Disse com lágrimas escorrendo em seu rosto branco com algumas sardas.
“Está preparado para lutar comigo? Sofrer as dores sociais que sofro e suportar com inteligência e esperança?” Perguntou Carolina.“Farei tudo da maneira que você quiser Carol, me ensine a viver, só isso. Eu me sinto tão perdido sem você...” Chorou, feito uma criança de colo. Carolina o abraçou e eles se beijaram com ardor, medo, desejo. Uma catarse. E transaram na sala da casa como nunca haviam transado antes.

Dois anos depois, Carolina sobe o altar parecendo uma princesa. Sua mãe, seus irmãos e alguns vizinhos se emocionam. Os olhos dele brilham. Enfim, ela é a sua esposa, que será mãe de seus filhos. Negros, mulatos ou mestiços, o que seja. Serão seus filhos, amados, ensinados a serem seres humanos éticos, honestos consigo e com os outros. A integridade, o caráter deixado de lado pelas sombras sociais não irão os impedir de serem guerreiros e vencedores neste mundo onde a raça e a cor de nossas peles possuem tanto desprezo e valor. Gustavo encontrou sua coragem ao lado de Carolina e Carolina teve de volta sua felicidade e seu amor.

Os pais de Gustavo não foram ao casamento.